poucas coisas

2

Sobre ti não gostaria de falar
Em tato, em pele, em cheiro ou luz
Mas por aí também me conduz
Tua beleza, que inapto sou ao mensurar

Ando onde antes ansiava encontrar-te
Andinas paisagens, e eu animoso anedótico
Faço joguetes, zeloso, em teu pórtico
Sentindo o zéfiro que me vem do oeste

De longe, vêm-me teus sinais
E eu os capto como um sustento
E é só deles que eu me alimento
E é deles que quero sempre mais

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abre rubi

1

Se eu conseguisse encontrar aquela porta,
Ou entrar por aquela janela, no último andar,
Poderia te ver, de novo, no quarto a sonhar,
Seria teu cúmplice, nessa história morta.

Confrontaria teus demônios, e meu ombro
Seria o universo de teus prantos descabidos;
Encolhidos, confortariam teus doridos
Choros de medo, de preto, de assombro.

Escombro…
Sobrei em pedaços do último enlace,
Por isso o meu pensar é torto.
Mordo minh’alma, sem calma, morto.
Solto a corda e sou teu ombro acolhedor;
Salto do telhado pra poder olhar pela janela.

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Tao

2

Para o inferno com o acaso, essa cocaína que destrói a força de vontade. Para o inferno!
Aquele que se esconde sob os auspícios da temeridade, aquele que rasteja dizendo que deus quis assim, não merece ser chamado de homem, e se assim for, os sobre-homens já estão sobre a terra.
Existem forças que não dominamos, é certo, mas todas as outras devem ser conquistadas, pois o pobre põe suas vidas nas mãos de deus, e o rei coloca sua vida na sua coroa.
Eu vi um homem que tinha olhos d’ouro, e ele já havia pulado o abismo, e do outro lado nos encarava com um riso, não de ironia, não de dó, mas de satisfação consigo e por ver que estava sendo seguido por outros. Ah, eles já estão sob as estrelas.
Para o inferno com o destino! Se não somos donos da nossa Vontade, não é culpa de um deus. Depois de haver alcançado suas rédeas, então venha me falar de destino e acaso, só aí entenderá uma parcela do mecanismo, até lá não fale.
E para aqueles que não sabem montar na sela do dragão, assistam aos homens sangrando e morrendo em um caminho que os leva a uma cidade, ainda humanos, mas sobre-homens, além.

Lá, nos ermos, eu vejo a casinha, tão vazia e singela, tão infinita e imponente.

nauticus III

2

Ah, se não fôssemos apenas crianças
Poderíamos contemplar um infinito aqui mesmo
Dentro de corpos de adultos, somos crianças que se escondem
Olha ali, o medo!
Olha lá, buscando abrigo, procurando um solo firme para se apoiar.
Má notícia, meu caro: o único abrigo é a solidão, está a esmo e por conta própria.
Má notícia, meu amigo: não há chão. E agora?
A criança acorda e não vê a mãe. Ela chora.
Depois, há necessidade de sobreviver.
Ah, a criança conquista, conquista mais, conquista cada passo, cada degrau, cada fronteira. E já nem vê mais a escuridão que a cerca, para ela tudo lá fora é mudo.
Ela cria um lar, e chama isso de Eu.
A criança percebe, depois, que o Eu ainda está insustentável. É um lar sem paredes, sem teto, sem chão. E ela anseia, novamente, pelo útero.
Então ela volta a navegar em mares desconhecidos, pois ao menos a água lhe traz esperança.

.

Navega.

bitter

1

Querer te afastar? Como assim? De forma alguma.
Tu, que já fazes parte de minha existência, és ser do meu ser, moras em mim como uma erva no tronco de uma árvore cinzenta. Nutre-te!
Disseca, resseca, ou apenas seca o que há para ser evaporado em mim. Essas hídricas amarguras esquentam minha face, avivam minha mente, fortalecem o meu corpo. Eu as aceito assim mesmo, não há mal nenhum.
Há minha culpa, e tu estás ali dentro dela.
Há minha imensa insegurança, e lá tu tens tua morada também.
Fechaste muitas janelas em minh’alma, trancaste portas que eu nunca mais conseguirei abrir, sempre permanecerão fechadas, e, sinceramente, isso deve ser bom, de alguma forma.
És comedida em teus impérios, cautelosa em tuas conquistas, sabes que o terreno é valioso.
Ah, e olha quantos frutos dourados tens me trazido.
Não, eu não te afasto nem te evito, nem te quero ou desejo. Convivo contigo e tu me mostras um outro tipo de sabedoria.
Ah, e esses frutos serão de alcance dos que quiserem, pois tu não és egoísta.

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