Parte Segunda
Tirei as mãos da mesa como se tirasse os pés do chão, não sabia o que sentir, se era saudade da minha casa, da minha família, da adolescência, dos amigos ou das festas, ou de tudo, ou simplesmente de nada, numa mistura de sentimentos complexos, feridos, não superados. Tirei as mãos da mesa como quem busca uma corda para se agarrar, tirei as mãos e abanei para ela vir sentar conosco. Era incerto fazer isso, era incerto abanar, era incerto viajar até Porto Alegre, não era certo ser assim, despersonalizado, descompassado.
O Lúcio era muito mais amigo dela do que eu, ainda assim, eu parecia mais interessado na presença dela, talvez porque eles se encontram quase toda semana. Na verdade, eu não me interessava muito por ela, perguntei se estava tudo bem mais por educação, gostava da sensação que ela me trazia, duma volta ao passado seguro e intenso. Nessas lembranças mudadas, memórias deturpadas, eu repousava fiel à minha imaginação, e então estava em paz.
Logo o Lúcio terminou de comer e embarcou mais na conversa, e eu, gradualmente fui me reservando novamente, a ansiedade inicial passara, a saudade também, já estava ficando, novamente, entediado e ausente. Olhei para o lado, várias pessoas rindo, e tive vontade de sentar com elas, de fumar um cigarro, de perguntar o que elas faziam, como agiam, como olhavam para si, etc. Eu queria saber da alma, do espírito, e acabara de passar a noite mais comum, aquela com a qual, durante anos, mais me acostumei, e hoje já parece estar se distanciando de mim. Eu já não estou mais lá.
Um homem passou no lado de fora vendendo maçãs do amor, e bem na frente da janela um menino, com cerca de seis anos, parou-o, logo em seguida chegou quem eu penso era sua mãe e pagou o homem que já entregara a maçã. Não pude enxergar direito o sorriso do rapazinho, muito menos os seus olhos brilhando, mas eu senti isso dentro de mim, mais um resgate da infância. Ter tanta saudade e ser inundado cada vez mais por diversas memórias gostosas pode conter algumas possibilidades: ou eu fui demsiadamente feliz quando pequeno, ou sou muito cansado de espírito hoje, ou minha memória me protege das lembranças ruins, ou ainda tudo isso junto.
Havia apagado totalmente da nossa mesa, e a Bê estava dizendo que queria dar uma volta pela cidade, estava procurando algumas coisas, antiquários, algo assim. Não consegui retornar ao conversa, fiquei disperso. Então nos demos tchau e eu já não sabia o que sentir sobre aquela presença, sobre a recorrência, sobre meus sentimentos.
Pagamos a conta e fomos para o apartamento do Lúcio dormir mais um pouco. Eu dormi uns 30 minutos e acordei inquieto, o Lúcio falava no celular. Disse que um amigo queria de volta a máquina fotográfica, então tivemos que sair para devolver. No caminho ele disse que eu estava mudo, que não parecia presente, eu apenas concordei, não sabia o que dizer, sabia que ele estava certo.
Devolvemos a câmera e fizemos uma rota diferente para voltar, porém, no meio do caminho, reencontramos a Bê. Coisas impossíveis assim me fazem prestar atenção por uns momentos, sou desligado do mundo, mas não sou negligente para com os sinais. Ela nos acompanhou, à noite voltaria para sua cidade. Fomos de volta para o apartamento do Lúcio e, enquanto ele tomava banho, conversamos um pouco, eu entrei na internet olhar meus e-mails, mais por hábito do que por curiosidade, e nas propagandas do g-mail havia um anúncio de uma pousada perto de um templo budista na região de Córdoba, na Argentina.
A tela piscava na minha frente, eu piscava na frente da tela, emudeci e a Bê perguntou o que havia acontecido. O que havia acontecido? Não sei, senti como se estivesse caindo, tive uma sensação física de estar perdido. Eu acho que tenho dinheiro para uma viagem simples.
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Tá… já se passaram dois dias e você ainda não continuou a hostória… oO
Escreve logo…
To C-U-R-I-O-S-A !!!
Huahsuhasuha!
Ou escreve logo um livro e me dá!
,)
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