O peso do passado
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Não deveríamos ter que carregar para sempre o peso daquilo que falamos, escrevemos ou fazemos. Mas carregamos.
Até hoje sou trollado por um dos meus textos mais radicais e famosinhos do blog (sobre fetiche por pés). É claro que fiz questão de ser incisivo, na verdade, queria ser jocoso, e não me arrependo particularmente desse texto, no entanto, existem outros que leio e só não deleto porque não quero negar o que fui, o que pensei.
Assim é com tudo, assim funciona com todos nós. É natural.
Repetem ad nauseum um “provérbio” que diz que existem três coisas que não voltam, a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida. É uma pena que esse provérbio tenha vulgarizado, ele é ótimo.
Mudamos incessantemente, somos novos a cada dia, nossas ideologias são mutantes, e acredito que isso seja muito mais válido do que passar a vida acreditando em uma coisa só. Mudar significa sair da inércia, não ficar estagnado, estar disposto a procurar coisas novas e tentar melhorar.
Tenho certeza de que alguns olharão pra trás daqui uns anos e dirão “e eu nem acredito que já fui emo”.
Não podemos julgar as pessoas, não sabemos o que as levou até ali, dos processos que se desenvolveram em sua mente e em sua vida somos ignorantes. Somos ignorantes de nós mesmos.
À medida que vamos nos conhecendo, percebemos algumas nuances em nossa mente, percebemos o quanto somos infantis e corriqueiros, o quanto somos egoístas e imperfeitos. Por isso, mudamos, olhamos para trás e temos uma espécie de arrependimento, uma culpa, uma vontade de gritar, pedir desculpas, abraçar pessoas, agir de forma diferente diante de uma situação que, infelizmente, ficou no passado.
É quase uma injustiça carregar a culpa do próprio passado, é quase como carregar os erros de outra pessoas, pois é certo que somos frutos do que fomos um dia, mas não somos mais aquilo que passou. É, eu acho que é isso: não somos mais aquilo que passou.
Somos outros, somos novos, somos diferentes. Nem sempre mudamos para melhor, infelizmente, mas mudamos.
Não tenho ideias hiperativas, que ficam gritando e pedindo atenção para que eu não as esqueça. Não tenho uma ideologia para morrer por ela, não sou Gandhi, nem Che, nem Hitler, nem Newton.
Poder se desprender de coisas, de pessoas e de ideias é difícil, contudo, por vezes, é mais difícil ainda se deixar prender, se deixar fisgar, morder a isca desse mundo e dizer que se tem os pés no chão, que vive-se, de fato, num mundo de pessoas de carne, osso e lágrimas.
É injusto que nos façam ficar presos ao que dissemos quando éramos mais jovens. Não somos mais os mesmos, não temos mais o mesmo discurso, não lançamos mais a flecha da mesma maneira.
A esquerda não é mais a mesma, a direita não é mais a mesma. O socialismo se confunde com o capitalismo em países desse planeta. O preto vai virando o branco e a gente nem percebe, no entanto, somos sectaristas e conservadores quando se trata de apontar o dedo e jogar uma pedrinha.
Os mineiros do Chile
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Todos viram os mineiros que saíram da mina em que ficaram presos, todos estão sabendo da história e todos viram a capacidade da engenharia atual para fabricar geringonças enormemente úteis. Ponto.
O que eu realmente não entendo no meio disso tudo é, aliás, são os vários “presentes” que estão sendo dados aos homens resgatados e ao heroísmo infundado que lhes está sendo atribuído.
Em primeiro lugar, herói foi Gandhi, foi Newton, foi Einstein, foi sei lá mais quem. Heróis são pessoas que fazem alguma coisa extraordinária para a humanidade, heróis são pessoas que se destacam em um mundo cheio de mazelas, de preconceitos e de absurdos.
Quem faz algo importante e, claro, muito difícil e honroso para si mesmo ou para sua família ou para um grupo de pessoas não é um heróis, é somente uma pessoa honrada, forte e que teve ímpeto de fazer uma coisa corajosa e importante. Ser heróis está além disso. Ponto.
Agora, os presentes. Como assim os mineiros ganharam ingressos para jogo do Real Madrid? Como assim ganharam viagem de descanso para a Grécia? Ipads? Camiseta do Pelé autografada?
Sério, se fosse pra melhorar a segurança no Brasil o rei do futebol não daria uma camiseta para leilão. Se bem que a chance de que o dinheiro arrecadado no leilão fosse desviado seria enorme.
Enfim, o que eu me pergunto é: o que, diabos, tem a ver futebol, Ipad e Grécia com uma tragédia que aconteceu com esse homens?
Sei que os mineiros foram corajosos e agüentaram uma situação extrema, mas quem tem que ressarci-los pelo trauma é a própria mineradora, ela que os indenize.
Eles, os homens que saíram do buraco (também metaforicamente), têm motivos e motivos pra comemorar, mas essa coisa toda de presentes, hino nacional do Chile, et cetera, sei lá, me parece meio forçado.
Nós somos feitos de experiências, nós nos construímos e nos destruímos sobre e sob experiências diversas, somos atitudes, pensamentos, conseqüências e tudo isso, somado, faz de nós seres humanos, e não podem ser classificados em bons ou maus. Estamos vivendo nossas experiências, boas ou ruins, diariamente, constantemente, intensamente ou não.
Comemoremos, também, se for o caso, uma conta atrasada que foi paga, uma promoção no trabalho, uma nota alta, qualquer conquista. São vitórias nossas, assim como foi uma vitória daqueles homens ter mantido a sanidade sob essas condições, assim como foi uma vitória dos engenheiros e bombeiros que trabalharam no resgate.
Mas, cá pra nós, o que Steve Jobs, Pelé e companhia têm a ver com isso? Hein?
A carne que se trai
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Ela tinha os lábios brancos ainda quando ele os olhou, quando sua própria boca parou de tocar a dela. Logo o sangue voltou a circular normalmente, mas naqueles segundos em que os lábios dela estavam pálidos ele pensou que iria perdê-la… para sempre.
Suas mãos seguravam a carne, o que antes eram braços passou a ser carne, pele, osso e pressão; talvez, um ponto de referência, algo para se agarrar em segurança durante um tornado, não sem o sentimento de desespero.
Ela olhava com olhos de ressaca: era dissimulada. Tentava negar em sua face a leve sensação de dor que aquelas mãos lhe traziam aos braços. Queria dizer com sua expressão “ei, você me perdeu, não adianta me segurar”; queria, contudo, dizer de verdade “ei, por que assim? Por que fez isso? Por que estragar desse jeito?”. Por fim, disse com uma voz baixa, firme, rouca e incolor “me solta”.
Havia muito sangue em suas veias; ele estava confuso, cego e despreparado.
Acabara de beijá-la como se fosse o último beijo, seus lábios quentes se encontraram em um espaço salgado, temperado pelas lágrimas de arrependimento e consciência. Ele sabia o que viria a seguir, mas não queria aceitar.
Ela acabara de beijá-lo de volta, não estava sonhando. Mas como podia ser tão fria?
Me solta, ela repetiu com uma voz glacial. Ele aliviou a pressão, mas não soltou, não poderia soltar.
Duas toneladas de segredo lhe pesavam os ombros. Não era o que ela sabia, era o que já tinha feito, tudo lhe pesava e lhe ardia. Seus dedos que seguravam a carne queimavam como se fosse o braço dela que lhe agarrasse e torcesse as falanges.
Ela queria dar-lhe um tapa e gritar de dor, chorar lágrimas quentes e salgadas. Ela queria ficar histérica por alguns instantes e acreditar que depois disso tudo ficaria bem, que era tudo uma brincadeira de mau gosto.
Seus olhos, os dela, castanhos claro, marejavam, e uma só lágrima rolou fervendo, quase vapor, sobre sua boca, e a respiração ofegante fez-la voar. Se pudesse congelar o instante, eu diria que aquele sopro dela fez mais do que a gota de dor voar e se espalhar em milhares pelo ar, diria que aquele sopro despedaçou a esperança que ele tinha de voltar ao que era antes, ao início.
Milhares de peças voando pelo ar, impossíveis de serem montadas novamente.
O amor é assim, quando se quebra os cacos não podem mais ser juntados com precisão, sempre falta uma peça, um encaixe. E aquela vacância ficará para sempre, uma nódoa travestida de lição e trauma. Impossível de esconder ou relevar.
Um dia lhe perguntariam “onde está aquela peça?” e ele responderia “perdi, em algum lugar entre a minha infantilidade e a minha estupidez”.
Essas manchas que nos pesam no coração não são retiradas, elas ficam mesmo sob aquela chuva que molha até os ossos. Os outros perdoam porque não enxergam a mácula que nos dobra as costas sob seu peso.
Ela queria abraçá-lo, dizer “tudo bem amor, eu te perdôo”, mas logo a histeria se renovava em algum lugar recôndito de seus pensamentos, surgia como um assaltante e lhe rendia o que havia de bom, então queria gritar “por que assim?”.
Ele soltou a carne dos braços dela, mas não a soltaria, nem no momento seguinte nem por muito tempo, nem quando ela lhe desse as costas e fosse embora nem quando, anos depois, ela casasse sem convidá-lo, para nunca mais participar de sua vida.
São cheiros que ficam, do amor ao sexo, dos lábios às lágrimas. Mas está tudo repartido em milhares de gotículas que vão secar… vão secar como tudo aquilo que existe.
Sartre – A Idade da Razão – Mathieu
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“Esperara tanto tempo. Seus últimos anos tinham sido uma vigília. Esperara através de mil e uma preocupações cotidianas. Naturalmente, durante esse tempo andara atrás de mulheres, viajara e ganhara a vida. Mas através de tudo isso sua única preocupação fora manter-se disponível. Para uma ação. Um ato. Um ato livre e refletido que acarretaria o destino de sua vida e seria o início de uma nova existência. Nunca pudera amarrar-se definitivamente a um amor, a um prazer, nunca fora realmente infeliz; sempre lhe parecera estar alhures, ainda não nascido completamente. Esperava. E enquanto isso, devagar, sub-repticiamente, os anos tinham chegado, e o haviam envolvido.”
O âmago de Mathieu, personagem do livro, sendo exposto.
Interessante, não?
Black Country Communion – 2010
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Black Country Communion é o nome do supergrupo formado por Glenn Hughes (baixo e vocal), Joe Bonamassa (Guitarra), Jason Bonham (Bateria) e Derek Sherinian (teclado) neste ano de 2010. O álbum homônimo foi lançado no final de Setembro e, como não poderia deixar de ser, é sensacional do início ao fim. Rock and Roll de dar inveja a qualquer rockeiro que se preze.
Na minha opinião, esse CD merece estar entre os 10, ou melhor, entre os 5 melhores de 2010. Excelência é um adjetivo apropriado à força desse rock de verdade.

1- Black Country: com toda energia de um rock and roll digno dos anos 70, da época de ouro de Black Sabbath, Deep Purple e Jethro Tull, essa faixa abre o álbum com muita força. “I`m a Messenger, listen the prophecy”.
2- One Last Soul: com uma levada mais progressive, One Last Soul tem um refrão fortíssimo, aliás, refrões fortíssimos são uma constante nesse CD. Viciante.
3- The Great Divide: os vocais de Glenn Hughes vão mostrando que o cara continua o mesmo (senão melhor) da época do Deep Purple. Uma harmonia mais tensa traz um refrão que empolga demais.
4- Down Again: tá, pra mim isso é puro rock anos 70, e isso é um baita elogio. Bonamassa e companhia não tentaram trazer de volta o rock setentista, ele fizeram isso de verdade, com maestria e inovação, sem enjoar, e essa faixa ilustra isso muito bem.
5- Beggarman: linhas de guitarra sensacionais, bateria frenética e uma voz poderosa fazem de Beggarman uma ótima companhia musical.
6- Song of Yesterday: a “baladinha” (balada até por aí) do album. Alguém me explica esses arranjos? A harmonia entre a guitarra do Joe e o teclado do Derek é impecável. Aliás, nota 10 para o bom gosto na composição do solo de guitarra.
7- No Time: Rá! Força de novo nesse rock and roll de primeira! Uma aula pra essa geração de “happy rock”.
8- Medusa: mais uma quase-pseudo-semi-balada. Destaque para o baixo marcante e rolos de bateria dignos de um membro da dinastia Bonham.
9- The Revolution In Me: O que dizer? Roqueirismo setentista dos pés à cabeça acrescido de uma aura um pouco mais soturna que o de costume. Aliás, lembrou-me um pouco do clima (eu disse clima) do Led Zeppelin IV.
10- Stand (At The Burning Tree): pra mim, Stand poderia ser uma espécie de Part II da The Revolution in Me. São músicas diferentes, mas parecem estar ligadas de alguma forma. Gêmeas.
11- Sista Jane: Eric Clapton? Influências? Oi? E sério: o que esse cara fez pra continuar com essa voz até hoje?
12- Too Late For The Sun: essa faixa, a que fecha o álbum, traz todos elementos que constituem o CD: guitarras extremamente bem feitas e rockblueseiras, bateria excelente, linhas de baixo fortes, vocais impecáveis e muita energia, além de um teclado digno de John Lord. Não é minha faixa favorita, ao meu ver não deveria encerrar o álbum, mas seria presunção minha dizer que a música tem qualquer coisa de ruim.