Mais por impulso do que qualquer outra coisa eu disse em voz alta, vou pra Córdova. Nisso não havia nada de instrospectivo, nada de premeditado e nenhuma intenção, ao menos consciente, era puro e simples impulso despretensioso.

                A Bê me olhou com olhos que não eu não soube entender, então perguntou se eu estava falando sério. Falando sério? Eu não sabia se me levava a sério também, resolvi prosseguir na idéia sem dar muito crédito ao que dizia, respondi que sim. Dessa vez vi que ela ficou séria.

                Depois de persistir, meio jocoso, na idéia descabida, comecei a acreditar na própria invenção, e enquanto a Bê saiu do meu lado para fumar um cigarro na janela, eu acessei o site do Aeroporto Salgado Filho. Descobri que não haviam vôos para Córdova, teria, portanto, que pegar um avião de Porto Alegre para Buenos Aires, e de lá ir para Córdova.

                Virei para a janela onde a Bê estava fumando, ela olhava para fora, pensando sabe-se lá no que. Eu comecei a gostar da idéia de viajar, contudo, provavelmente por medo, não queria ir sozinho, aceitaria de bom grado a companhia dela.

                Aquela noite não dormi direito. É engraçado como uma novidade muda a vida de um homem, talvez esse seja o segredo para que se mantenha o ânimo, se não se age com ímpeto, com ousadia, buscando novidades, submerge-se nos pântanos viscosos do tédio e do marasmo, e lá se morre pouco a pouco. Eu estava morrendo quando percebi isso, e como quem segura a corda de algum herói, eu estava extasiado para ser jogado para fora da minha fantasia interna.

                Liguei para minha família avisando que às 14h40 voaria para Buenos Aires. Informar a eles, e não pedir, parecia meio estranho, e, devo dizer, sentiram-se até aliviados quando disse que viajaria e que iria acompanhado da Bê. Há tempos eles ficam felizes quando digo que vou sair de casa, fazer pequenas aventuras, não gostam de me ver trancado no meu quarto, chegaram a me oferecer um depósito na minha conta, mas disse que não precisava, que tinha economizado um bom dinheiro “trancado em casa”.

                Acordar com olhos de aventura é como renascer, é como tornar a ser criança, e assim se reconhece a alegria como algo de si, a minha, porém, erguia-se tímida por detrás dos morros de insegurança, timidez e impaciência. Depois que a angústia toma uma alma para si é difícil florescer algo mais, ela é como um parasita; mas essa aurora foi diferente, nela eu vi o sol como uma estrela, seis raios iluminavam um amanhecer depois dos dias de chuva.

                Não havia muita coisa pronta para uma viagem dessas, não posso dizer que quando embarquei estava pronto, à vontade com a Bê, nem que não pensava em desistir. Porém, estava ansioso, divididamente ansioso, e resolvi que já não era hora de parar. Ao entrar no avião essa ansiedade excessiva passou, e consegui dormir boa parte da viagem.

Pouco conversei com a Bê durante o vôo. Ela me parecia animada e resoluta, decidida. Aos poucos, desde ontem quando decidimos a viagem até o momento, ela foi se revelando diante de mim como uma pessoa que eu não conhecia, fui retirando, lentamente, a névoa das minhas memórias e expectativas de, através dela, resgatar um passado, e assim fui enxergando com mais clareza. Duas pequenas almas juntas numa jornada demasiadamente inusitada, e se a razão não nos cobria a alma, o espírito trazia energia para seguir em frente. Eu balançava dentro de mim e contemplava o universo imenso que havia no âmago.

 

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