O cansaço era grande, mas fiquei supreso ao perceber que logo depois que decolamos a Bê já estava dormindo. Parecia tranquila. Enquanto a viagem tomava ares de suspense para mim, o que parecia um simples ir, como se no caminho tudo fosse se esclarecendo, agora parecia que eu remava num oceano viscoso, gelatinoso, e que a noite ia caindo cada vez mais densa.

                Contudo, foi bom que ela estivesse dormindo, pude abrir o pacote com calma e uma certa privacidade. Havia ali um baralho do Tarô de Thot, desenhado pela Frieda sob orientação do Crowley, as lâminas eram grandes e de cores vivas, ele estava envolvido num tecido aveludado preto. Havia alguns textos de instrução interna e rituais da Ordem, bem como alguns exercícios de meditação e uma carta de um Adeptus Major.

                Na carta havia uma frieza enorme, nenhum tipo de encorajamento, congratulações, nada disso, e logo me repreendi por ter expectativas desse tipo, não deveria esperar nenhum elogio nem repreensão, ainda que esta última servisse bem. Com a roupagem thelêmica, a Ordem deixava seus membros relativamente livres sobre seus próprios caminhos. O irmão que escrevia assinava sob o pseudônimo de A., e dizia diretamente acerca de um irmão que estava há cerca de oito anos naquele templo para o qual eu me dirigia, me dava instruções de como me apresentar a ele e de como proceder para receber a iniciação nos mistérios que aquele homem guardava. Sentia meus dedos formigarem enquanto segurava aquelas folhas, parecia surreal, como poderiam saber sobre meus rumos? Parecia que cada passo meu era vigiado, e isso tirava de mim o conceito de que eu era vigiado unicamente por meu Ser Interno, e somente a Ele prestava contas.

                Ainda assim, senti que estava caminhando na direção correta. A carta era incisiva no que dizia respeito às práticas e às meditações, citava as que eu deveria realizar obrigatoriamente, e que eu poderia modificá-las de acordo com a minha Verdadeira Vontade.

                Fechei os textos numa pasta, guardei tudo na minha mochila e lembrei que precisava de uma caneta e um bloquinho de anotações.

                Naquele vôo dormi e sonhei. Eu estava dentro de um templo da Golden Dawn, a luz era fraca, os irmãos vestidos com seus robes dos seus respectivos graus e cargos, quem presidia a cerimônia era uma mulher, mas eu não via seu rosto, que estava sob a sombra de um capuz. O sonho era repleto de sinestesia, haviam luzes cruzando o ar como névoas coloridas saindo das cabeças das pessoas, das mãos, dos peitos e também dos símbolos. Eu estava em pé, de frente para um altar, com uma cruz equilátera que tinha uma rosa no centro, um cálice, um pedaço circular de madeira com algumas inscrições e uma adaga. Depois, sem um link objetivo, me vi numa cripta, meio oval, apertada e silenciosa, havia um caixão ali, ao me aproximar vi a minha imagem, mas não sentia como se fosse eu, ainda assim o choque foi grande, e acordei com a voz da comissária avisando que estávamos prestes a pousar em Córdova.

                  A riqueza dos detalhes do sonho me deram a impressão de que tudo fora real, fiquei com essa sensação o resto da noite. Quando desembarcamos eu me sentia mais cansado do que antes, sugeri que fôssemos para um hotel passar a noite.

                Pedimos ajuda para o próprio hermano taxista para que nos deixasse em um hotel bom, porém, não muito caro. Ele nos levou ao Grand Astoria Hotel. Os preços não eram tão suaves assim, mas depois de um pouco de choro, conseguimos um quarto de casal por R$110,00. Peguei a chave do quarto enquanto a Bê olhava uns jornais numa mesa ali perto. Fomos para o quarto, largamos nossas coisas no chão e tomamos banho. Enquanto a Bê saía do banho eu me vestia. O quarto tinha calefação, estava quente, então fiquei apenas de bermuda.

                O domingo amanheceu com sol, via a claridade passando pela cortina. A Bê acabara de levantar, sua pele era bege, não muito clara, porém, bastante suave. Ela não viu que eu havia acordado e foi ao banheiro. Eu me levantei para olhar pela janela e afastar os pensamentos do sonho que ainda me afetava e arrefecer os hormônios que se acumulam no corpo do homem enquanto dorme. Já era nove e quinze da manhã.

 

[Veja também: Válvula de Escape]

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