Acabaram os santinhos
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Muito obrigado a todos os candidatos que, com a persistência de uma mula, lotaram quase diariamente minha caixa de correio com suas propagandas tão bem feitas quanto um catálogo da Renner, tão inocentes quanto uma debutante e tão sinceras quanto Gregory House.
Obrigado, de verdade, por todos os carros com música que, de uma maneira irrefutavelmente perspicaz, alegravam minhas manhãs com muitas canções bonitas e bem boladas, com jingles de uma criatividade invejável.
Obrigado, candidato que pagou pessoas para distribuir santinhos pelas ruas, foi um enorme prazer pegar cada um deles, e eu juro, se tivesse mais espaço nas minhas mãos eu pegaria mais, acho que nunca foi o suficiente, creio que a quantidade de propaganda que eu recebi por cada candidato não foi o suficiente para fazer da sua campanha uma empresa mais bem sucedida e da minha vida uma novela mais feliz.
Cinismo. Eis a palavra que lhes ofereço como a alma do negócio, eleição é negócio, é marketing pessoal, é vender o peixe, é enganar, mostrar o quanto seu papel é melhor, sua foto mais bem tratada e seu sorriso mais carismático.
Cinismo.
Os candidatos que lotaram nossas vidas com seus papéis, bandeiras, carros com som, etc., mentem na nossa cara dizendo que se preocupam com o meio-ambiente. Apontam o dedo da mão esquerda, enquanto a direita segura uma cerveja, e gozam na da cara dos que acreditam em suas lorotas bem boladas, nas suas imagens tratadas e vendidas.
Parabéns, candidatos das eleições 2010! Parabéns a vocês que contribuíram para fazer desta eleição a mais poluente de todas, seja poluição ambiental ou sonora.
Obrigado, novamente, por me mostrarem o quão desgovernado esse país pode ficar e o quão bom é viver uma vida sem horários políticos e santinhos de candidatos.
Cinzeiro
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Sacode a poeira como se fosse um cinzeiro
Lança as cinzas só para dar espaço a outras mais
Mais frias, mais secas, mais tristes…
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Deixa que lhe descartem os restos
Apaga a última chama do que lhe trouxe prazer
É um fim em si e isso é tudo, um semprefim
.
Apóia o passado apagado
Carrega em si os lábios que tocaram as sobras
Tem o gosto da ressaca de um mundo cinza
Dá gosto à ressaca da alma que lhe toca
.
E permanece assim, guardando as cinzas por necessidade
Coleciona cada boca amarga que lhe toca
Como um cigarro de prostituta
O que somos no universo
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Não recordo qual físico disse uma frase que, antes de eu a conhecer, eu já pensava nela: estudar o universo nos ensina humildade. Tá, não era bem assim a frase, mas o sentido é esse.
Há uns dias atrás li uma matéria sobre o que seria o universo pré-big bang ( http://super.abril.com.br/universo/havia-antes-big-bang-598331.shtml ). São quase abstrações paradoxais bastante difíceis de serem compreendidas pela mente. Na verdade, acredito que entender o universo e sua história pré-existencial é justamente conformar-se em não entender. Isso vai além da nossa capacidade.
Uma teoria interessante que estava nessa matéria é a de que o Universo poderia seguir uma linha mais ou menos como a de Darwin para a vida no planeta. Algo como reprodução de universos, como se os buracos negros, que não nos permitem ter ideia do que há dentro deles, fossem outros universos criados à partir deste, e dentro deles poderiam haver outras crias.
Então, se somos um grãozinho numa escala planetária, quer dizer, em relação ao planeta Terra, que é muito menor do que o sol que, por sua vez, é muito, mas muito mesmo, menor que a estrela VY Canis Majoris, quer dizer que somos o que?
Bom, não sei bem o que posso dizer que somos, tenho a mania de dizer que somos nada e muitos iriam me xingar por isso. Mas se não somos uma poeirinha, se representamos algo dentro desse universo, representamos pouquíssimo.
Se é assim, o que nossos problemas representam para o mundo? O que deus tem a ver com o prazo que você perdeu? Com os quilos que você ganhou? Com o café que você derramou no livro? O que diabos (whatahell!!!) isso significa? Nada. Ou melhor, NADA!
Quando alguém me diz que deus castiga, que pagamos por nosso pecados, eu tenho um pensamento: se ele é tão grande e pai, porque seria tão ruim conosco a ponto de nos colocar nos círculos infernais que o poeta Dante Alighieri deu uma leve explicadinha (hey, ironia, ok?)? Por acaso um pai condena um filho à vida inteira de penitência porque ele quebrou o vaso de porcelana chinesa jogando bola dentro de casa?
Se esse pensamento não é o suficiente para entender o que são essas amenidades humanos diante de um ser que, acredita-se, ser superior e criador do universo, obedeçamos a escala do vídeo. Logo, deixamos de ser um filho de um pai muito superior e passamos a ser uma poeirinha que passa quase perto do nariz dele, talvez nem isso.
E agora, o que representamos no universo? O que nossa ressaca tem a ver com isso? O que aquele pão com nutella que caiu virado para baixo significa para o universo? Nada, a não ser para nós em nossa insignificância pretensiosa e mimada.
Quando mudamos de escala de pensamento, vamos aprendendo a ter humildade diante do universo. Isso é um processo lento e doloroso, mas gratificante.
Um deserto
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Tem um modo de chover diferente;
É seco, semi-árido, no que vejo,
Em cada gesto ensaiado o ensejo
De parecer permanecer indiferente.
.
Não diz nada, cala como fosse eterno,
Quando fala não fala o que quer falar;
Corre os dedos pelas palavras, sem ar,
Escolhe uma a uma, um par,
E anota em um caderno.
.
Possui mundos que colidem em rotas confusas,
Que explodem em luzes soturnas,
Mostrando profundezas absurdas.
.
Naquele abismo, tudo é uma ofensa absurda,
Tal recôndito esquecido pela razão,
Lá chove, escorrem oceanos de lágrimas
Que pesam ao semi-árido lá fora.
.
E outro mundo colide.
Mundos ideais
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Todos nós idealizamos uma espécie de mundo ideal, não um lugar dos sonhos, ainda que um sonho represente perfeitamente bem aquilo que, teoricamente, queremos.
Passamos dias, meses, anos imaginando, detalhando, aprimorando e destruindo um lugar que nos parece ser perfeito, uma situação queria o máximo da possível a uma vida experimentar nessa encarnação e um estado de espírito perfeito, harmonicamente dinâmico.
Pois é justamente aí que reside o principal e mais real (e, provavelmente o mais terrível) erro: o estado de espírito, a disposição anímica.
Se prestarmos atenção, são incontáveis as vezes em que o ideal se apresenta na nossa frente, nos dá a mão e nos convida para um passeio. Está tudo perfeito, tudo ótimo, e a vida é só café, flores, sol e amor.
Isso acontece repetidas vezes, muito mais do que somos capazes de avaliar e entender, simplesmente acontece e nós deixamos passar. Ou ficamos assistindo, ou deixamos escapar por desleixo, ou ainda, largamos da mão do perfeito e vamos em busca de outra coisa.
Nosso estado de espírito é como as cinzas de um cigarro fumado no sétimo andar em um dia de vento: saem voando sem rumo certo, e vão se despedaçando, virando partículas cada vez menores até que deixamos de enxergar.
O vento rasgou o dia e levou as cinzas.
A vida rasgou nossa força e levou nossa constância, somos espíritos inconstantes e medrosos, e é por isso que há a necessidade de construir um novo mundo ideal toda vez que outro, que já não serve mais, é destruído ou alcançado.
Não é a insatisfação que nos move, é o medo.
Viver de café e flores, sol e sexo, rock and roll e risos.
Os mundos platônicos vêm e vão, mas a nossa maior habilidade é ser constante em nossa inconstância. Mudar, mudar e mudar e nunca mudar de verdade.