Ele tentava insistentemente entender a causa da sua existência. Caminhava de um lado pro outro no seu quarto, depois resolveu fechar todas as cortinas, a porta, escurecer ao máximo o ambiente. Ainda eram 6 horas da tarde, havia um pouco de sol ainda, mas ele não queria. Com a penumbra e o silêncio, sentou-se num canto, não desejava o centro, como sempre fazia, aquilo lhe lembrava naquele instante uma espécie de palco, queria ficar escondido, não queria que sua vida o visse, não queria que deus o enxergasse, queria tangenciar o costumeiro e vislumbrar por fora.
Riu-se daquilo tudo num desespero comum àqueles que se sentem solitários. Trazia em si muitas marcas, e já não encontrava um traço nelas que lhe remetesse ao início de toda aquela confusão. Não sabia onde, mas em algum lugar de sua vida havia perdido o senso de humanidade, não sabia mais conviver com as pessoas, vestia uma máscara extremamente simpática e convincente para o trato exterior, mas em si mesmo era um tirano, cabia-lhe muito esforço tolerar a si mesmo, e pedia desculpas ao mundo por estar ali, sentia culpa de sua existência indevida.
O ar estava morno ali dentro, mas lá fora estava frio.
Sentado, no canto do quarto, com as pernas esticadas, olhava a escuridão que, apesar de aumentar com o pôr-do-sol, parecia diminuir, pois seus olhos começavam a se acostumar. Via os pontos luminosos dançando na sua frente, em todo lugar, aqueles malditos pontos luminosos que tanto fizeram parte de seu imaginário.
Pensava, não, melhor, refletia acerca de si mesmo. Acabava, porém, perdendo-se por dentro, e voltava, era infinito.
Como assim? De repente nascemos, somos jogados num mundo sem saber como nem porquê, depois buscamos ao menos saber pra onde vamos e isso também nos é escondido. Tudo foi sendo jogado de um modo tão ao acaso, cada minúcia era sem sentido, estava interligado com tudo em vida, bem sabia, no entanto, se fosse diferente, tudo diferente, também estaria. A completude da vacuidade interna era tão justificável quanto injustificável, como se a cada decisão no seu mundo estivesse sendo levado ao caminho justamente oposto ao desejado, ao pensado, ao imaginado.
Como um caos, numa sucessão de impossíveis descobertas de si mesmo, continuava observando as luzes. Resolveu fechar os olhos, uma lágrima se lhe escapara. Era tão amarga, só podia ser assim: sou igualmente amargo por dentro.
Elas lhe vinham ao quarto, elas se despiam, elas queriam carinho depois do sexo. Ele as levava ao exaustivo do prazer, percebia o corpo delas se retorcendo, desfalecidas de luxúria. Ali, e somente ali, sentia certa chispa de vida se lhe iluminar os olhos. Entretanto, no momento seguinte, não suportava aquelas trocas de carinho, queria vê-las se vestindo e indo embora, se fossem prostitutas as pagaria de bom grado para que o deixassem. Associar sexo com amor era-lhe impossível, aquele cheiro de sexo o agradava mais do que a mão da mulher tentando lhe agradecer os momentos vividos. Elas, carentes de atenção; ele, de vida.
Debruçou-se sobre os joelhos agora dobrados. Não queria ser assim, não era desejo seu tanta frieza, se é que assim se pode chamar. Estava quase em posição fetal, aquilo lhe confortava, não queria ter saído do mundo dos sonhos de seus pais, preferiria ter sido apenas uma idéia e não um ser vivente. Agora não era mais uma lágrima, era um choro contínuo e quietamente desesperado. Por que gritar se a única pessoa que queria que ouvisse seu pranto era sua alma, ele sentia falta de uma alma que pudesse sentir algo além daquilo. Sempre mais do mesmo.
Perdera a conta de quantas vezes tentara voar, quebrar tudo o que era e buscar a si mesmo enveredando por sua mente, sua alma, seu espírito. Quanta coisa conseguira, quantos transes, quantos insights, mas agora, ao contrário de anos anteriores, aquilo tudo se lhe apresentava constantemente, era o tempo todo assim, e já não mais lhe configurava um prazer como antigamente, era-lhe, pois, uma tortura perceber os porquês e os mecanismos sistemáticos que se escondiam por trás de cada detalhe.
A vida era uma equação não integrável, não derivável. Conseguia se aperceber de quase tudo com uma sistematicidade impecável, porém, ao se tratar de seu próprio sentido como ser humano, falhava invariavelmente.
Desejou dormir naquele estado, ser levado para esferas mais altas de consciência, um lugar em que pudesse vislumbrar um porque daquilo tudo. Só que aquela loucura já lhe atingira tantas vezes, e sabia que não seria levado a lugar nenhum, contudo, mantinha esperança.
Aquele vazio ia crescendo, ia tomando lugar, expulsando para a periferia de si aquilo que havia na sua consciência. Comprimia tudo na abóbada do seu limite, e a tensão ia crescendo. Insuportável. Queria desfalecer, queria chegar à coroa de si. Uma serpente lhe apertava o corpo todo, e ele lutava com unhas e dentes para no fim ver sua derrota, novamente.
Levantou a cabeça, enxugou os olhos, ergueu-se e foi abrir o quarto para o ar noturno entrar. Só queria respirar antes da noitada que viria.

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