silencia
0Ah, se as notas brumosas
Calassem em minha mente,
Deixassem-me ausente
De suas marcas belicosas.
Cessaria minha poesia,
Matar-me-ia a ferocidade;
Ah, que felicidade:
Mente e alma em cortesia.
Porém, essas megeras quimeras
Vêm assaltando meus pensamentos,
Sorteando-me tormentos,
Por infindáveis eras.
talvez
0Talvez, se tomar mais uma dose
Se fumar mais um cigarro
Se o cantor tocar mais um blues
Ah, então, talvez, eu amanheça
Ou não amanheça, quem me abençoaria?
Tomei outra dose, fumei outro cigarro
E a música foi tocada
Mas não acabou, não passou
Não sossegou nenhuma gota da do vapor etéreo
Que paira sobre mim
Talvez seja a bebida…
Acho que vou tomar uma cerveja mesmo.
O ósculo da vida
0Ele tentava largar, queria soltar a vida, desvencilhar-se dela. Esta, porém, insistia em agarrar-lhe as pernas, impedia-lhe os movimentos, cingia com seus braços de esperanças a mente dele e o fazia acreditar em possibilidades.
Lá adianta ele caía novamente, um deus falho, uma desordem imprópria ao prometido pela Vida; ah, mas ela ainda o agarrava, queria o homem de qualquer forma, por inteiro, só pra ela… ela e suas esperanças.
A cada momento que ele pensava em desistir, e já havia (quase) desistido, ela, a megera vida, vinha depositar-lhe idéias de renovação, de novidades. Ah, e o pobre escutava os discursos, acreditava mais uma vez, e outra, e mais outra, sempre ponderando que nunca ela estivera certa, porém, persistia.
Ele queria fechar os olhos e descansar, mas a vida vinha lhe fazer cócegas, tirava-lhe a quietude, o silêncio era jogado para longe, a paz se tornava utopia.
Ele queria cair, mas logo no início da queda a vida vinha, com uma nuvem de algodão-doce, amaciar a queda, e fingia que tudo seria perfeito à partir dali.
Oh, pobre tolo é o homem, ainda luta contra vida, num amor e ódio indizíveis.
“O que escreve em máximas e com sangue não quer ser lido, mas decorado.” F. W. Nietzsche.
dulcíssima
1É, amor, agora eu calo,
Deixo o meu corpo traduzir
Tudo aquilo que há porvir
Neste suave e sincero embalo.
Faltam-me, pois, já, as palavras;
Agora, sejas meu cálice de amores,
Deixa-me beber teus licores,
Essas delícias que me consagras.
Terei eu fôlego suficiente
Para saciar minha sede sem afogar
Meu corpo nessa taça de âmbar?
Quero que a mim intente,
E venha me envenenar por completo
Com teu dérmico e edênico afeto.
Um pouco do Zaratustra
1Tô lendo Assim Falou Zaratustra (F. W. Nietzsche). É impossível ler esse livro sem pensar, matutar, meditar…enfim, o que seja. Há uma atmosfera épica, bíblica, filosófica, catedrática (hoje estou adorando adjetivar), que não se explica, apenas se sente, na alma, no corpo, no espírito.
Não vou me aprofundar em muitos comentários por enquanto, ainda estou bem no início, mas algumas coisas já me chamaram a atenção:
Zaratustra fala, enaltece, o corpo sobre o espírito, e citarei, abstendo-me de comentários, por enquanto, algumas frases. “Enfermos e decrépitos foram os que menosprezaram o corpo e a terra, os que inventaram as coisas celestes e as gotas de sangue redentor; mas até esses doces e lúgubres venenos foram buscar no corpo e na terra. (…)E julgaram-se arrebatados para longe de seu corpo e desta terra, os ingratos! A quem deviam, porém, o seu espasmo e o deleite do seu arroubamento? Ao seu corpo e a esta terra.”.
Há, também, outra coisa interessantíssima, pois coincide com o que eu pensava, já sabia eu que minha idéia não era, de forma alguma original (mesmo que eu não a tivesse copiado de outro lugar antes); é acerca do deus que cria um mundo, como nós podemos ser deuses criando universos dentro de nós e como poderíamos ser apenas criações de um outro artista que chamamos de Deus, ou algo do tipo. Cito: “Obra de um deus dolente e atormentado me parecia então o mundo. (…) O criador quis desviar de si mesmo o olhar…e criou o mundo.”.
Enfim…faça sua meditação, tenha sua opinião, conclua. A si mesmo.