nauticus III

2

Ah, se não fôssemos apenas crianças
Poderíamos contemplar um infinito aqui mesmo
Dentro de corpos de adultos, somos crianças que se escondem
Olha ali, o medo!
Olha lá, buscando abrigo, procurando um solo firme para se apoiar.
Má notícia, meu caro: o único abrigo é a solidão, está a esmo e por conta própria.
Má notícia, meu amigo: não há chão. E agora?
A criança acorda e não vê a mãe. Ela chora.
Depois, há necessidade de sobreviver.
Ah, a criança conquista, conquista mais, conquista cada passo, cada degrau, cada fronteira. E já nem vê mais a escuridão que a cerca, para ela tudo lá fora é mudo.
Ela cria um lar, e chama isso de Eu.
A criança percebe, depois, que o Eu ainda está insustentável. É um lar sem paredes, sem teto, sem chão. E ela anseia, novamente, pelo útero.
Então ela volta a navegar em mares desconhecidos, pois ao menos a água lhe traz esperança.

.

Navega.

bitter

1

Querer te afastar? Como assim? De forma alguma.
Tu, que já fazes parte de minha existência, és ser do meu ser, moras em mim como uma erva no tronco de uma árvore cinzenta. Nutre-te!
Disseca, resseca, ou apenas seca o que há para ser evaporado em mim. Essas hídricas amarguras esquentam minha face, avivam minha mente, fortalecem o meu corpo. Eu as aceito assim mesmo, não há mal nenhum.
Há minha culpa, e tu estás ali dentro dela.
Há minha imensa insegurança, e lá tu tens tua morada também.
Fechaste muitas janelas em minh’alma, trancaste portas que eu nunca mais conseguirei abrir, sempre permanecerão fechadas, e, sinceramente, isso deve ser bom, de alguma forma.
És comedida em teus impérios, cautelosa em tuas conquistas, sabes que o terreno é valioso.
Ah, e olha quantos frutos dourados tens me trazido.
Não, eu não te afasto nem te evito, nem te quero ou desejo. Convivo contigo e tu me mostras um outro tipo de sabedoria.
Ah, e esses frutos serão de alcance dos que quiserem, pois tu não és egoísta.

"there’s nowhere to set my aim, so I aim everywhere"

0

então, de olhos abertos ficava difícil
eram muitos alvos, nenhum muito claro, mas estavam todos ali
os olhos nem piscavam, buscavam em qual deles atirar
mas, por fim, não escolhia nenhum
era difícil
preferível, portanto, fechar os olhos

de olhos fechados, o tiro é disparado para algum lugar…
incerto.

dança

2

Alguém que se desprenda, eis o que precisamos. Um salvador, um Zaratustra.
Há demasiada carência em nossas almas, procuramos por sustentações, usamos os outros de bengalas; portanto, é necessário que nasça o nosso pilar maior.
Falo de outro profeta, alguém que entenda o povo e o leve à consciência. Não falo em pastores, mestres, padres… não falo em igreja universal da puta que pariu, do quadrado da sétima constelação do santo do último dia no apocalipse… nada disso. Precisamos dum centro de pensamentos, ele será o salvador, não uma pessoa, não uma instituição, uma corrente, uma filosofia, um novo jeito de pensar e agir. Não terá olhos nem boca, mas deve ver e falar. Será estrelas, vales, mares, matas, muitas coisas que queremos conceber.
E tudo isso, numa fagulha de inovação, far-nos-á despertar para a Dança Cósmica que nos convida a Natureza há milhões de anos.
Não, o santíssimo não nasceu, ele está há mais tempo do que é permitido nascer. Mas não parou desde então a sua dança. Apoiemo-nos nesse par e dancemos, pois esta é a nossa fortaleza, firme.
Zaratustra disse à mente sagaz de Nietzsche que só poderia crer em um Deus que soubesse dançar. Pois aí está, para todos, a dança, a música e o dançarino. Chega de guerra com os galhos que vão quebrar no outono e no inverno.
Dancemos sobre as folhas.

nauticus II

1

Há imensidão…
E um mar azul… Sim, azul
Não havia um único sinal Dela, mas deveria existir.
Onde estaria? Onde procurar?
Fui pelo mar, pela floresta…
Encontrei-me, então, num deserto tão vasto quando o Nada.
Alguns ventos me disseram que eu estava perdido:
- Grande novidade!
Eu procurava pelo pedacinho dourado, e o verde e o azul, e o Branco Ilimitado.
E a cada hora passavam-se anos, e meus passos, não mais lentos, não mais cansados, porém mais tensos, mais confusos, conduziam-me por terras já vistas.
Mas, ah, elas estavam diferentes, como a história de que o rio que se mergulha hoje não tem as mesmas águas de ontem.
E eu assistia ao terrível espetáculo do Fluir, do ir e só ir… Tudo em movimento.
E eu queria estática.
Mas eis que ao retornar ao mar, aquele insustentável mar azul, vi-me sem mim, em um barquinho.
E dela caíam-me lágrimas douradas, por vezes madre-pérola, e era como se o gozo da vida fosse o fim.
Desejava morrer ali, mas não, a morte não era para mim.
A morte não é para mim.

Navega.

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