Parte Quinta
– Não, senta que eu quero te contar uma coisa. Falei enquanto agarrava seu braço. Por mais inexato que possa parecer, isso não é uma fuga de nada, muito menos de mim, e espero que isso se abra dessa forma pra ti também. Não é uma fuga, é uma busca. Siddarta precisou sair do seu meio para se reconhecer, Crowley ficou tempos fora, na história do Zaratustra ele foi para as montanhas, em várias outras pessoas encontraremos essa constante. Não é uma fuga, é uma busca, e eu quero que tu vá comigo fazer isso, talvez eu seja covarde para ir sozinho, ou talvez eu simplesmente pense que tu deve estar lá ao mesmo tempo.
Não sabia como me fazer entender por ela, éramos estranhos um ao outro, contudo, algo nos prendia como uma corrente de espinhos. O rumo da viagem não era tão certo, tão objetivo, mas justamente essa suspensão do controle sobre os fatos é que nos deixaria nus o suficiente para reconhecer o que havia para ser reconhecido, se é que isso existia.
Ela me respondeu que isso parecia um livro do Paulo Coelho, e eu respondi “e por que não encarar assim?”, eu não me sentia desconfortável em me ver dessa forma externa, com defeitos e qualidades, tinha consciência dessas coisas, tanto que sabia que faltava algo. Se eu pudesse, sentiria pena daqueles que passam a vida contentes com o pouco que têm em si, sem buscar o que há por trás dos véus da mente, dos olhos, da percepção física e autômota a que somos submetidos e confinados. Se eu pudesse sentiria pena, acho que meu sentimento estava mais para asco, e daí vinha minha amargura, que a Bê confundia com revolta, com fuga.
Aos poucos ela pareceu ir desistindo da idéia de voltar para casa.
Saímos do café e passeamos mais um pouco, agora longe dos pontos turísticos. Contei do que acontecera comigo nos anos em que estive fora da cidade, das namoradas, das crises, dos meus vínculos com a magia e ordens espirituais, dos sucessos e insucessos com algumas experiências ritualísticas e meditativas, etc. Por essas aventuras, que sabia que ela também passara, eu queria que ela fosse comigo a Córdova. Apesar das nossas conversas não conseguirem atingir os pontos anímicos que eu queria, pois nossa comunicação é tão limitada, sabia que nos entendíamos, ou, ao menos, nos entenderíamos em algum momento.
O ocaso vermelho estava no fim, e o frio começava a tomar espaço com um vento gelado. Paramos numa lan house, na frente havia um orelhão, de onde liguei para o aeroporto para saber do próximo vôo para Córdova: once horas de la noche, respondeu a atendente. Era quase sete e meia da noite, tínhamos ainda mais de três horas por lá e nenhum lugar para ficar.
Depois de sair da lan, caminhamos até chegar na Praça da Liberdade. Já estava escuro, mas o lugar era bem iluminado, vi um grupo de pessoas num banco fumando, bebendo e falando alto, eram roqueiros, todos tinham um estilo meio glam rock, e havia um violão escorado ao lado deles. Mais perto de nós havia uma mulher sentada sozinha, olhando diretamente para nós. Ela não fazia nada, quero dizer, não tinha livro nas mãos, não bebia nem fumava nada, não ouvia música, apenas olhava diretamente para nós como se quisesse falar conosco, como se soubesse que estaríamos ali. Uma sensação estranha percorreu meu corpo junto com uma brisa gelada.
[Veja também: Válvula de Escape]
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chris…parabéns pelos teus textos, como já disse, teu estilo de escrita faz com q eu queira ler mais e mais, e ao fim d cada história, fico me perguntando o q virá depois, ao mesmo tempo que tuas observações e conclusões fazem com q eu reflita sobre mim mesma…
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