Releitura

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Tá, eu elogiei bastante esses dias dois best-sellers aqui no blog.

Ta, eu sei que daqui um tempo eles deixarão de ser best-sellers e poderão ser lidos e criticados com mais imparcialidade.

Não quero desdizer o que disse, não quero me retratar. Aliás, reitero, A Menina Que Roubava Livros e O Guardião de Memórias são dois livros excelentes.

No entanto, sinto falta de um livro intenso do lado de dentro, que nos pegue pela alma. Que pegue nossa alma como quem pega um pano sujo do chão e vai lavando, e vai mostrando de que que é cada mancha que está sendo retirada e vá além, que nos mostre a água suja no balde e diga “viu só tudo que saiu”, só não diz um “e ainda tem mais” por ser orgulhoso de si mesmo, o livro.

Sinto falta de nunca ter lido Demian, Sidharta e O Lobo da Estepe do Hermann Hesse, de nunca ter lido A Insustentável Leveza do Ser e A Brincadeira do Milan Kundera, de nunca ter lido Assim Falou Zaratustra do Nietzsche. Sinto muita falta de quando não tinha lido esses e muitos outros livros bons (que nos pegam pela alma).

Sinto falta de quando eram alheio a essas palavras porque eu podia lê-las como quem lê a si mesmo pela primeira vez, como quem tem uma janela aberta para o horizonte pela primeira vez, como quem acorda de um sonho… pela primeira vez.

Ter o inédito em nossas vidas é tão valioso que se torna, ao menos para mim, insustentável seguir sem buscar uma coisa nova. Por isso não sossego com autores e bandas, vou fuçando até encontrar algo novo e bom.

Vou me tornando um poço de cultura inútil pra minha área de atuação profissional, mas não tem muita importância, isso é m hobby, é por prazer (ou por amor?).

Porém, sinto falta de nunca ter lido esses livros supracitados, acima de tudo (creio eu), por ter sido ignorante sobre as sujeiras do pano.

Mas e se…

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Quando começamos a correr muito, a ir depressa demais, as coisas começam a se perder pelo caminho. Os valores vão caindo da carroça, a moralidade e a ética ficam em alguma estalagem beirando a estrada, as pessoas importantes vão dando um adeus tímido através da poeira do caminho e nós nos vemos apenas como sombras, e vamos, meio sem querer, vivendo o que acontece.

É comum inúmeras posses e pessoas terem seus ciclos fechados em nossa vida, é natural que muito disso se torne apenas lembrança. No entanto, a pressa do dia-a-dia, a ânsia por mais e a vontade de ganância abafam muitas cores que ainda deveriam brilhar inocentemente em nossas vidas. Mas nos mexemos tão rápido que essas cores se tornam borrões no espaço deixado pra trás.

Aliás, borrões são, mais ou menos, aquilo que enxergamos da realidade.

Não só nos é impossível ter uma compreensão completa e exata do que cada coisa significa para uma pessoa, ou até pra nós mesmos, como somado à isso parecemos fazer questão de perder a pequena habilidade de razão e entendimentos, que nos são inerentes como seres humanos, e perdemos isso por descuido, por pressa e por ansiedade.

Mas e se tudo isso (ansiedade, pressa, afobamento, desatenção et Cetera) for apenas um resultado tão simples e notório da angústia que a vida nos traz? Se for assim, como deixar o brilho voltar às cores? Como permitir que a angústia encontre uma porta de saída e nos deixe em paz naquela clareira em que paramos na estrada, cheia de flores e sons e cheiros de sossego?

Mas e se só soubermos levantar hipóteses e não conseguirmos parar para entender o que a estrada está nos dizendo?

São tantos “mas e se” que eu me canso.

Vou pro meu sossego.

Insetos

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Achei interessante alguns comentários que fizeram acerca do poema Estrado, postado há uns dias atrás aqui, mais especificamente sobre o verso:

Segue enquanto espera um raio, uma garrafa,

Uma pedra, qualquer coisa mais impossível

Que lhe caia sobre a cabeça sensível

E lhe destrua o amanhã que lh`estafa.

Há tempos está nos meus post its a ideia de um texto que parece ter amadurecido agora. Na verdade, tudo iniciou numa epifania há meses atrás quando vi um inseto se afogando, ou foi um besouro de barriga para cima sem conseguir se virar, um foi o fato e o outro a lembrança, só não lembro qual foi qual (o que também não vem ao caso).

Fiquei pensando o quanto um inseto numa situação dessas precisa/pede a nossa ajuda, nesse momento de agonia e aflição, de desesperadora impotência. Nós temos o poder de, com um simples movimento, devolver a possibilidade de vida ao inseto.

Na verdade, nós somos esses mesmos insetinhos, se debatendo pra lá e pra cá nessa arena gigantesca que é a nossa vida. Seguidamente nos percebemos em situações desesperadoras, ou apenas aflitivas, em que nossos pensamentos parecem circulares, pesados grilhões que nos forçam a permanecer parados mesmo em frenesi.

Aí entra a ideia do raio caindo sobre nós, nos tirando o insustentável peso do poder da escolha, a maldição do livre arbítrio. É reconfortante a possibilidade de entregar nosso destino a algo que está além da nossa compreensão, como se estendêssemos nossa vida de presente, segurando-a com as duas mãos em concha, carinhosamente, e dizendo “tome conta por mim, aja e decida por mim, pois eu não tenho forças”.

Esse é o papel da ideia de deus nas várias vidas que já vi passando pela minha. Vejo, com estes olhos quase cansados de tanta besteira, o quanto nos sentimos dispostos a entregar nosso poder de escolha como quem se livra dum fardo terrível. Deus, ou como quiser chamar, é o encarregado de recolher isso tudo e, de alguma forma, nos condicionar a não mais escolher e aceitar o que acontece.

Podemos chamar isso de Vontade de Impotência, já que sou um plagiador convicto do Nietzsche, me sinto no direito de inverter sua filosofia também.

Sim, temos a Vontade de Impotência!

Não queremos ser fortes, não queremos poder escolher e agir, não queremos essa responsabilidade sobre nossa própria vida, sobre a vida dos que nos cercam. Não queremos esse poder nesse emaranhados de vidas que se tocam e se batem, nessa teia indecifrável.

Queremos a paz da impotência, o sossego da não-escolha. Queremos sentar na poltrona enquanto a tempestade cai lá fora e dizer: “deus quis assim”.

E nós não mexemos um dedo pra ajudar o insetinho quase morrendo. E não nos estendem uma mão divina para nos tirar a aflição do desencontro com o entendimento de que somos fortes o suficiente para carregar muitos outros fardos.

MGMT – Congratulations

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Novo videoclipe da banda MGMT.

Simples e ótimo.

“I’d rather dissolve than have you ignore me”

Estrado

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Ela sorri enquanto carrega a maior das dores

Num peito de fibra desfeita como papel molhado;

Cambaleia por dentro, mas segue pelo estrado

Andando firme, reta, entre medos desanimadores.

Segue enquanto espera um raio, uma garrafa,

Uma pedra, qualquer coisa mais impossível

Que lhe caia sobre a cabeça sensível

E lhe destrua o amanhã que lh`estafa.

Mas caminhar de cabeça erguida é uma arte,

Não se pode desatentar do sorriso falso

Enquanto os outros lhe olham o passo:

Pode lhe cair a dignidade e não outra parte.

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