Parte Quarta
Olhar para dentro de si com uma paisagem como a que podíamos ver em Buenos Aires era, no mínimo, disperdício do momento. Quando descemos do avião, no aeroporto ainda, vimos aquele movimento de pessoas notavelmente diferentes no modo de se vestir, de se portar, era, como diziam, a Europa da América do Sul.
Pegamos um Taxi até o centro da cidade, sem um lugar específico para ficar. No caminho passamos por praças com gramados verdes e bem cuidados, um ar de liberdade pairava no ar. O clima estava bom, nem quente nem frio, sem chuvas. Era sábado, pessoas passeavam pela rua com os cachorros, numa das praças vimos um grupo de pessoas praticando kung-fu ao ar livre.
Descemos perto da Casa Rosada, então caminhamos até a Praça de Maio, onde um rapaz tocava violão e cantava músicas dos Beatles com um sotaque bastante peculiar. Ele era bastante afinado, mas apenas umas poucas pessoas paravam para ficar assistindo.
De fato, não havia nada de extraordinário naquilo tudo. Claro, era uma paisagem linda, um lugar completamente diferente, éramos completos desconhecidos naquele cenário de tangos, mas especificamente nada de excepcional poderia ser citado. Ainda desconheço as razões pelas quais as pessoas se sentem mais em contato consigo mesmas quando se encontram longe de sua terra natal, talvez seja exatamente devido ao fato de se ser um estranho, um desconhecido, alguém despojado de suas fantasias e máscaras criadas para viver no seu meio, sendo assim, poder-se-ia ser livre para construir novas formas de ser, criar um personagem novo só para si, e ninguém poderia julgá-lo, pois não teriam outro ponto de referência, senão aquele.
Na Avenida de Maio continuamos caminhando. Desde o taxi até então nossas conversas foram amistosas, sem entrar em assuntos delicados, comentamos sobre o visual dos argentinos, sobre a limpeza das ruas, sobre os monumentos e sobre o patriotismo forte e aguerrido dos hermanos. Passamos pelo Café Tortoni e resolvemos entrar para conhecer o lugar e, se não fosse muito caro, comer algo.
Por fim, resolvemos comer algo por ali, já era fim de tarde mas não haviam restaurantes abertos ainda para jantar. Pedi um café expresso e um salgado.
– Se perdermos o rumo do que caminhamos até aqui podemos ficar completamente desajustados, despersonalizados. Já pensou nisso?
Ela me olhou com um olhar indagador e respondeu:
– Está falando da viagem? Olha, eu sei que não há nada planejado aqui, e isso é o interessante, mas dizer que ficaremos desajustados se nos perdermos nessa falta de planejamento é um pouco de exagero, não acha?
– Não me refiro à viagem. Respondi olhando para o café enquanto o mexia. Falo de nós mesmos, dos passos que demos desde aqueles dias de adolescência até hoje. E se tudo que fizemos até agora foi tão somente uma negação daquilo que nos dá medo? E se nos desviamos daquilo que mais quisemos?
– Fala de sonhos?
– Falo de sonhos, de projetos, de vontades, enfim.
– Mas e se o caminho certo for renunciar a determinadas coisas que desejamos? Já que os finais não podem ser vislumbrados, como podemos entender o que fazemos agora? Acho que o mais certo é sermos sinceros com nossa alma.
Eu não entendi nada do que ela disse, não consegui acompanhar o pensamento e ver aonde ela queria chegar. Parei com um olhar de dúvida e ela viu que devia continuar.
– Falo que se desejamos algo hoje, isso pode não ser assim pra sempre, e a certeza de que se não está incorrendo em erro é deixar uma vontade superior correr nossa mente e nos guiar. O momento é o correto, sempre, por isso temos que estar atentos a nós mesmos.
– Acho bonito isso tudo…
– Lembra do Siddarta do Hermann Hesse? É preciso ouvir ao rio, perceber o que ele tem para nos dizer.
– Acho bonito isso tudo, mas para mim parece muito distante a idéia de poder se escutar sem ter interferência de caprichos, estamos o tempo todo sendo atrapalhados por frivolidades.
– Concordo. Porém, ao se tomar consciência disso, podemos separar o que é de nosso espírito e o que é do nosso ego. São divisas tênues, delicadas, eu bem sei, mas é possível determinar.
– Eu já estive nessas divisas, mas parece que me recolhi da guerra, é cansativo permanecer atento tanto tempo, empurrando o que nos jogam, as banalidades.
– Depois de um tempo se acostuma.
– Acostuma: ficamos frios.
– Não sei se é bem isso.
– Não sei sobre meu caminho. Estar aqui, hoje, me tira muitos pesos do que sou, da minha idiossincrasia edificada. Só de estar aberto a essas perguntas já me alivia e me faz ver o pouco que se abre em mim quando desentulho minha mente.
Ela me olhou com um olhar quase maternal, como quem se alegra pelo outro, como quem diz “você está indo pelo caminho certo”, compreensiva, tive a impressão de que ela visse tormentos passados dela dentro de mim neste instante. Limitou-se a responder:
– Não vá se perder mexendo esse café.
– Estou aumentando a entropia do universo. Respondi, sorrindo, enquanto chegavam os salgados que havíamos pedido.
[Veja Também: Válvula de Escape]
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