Tudo bem que era uma hora da madrugada, o tempo continuava feio, raios cortavam o céu escuro e iluminavam a noite, iluminavam a vida. Eu disse tempo feio? Pois bem, não sei, sentir aquela eletricidade me fez bem, espantou um pouco do marasmo da alma, e eu criei ânimo para ligar pro Lúcio.

                Naquela rodoviária imunda eu pensei em comer alguma coisa antes de pegar o táxi e ir até onde o Lúcio disse para que eu fosse, mas pensei que seria melhor continuar em jejum. Peguei o táxi e dei o endereço da tal da Débora, que era onde estavam. Quando o carro parou, eu paguei os quinze reais, desci minha mochila e minha mala e parei na frente do prédio. Era cheio de vidros escuros, uma construção visivelmente nova, e eu via o reflexo de cada relâmpago que momentaneamente iluminava a noite.

                Liguei de novo para o celular do Lúcio, só que dessa vez ele não atendeu, então toquei no interfone do apartamento. Quando uma voz feminina atendeu eu ouvi uma barulheira no fundo, não consegui distinguir muita coisa, “Quem fala?” perguntou ela, eu perguntei de volta “Débora?”, ela riu e disse que não era a Débora. Eu disse “ah, sou amigo do”, então ela me interrompeu “sim sim, do Lúcio. Vê se abre aí”, eu abri o portão de ferro, caminhei por um corredor largo, com plantas, muito bem cuidado, mais além estava o porteiro voltando dos fundos daquele lugar, ele cumprimentou, provavelmente deduzindo que eu estava indo pra festa. Subi o elevador com as malas nas mãos, na subida ainda consegui passar um perfume.

                Quando entrei não vi o Lúcio, mas a garota que falou comigo no interfone, a Cacá, me recebeu e já me apresentou pra vários amigos, todos foram muito simpáticos comigo, como se eu não soubesse dos efeitos do álcool e de outras coisas mais. A Cacá, devo dizer, era maravilhosa, linda, e estava um pouco bêbada, mas eu via que era só álcool, ela me apresentou a Débora, que me disse que “teu amigo falou muito sobre ti, fez muita propaganda” e deu uma risada e me ofereceu o quarto dos pais dela pra que eu deixasse minhas malas, lá ninguém entraria.

                O Lúcio estava ocupado, a Cacá me disse com uma risada maliciosa me servindo um copo de whisky com energético. Eu puxei um cigarro e ela me pediu o fogo. Ela não me deixou um segundo sozinho, e eu já esquecia da minha angústia interior, estava deslumbrado, ou, no mínimo, ocupado demais com aquelas novidades para que pudesse pensar para dentro. Eu respirava o perfume dela, misturado com o cheiro do cigarro.

                Depois de muitos whiskies e, de alguma forma que não sei mais explicar, depois de beijar muito a Cacá, o Lúcio finalmente apareceu, acompanhado. Já estávamos todos bêbados, o pessoal começou a sair do apartamento, iam pra uma festa em algum lugar da Cidade Baixa. Porém, eu, a Cacá, o Lúcio e a guria que estava com ele, a Débora e o Gui, ficante dela, não saímos. Era 3:15 da madrugada, tínhamos ainda algum pouco de whisky e energético e muitos cigarros. Conversamos um bom tempo ainda, rimos muito, eu fui para um quarto com a Cacá, ela adormeceu às 06h mais ou menos, eu ainda levantei e fui tomar uma água. Ninguém na sala nem na cozinha, provavelmente tinham ido fazer o mesmo que nós dois.

                Acordei no outro dia com o Lúcio me chamando. Era duas da tarde, eu não sentia ressaca, mas sentia uma angústia, talvez tenha tido um sonho ruim, apesar da noite incrivelmente agradável. Nos despedimos das gurias que estavam lá ainda e fomos para a rua, o Gui nos acompanhou até perto do mercado público. Era um dia de sol, daqueles que se sente o calor úmido da água acumulada nas calçadas, nos prédios, nos ossos. Ali perto subimos no apartamento do Lúcio e eu deixei minhas malas, como não tinha nada para comer e ambos estávamos morrendo de fome, precisando de uma coca-cola bem gelada, resolvemos descer num café ali perto comer umas empadas que, segundo o parceiro, eram muito boas e baratas.

                Foi no café, pouco depois de comer, quando conversávamos sobre a noite, meio ressaqueados mas bem, que eu olhei pra porta e, como se não acreditasse, pisquei involuntariamente e tornei a olhar com maior precisão. A Bê entrando no café foi como retornar pra Cruz Alta, pras festas, alguém conhecido de tempos num lugar daqueles, naquela circunstância não poderia ser irrelevante. Levantei pra chamar ela, pensando que ela não tivesse nos visto, e o Lúcio ficou me olhando ainda mastigando uma empada de carne moída.

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