seca
Era uma intimista, ao menos representava ser. Tinha na sua casa um cactus somente pra poder lembrar da vida que não precisava ser regada, que não precisava de muita atenção, acontecia de qualquer forma, preferia isso às violetas, estas precisavam de água, de sol, de ar e, como sua mãe dizia, de atenção. Ela não queria dar atenção, não queria cuidar, não queria ser cuidada, não era uma planta.
Destacou-se no ensino médio por suas idéias diferentes, não era necessariamente egoísta, mas pensava como se fosse, e revelava novas luzes aos seus colegas e professores, com redações de acidez inequívoca, o trabalho dela era sempre o mais sutil. Nem sempre agradava aos professores, conservadores, principalmente as professoras religiosas, cheias de pudores, de limitações. Ela costumava comparar as velhas professoras com cavalos com cela, quem as montava era a madre superiora da escola, e elas, tão tementes à madre, disfarçavam sob o manto de Jesus suas lamentações, diziam ser fiéis a deus e ao senhor jesus, balela, tinham medo de perder as bênçãos da carrasca superiora.
A vida de universitária também não lhe foi uma maravilha. Iniciou o ensino superior com total dedicação, mas ainda no primeiro semestre percebeu – e tentou negar a si mesma – que nada seria como ela esperava, as aulas eram vazias, os mestres eram pessoas comuns, lutando para sustentar seus filhos, vendendo idéias alheias e muito mais baixas do que aquelas que eles tinham antes de se perderem de seus sonhos. Velhos frustrados, foi assim que ela os qualificou, mas precisava de um diploma, com ou sem a simpatia dos mestres. E assim se foram os dez semestres do curso de direito, cada semestre ela ansiava em vão por aulas melhores, por professores competentes, a maioria era de conchas vazias, ecoando palavras que escutaram ou leram em livros, e assim escondiam seus cérebros quase caindo em desuso. Uns outros, porém, conseguiram a atenção da jovem, justamente por não o precisarem, eram almas livres, não estavam ali para alimentar ninguém, ensinavam porque queriam, porque tinham um ideal que não podia ser apagado tão facilmente. Certo que dentre estes apenas um já era senhor de idade avançada, os outros ainda jovens poderiam se transformar em conchas, mas este senhor não, já demonstrara toda sua tenacidade durante a vida, e assim seria até a morte.
Por várias noites se juntou aos verdadeiros mestres da universidade, e ela se sentia à vontade, como poucas vezes na vida. Entre vinhos e whiskies, entre charutos e cigarros, descobriu um outro mundo fora das leis da sociedade. Era um grupo de estudiosos de um mundo oculto, e ela conheceu professores de direito, filosofia, engenharia, psicologia, empresários, jovens, velhos, solteiros, casados, enfim, várias pessoas diferentes unidas em um círculo para um objetivo comum: celebrarem à vida à vontade em liberdade.
Um dos homens daquele grupo acabou se aproximando dela, ele era também universitário, cursava psicologia. Mas essa não é uma história de amor, e a nossa moça não se apegou ao rapaz, apesar de com ele ter descoberto muito mais sobre sexo, paixão, tesão e companheirismo.
Após sua formatura, seus trabalhos durante o curso lhe renderam uma bolsa de estudos fora do Brasil. Fora estudar na Espanha. A Europa era incrível, cheia de tradições, e por mais que as pessoas fossem calorosas e muitas vezes expansivas, ela nunca sentira tanta vida interna no Brasil como sentira por lá, as pessoas cultivavam coisas dentro de si, umas possuíam jardins, campos de trigo, violetas, outras tinham campos de pedra, esgotos e prisões, mas já era alguma coisa. Ela, contudo, permanecia com seu cactus, e comprou outro quando chegou lá.
Aplicava o que aprendera fora das salas de aula diariamente quando estava sozinha, jamais descuidara de si. Vários jardineiros europeus quiseram pôr as mãos em seu jardim, em seus cactus solitários, mas ela não permitia que lhes regassem, admirar era a única opção.
Anos passaram. Ela terminou seus estudos e voltou ao Brasil para uma visita um pouco mais longa aos seus pais. Eles já estavam velhos, os seus olhos brilhavam pouco, cheios de amarguras e tristezas, cultivavam alegrias pretéritas e ela era uma delas, a filha única, a garotinha dos olhos cor de mel, de cabelos longos, que brincava com os garotos da rua. Hoje seu cabelo estava curto, e seus pais pareciam haver cortado, também, os laços um com o outro, como se vivessem juntos por conveniência.
Um dia ela descobriria que aquilo não era falta de amor nem desatenção. Seus pais tinham apenas um jardim, e esse jardim só permitia um cactus nascer. Quanta falta de cor, quanta falta de cheiros, um cactus só não poderia alimentar os olhos de uma família mais por muito tempo. Agora era hora de começar a plantar algumas orquídeas, violetas, rosas e outras mais.
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