São momentos assim, quando mais se quer escrever, que nenhuma palavra parece conexa, nenhuma se concatena, nada se liga e o sentido se perde em pensamentos tortos, tétricos, embaçados.
Sei, também, que se procurar alguma música, algum poema, qualquer coisa já pronta pra traduzir essa intensa insensatez adjunta aos meus pensamentos, não acharei nada que me satisfaça. Nada dirá o que quero dizer, se é que algo precisa ser dito.
A solidão é sermos mil em um só, e ninguém é igual a ninguém, mesmo tendo mil dentro de si. Quando nos juntamos, do próton ao elétron, da célula ao corpo, quando nos fizemos animais, vestimos máscaras desconhecidas, como se fôssemos atores da várias peças e o autor não nos contou ainda o final. Ele pede que improvisemos, mas nos perdemos entre tantos papéis interpretados ao mesmo tempo.
Mesmo assim, não gostaria de saber do final antes, não quereria estragar a surpresa que nos foi preparada, ainda que a surpresa seja não haver surpresa alguma. O desejo de acreditar em algo, o próprio acreditar, não em um deus, não em um destino, mas num sentido, numa direção.
Não quero saber de nenhum final, meu caro autor, só gostaria que me retirasses um momento do palco para tomarmos um café juntos, talvez uma cerveja. É, por que não uma cerveja?

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