Compartilhei um último pedacinho da minha alma com ela, um torrãozinho de espírito que restava na consciência. Não é o caso de entender se ela merecia ou não, o fato é que eu troquei meu miúdo restante por aquilo que ousei acreditar fosse amor, claro que não era pra ela, certamente apenas para mim isso se caracterizava de tal forma.
Toquei cada minúscula parte daquela pele com um êxtase irreconhecível, como se entrasse em transe. Agora me é tão claro que, naquele momento (agora não?), ela teria tudo de mim (e não teve?), teria confissões, teria palavras, teria meus pensamentos desconexos, desencontrados, levados por uma maré que nem sabia pra que lado fluir, e a lua era cheia.
Meus lábios tocaram tudo que puderam alcançar, a língua foi mais além. Aquela espinha arrepiada, aqueles sussurros, aquelas respirações ofegantes, aqueles urros e as unhas que me cortavam, acho que foi por lá que ela retirou meu último pedacinho da alma.
Senti rasgar a pele, mas tinha muito mais ali do que poderia conter um corpo, sim, era incontido, e eu sozinho suportava o que havia de mais incrível, e viver depois de tal momento se torna vazio e tão monótono. Aí eu vejo onde se escapou o restinho do espírito.
Ela, com o cheiro mais suave que já senti, trazia a mim o que não se pode idear, e eu sentia aquelas pernas macias em volta de mim, me empurrando cada vez mais para dentro, e me liberava só pra me fazer voltar num ritmo furioso, como animais, e essa prisão que ora solta ora cinge me fez ter medo do depois, me fez querer ser um eterno prisioneiro. Sim, eu deveria ter medo, este não foi infundado, ainda sigo querendo essa prisão, e sentir o cheiro dos seus fluidos em mim.

Ontem senti um frio no espírito, ou no lugar que ele deveria ocupar. Onde tu estavas com meu pedacinho da alma?

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