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	<title>Descompassado &#187; Causos Abafados</title>
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		<title>Causos Abafados &#8211; I &#8211; Parte Dois</title>
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		<pubDate>Thu, 15 Oct 2009 16:30:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Christian  Silveira</dc:creator>
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<p>Nem ele nem o amigo que sobreviveu entenderam o que estava acontecendo, e beberam em homenagem ao amigo morto, beberam pela raiva que sentiam do mundo que n&atilde;o compreendiam, que n&atilde;o os compreendia.</p>
<p>Aos 17 anos j&aacute; haviam reprovados duas vezes, sempre os dois juntos, e j&aacute; n&atilde;o eram mais sucesso entre as garotas, nem as mais novas que agora eram suas colegas. As coisas iam piorando, como uma bola de neve, primeiro  seu amigo foi internado numa cl&iacute;nica para drogados. Sem parceria e num momento de sensatez, ficou 6 meses longe das ruas, passou de ano, ainda tinha facilidade com as mat&eacute;rias da escola.</p>
<p>Sua m&atilde;e trabalhava de manh&atilde; e de tarde, &agrave; noite assistia televis&atilde;o e ouvia velhos discos. Cozinhava mal, mas sempre deixava pronta a janta para ele, o almo&ccedil;o ela n&atilde;o tinha tempo.</p>
<p>Quando o amigo voltou da cl&iacute;nica, magro, com olheiras, ele sentiu uma esp&eacute;cie de asco, medo, raiva, tudo ao mesmo tempo. Ele n&atilde;o via mais o mesmo amigo, era algu&eacute;m diferente, apagado, mas que, de forma alguma estava curado. No primeiro final de semana juntos queimaram uma bomba, pra “relembrar os velhos tempos”.</p>
<p>No rein&iacute;cio se controlaram, bebiam e fumavam apenas finais de semana, mas as coisas iam acontecendo, os pais do amigo internado se separaram, e por uns dias ele foi posar na casa do nosso jovem e sua m&atilde;e. Ambos tinham 18 anos, e as drogas voltaram, a coca&iacute;na se tornou mais frequente, um conhecido novo levava a branca pra eles por um pre&ccedil;o bem em conta.</p>
<p>No dia em que completou 19 anos aconteceu a overdose de coca&iacute;na. O agora j&aacute; n&atilde;o t&atilde;o mais jovem foi internado no hospital por 4 dias, recuperou-se bem, e na volta para casa, na mesma noite, pegou uma buchinha escondida no arm&aacute;rio e cheirou inteira. Sua m&atilde;e ouviu gritos no quarto, com m&uacute;sica alta, de madrugada, e finalmente percebeu que algo estava errado.</p>
<p>Um m&ecirc;s e outra overdose depois, ele foi internado na mesma cl&iacute;nica que seu amigo estivera. Foram 4 anos de idas e vindas, limpas e reca&iacute;das, e hoje, limpo por quase um ano, me conta essa hist&oacute;ria com um pesar na alma que me d&aacute; um n&oacute; na garganta s&oacute; de lembrar.</p>
<p>Seu pai continua apenas enviando pens&atilde;o, parece que gosta desse jeito, mant&eacute;m sua consci&ecirc;ncia limpa e seu tempo imaculado da presen&ccedil;a do filho quase esquecido. Sua m&atilde;e d&aacute; aulas ainda, ainda assiste novela e ouve discos &agrave; noite, mas tamb&eacute;m faz um curso de mestrado duas vezes por m&ecirc;s. Ele est&aacute; na faculdade, e ningu&eacute;m da sua antiga turma est&aacute; por perto para relembr&aacute;-lo do passado que ele n&atilde;o faz quest&atilde;o de lembrar.</p>


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		<title>Causos Abafados &#8211; I &#8211; Parte Um</title>
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		<pubDate>Thu, 15 Oct 2009 05:20:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Christian  Silveira</dc:creator>
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<p>Na &eacute;poca ele era jovem, tinha 19 anos, morava numa cidade do interior, nem pequena nem grande. Sua m&atilde;e era professora do ensino m&eacute;dio numa escola estadual, morena, magra, cabelos crespos, estava com 38 anos na &eacute;poca, ainda mantinha uma certa beleza, e seu jeito hippie ainda persistia na forma de caminhar, de se vestir, de olhar e de viajar internamente, sem dar muita import&acirc;ncia, ou sem perceber, ao que pensavam sobre ela, seus alunos ou seus colegas de trabalho. Ela n&atilde;o tinha muitos amigos, havia se mudado para aquela cidade quando ficara gr&aacute;vida dele, isso porque seu marido na &eacute;poca, o pai do garoto, havia sido transferido. O pai do jovem estava na &eacute;poca com 44 anos, a transfer&ecirc;ncia aconteceu quando ele fora promovido para subgerente do banco em que trabalha at&eacute; hoje; no tempo em que a crian&ccedil;a nascera ele era bonito, tamb&eacute;m moreno, jogava futebol com os amigos, tinha quase corpo de atleta, fumava maconha com a, ent&atilde;o, namorada, divertia-se e adorava escapar para outros corpos femininos, nos churrascos ap&oacute;s os jogos ia a bailes e se divertia com as loiras, dizia ele que s&oacute; seria trai&ccedil;&atilde;o se fosse morena como sua futura esposa.</p>
<p>Ele nasceu e ela interrompeu os estudos, que terminaria dois anos depois, deixando a crian&ccedil;a muito tempo com a bab&aacute;, que colocava calmante na sua mamadeira. Os tempos eram bons, a economia do pa&iacute;s era boa, as coisas eram compradas facilmente, n&atilde;o havia infla&ccedil;&atilde;o, o dinheiro rendia e a comida estava sempre na mesa, e os natais eram cheios de presentes e alegres.</p>
<p>No dia em que completou 6 anos seu pai recebeu a not&iacute;cia de uma promo&ccedil;&atilde;o, seria agora gerente do banco, contudo, precisavam mudar de cidade. Ela ficou muito feliz pela promo&ccedil;&atilde;o, mas detestou a id&eacute;ia de se mudarem novamente, dessa vez para uma cidade fora do estado. Como o pai precisava ir logo, foi sozinho, at&eacute; que o ano letivo terminasse, isso duraria quase 3 meses.</p>
<p>Ela estava dando aula para a quarta-s&eacute;rie, seu filho estava na primeira e era um prod&iacute;gio. O pai, l&aacute; de longe, mandava dinheiro toda semana; e, no in&iacute;cio do segundo m&ecirc;s, come&ccedil;ou a enviar quantias maiores. Ela pensava que era porque estava ganhando muito bem, ele fazia isso como jeito de limpar a consci&ecirc;ncia do que estava fazendo.</p>
<p>L&aacute; na cidade nova, no Paran&aacute;, ele conhecera uma morena, mais bonita, mais inteligente, mais independente, mais apaixonante. Come&ccedil;ou a se relacionar e o que mais queria evitar aconteceu: apaixonou-se.</p>
<p>Chegando perto do final do ano letivo o pai voltou &agrave; cidade, ela pensando que era pra ajudar na mudan&ccedil;a, e ele querendo dar um fim ao casamento de maneira amig&aacute;vel. Quando ela recebeu a not&iacute;cia ficou sem rea&ccedil;&atilde;o por alguns segundos, depois teve um ataque hist&eacute;rico o qual parece ter sido o in&iacute;cio de uma s&eacute;rie de problemas psicol&oacute;gicos. O estopim.</p>
<p>O garoto cresceu com o sal&aacute;rio da m&atilde;e professora e a pens&atilde;o generosa do pai bem-sucedido que, ali&aacute;s, era repelido ao m&aacute;ximo por sua m&atilde;e, e seu contato com ele foi diminuindo. Como o pai parecia n&atilde;o fazer muita quest&atilde;o de estabelecer uma rela&ccedil;&atilde;o, o la&ccedil;o foi se desfazendo, e a figura paterna n&atilde;o foi substitu&iacute;da por ningu&eacute;m mais, nem av&ocirc;, nem tio, nem padrasto.</p>
<p>Aos doze anos tomou o primeiro porre com o pessoal da escola, numa festinha do irm&atilde;o mais velho de um dos colegas. Era sempre ele e seus quatro amigos, roqueiros, os cinco que todos finais de semana tomavam cacha&ccedil;a com coca-cola com o dinheiro economizado do lanche da escola. E a m&atilde;e do rapaz parecia sempre imersa dentro dela mesma, afogada demais pra perceber as mudan&ccedil;as, pra perceber que o prod&iacute;gio estava sendo apagado aos poucos.</p>
<p>A cacha&ccedil;a com coca ficou mais frequente, e o baseado entrou na hist&oacute;ria quando eles tinham 13 pra 14 anos. Era f&aacute;cil conseguir, era barato, e era, acima de tudo, descolado, as garotas achavam eles os maiorais, e assim foi at&eacute; os 16 anos, quando todos come&ccedil;aram a estudar com mais afinco. Dois dos cinco se afastaram, retomaram as r&eacute;deas, assumiram as responsabilidades. Restou ele e mais dois dos amigos.</p>
<p>Foi numa noitada, ap&oacute;s um dos dois ter brigado com seus pais, que eles tomaram um dos maiores porres da vida e o filho que fugira de casa roubara o carro dos pais. B&ecirc;bados, chapados, experimentaram a coca&iacute;na e a velocidade do carro que mal sabiam dirigir. A primeira morte da turma, a do garoto que havia brigado com os pais.</p>


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