Sempre fui muito orgulhoso ao dizer: não, eu não leio best sellers.

Que estúpido eu fui, por muito tempo.

Ficava elogiando num ciclo eterno meus queridíssimos, e ainda prediletos, Milan Kundera, Hermann Hesse, Amós Oz, entre outros.

Adorava falar do 1984 do Geroge Orwell, comentar sobre o Partículas Elementares do Michel Houellebecq.

Dizia, com certo desdém, que não havia gostado tanto assim de Tolstoi e Dostoievski.

Enfim, boçalmente presunçoso. Um comportamento de leitor juvenil, né?

Porém, nesse semestre aprendi uma coisa muito valiosa: best sellers podem, sim, ser bons, aliás, mais do que bons, ótimos livros.

Duas surpresas me fizeram mudar essa opinião intransigente e preconceituosa.

1- O Guardião de Memórias, de Kim Edwards: a estadunidense me surpreendeu de diversas maneiras com esse romance extremamente delicado e tenso, como se durante a história toda uma tênue linha estivesse esticada, desfiando, quase arrebentando e liberando toda a tensão possível.

O Guardião de Memórias trata com uma sutileza e precisão incrível o mundo de um casal jovem que tem filhos gêmeos, um deles, a menina, com Síndrome de Down. A reação desencadeada por esse fato segue proporções ad eternum.

Mais tarde, vemos um casal desestruturado, desatendido do que chamamos de amor; ambos alheios a esse sentimento, senão por um amor por seu outro filho, que se torna um adolescente estrangeiro em seu próprio lar, carregando o peso da decisão dos seus pais.

Todos, pai, mãe, filho e filha, unidos em uma corrente sem elos, presos pela culpa e, ao mesmo tempo, distantes pela culpa e dor, impossível de se comunicar.

Edwards foi extremamente perspicaz na elaboração dos personagens, complexos e cheios de perturbações. Sua astúcia na elaboração das evoluções psíquicas e do desenrolar do enredo foi louvável, ainda mais em se tratando de um romance de estréia.

2- A Menina que Roubava Livros, de Markus Zusak: esse escritor australiano, no entanto, surpreendeu-me por outros motivos.

A forma delicada com que redigiu o romance me fez ficar embasbacado.

Percebe-se que o autor pesou de forma muito cuidadosa cada palavra jogada no livro. Cores e cheiros, nuvens e animais, livros e mortes, todos eles assumiam papéis sinérgicos e sinestésicos. É preciso estar atento para compreender a sutileza dessas minúcias tão ricas de sentimentos e vivas.

A história se passa com uma menina, Liesel Meminger, numa ruazinha da alemanha nazista. A garota, apaixonada por livros, acaba nutrindo uma ardente dor e raiva pelas palavras, porque foram elas que trouxeram toda a sua desgraçada, a desgraça daquelas que ela amou e a desgraça da alemanha. Foram elas, as palavras, que puseram Hitler no comando de uma empreitada desgovernada e insensata.

O livro é quase uma poesia narrada pela Morte, sim, a narradora é a fria coletora de almas. Com notas intercaladas ao longo do texto, trazendo miudezas do que forma uma vida, muitas vidas, um mundinho pesado e cinza.

Ah, meus caros leitores, se vocês também são preconceituosos com livros populares, como eu sou – ou era, ainda não sei definir -, tentem deixar de lado isso por alguns momentos, para alguns casos (não sou extremista a ponto de incluir Eclipse e seus séqüitos aqui).

E lembrem-se: Machado, Gregório, Azevedo e companhia, já foram pop, já foram leitura de periódicos, de jornais e de madames burguesas.

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