so pure and sad
2Faz do desespero resignação;
E dos sentimentos, razão;
E do choro uma falsa risada.
Nas memórias te vejo alva,
Uma silhueta no meu destino;
Ai, que te busco, em desatino,
E não te acho a mão que salva.
porque adoro postar toda porcaria que escrevo
6São momentos assim, quando mais se quer escrever, que nenhuma palavra parece conexa, nenhuma se concatena, nada se liga e o sentido se perde em pensamentos tortos, tétricos, embaçados.
Sei, também, que se procurar alguma música, algum poema, qualquer coisa já pronta pra traduzir essa intensa insensatez adjunta aos meus pensamentos, não acharei nada que me satisfaça. Nada dirá o que quero dizer, se é que algo precisa ser dito.
A solidão é sermos mil em um só, e ninguém é igual a ninguém, mesmo tendo mil dentro de si. Quando nos juntamos, do próton ao elétron, da célula ao corpo, quando nos fizemos animais, vestimos máscaras desconhecidas, como se fôssemos atores da várias peças e o autor não nos contou ainda o final. Ele pede que improvisemos, mas nos perdemos entre tantos papéis interpretados ao mesmo tempo.
Mesmo assim, não gostaria de saber do final antes, não quereria estragar a surpresa que nos foi preparada, ainda que a surpresa seja não haver surpresa alguma. O desejo de acreditar em algo, o próprio acreditar, não em um deus, não em um destino, mas num sentido, numa direção.
Não quero saber de nenhum final, meu caro autor, só gostaria que me retirasses um momento do palco para tomarmos um café juntos, talvez uma cerveja. É, por que não uma cerveja?
cena iii
4Há um cheiro úmido no ar, há um peso tenso na atmosfera. Tudo está suspenso, tudo está parado, ao menos aqui dentro, nesta casa, nesta sala, neste corpo, nesta alma.
Bem ao fundo toca uma música, deve ser qualquer uma da moda, não as conheço mais. Provavelmente alguém já está se animando para encarar o sábado à noite, todos querem fazer festa, beber, conquistar garotas, mais uma noite de sexo sem outras expectativas. Essa música não chega a me irritar diretamente, mas o faz pelo meu inconsciente, mostra-me que não há grandes objetivos para essa corja que habita o planeta atualmente.
Não sou de vocês, sou das estrelas. Não sou das festas, sou dos ritos céticos de minha própria ironia.
A primeira vez que travei contato com uma garota eu enloqueci, e assim foi cada vez mais, tive inúmeras delas, inúmeras festas também. Não sei ao certo que dia me cansei, que dia acordei ao mundo, dilacerado em minhas próprias convicções. Não sei quando deixei de ser humano e virei… e virei isso.
A televisão está bem na minha frente. A luz fraca, de um amarelo pardo, entra pelas frestas das cortinas. Deve ser o pôr-do-sol. Que coisa sem graça, olhar um astro que só queima hidrogênio e nada mais. Não gosto dessa luz, ela me lembra coisas ruins. Essa luz débil reflete na televisão e me ofusca o lado direito do meu rosto que está refletido na tela desligada. Qual a idéia para ligar a televisão? Noticiários já não me interessam, seriados são tão pequenos de conteúdo e filmes me soam tão falsos. Não vou ligar a televisão, acredito que preferiria quebrá-la, mas um ataque de ira essas horas me parece mais ridículo. Como se qualquer coisa disso tudo ainda me importasse. Não quero os estilhaços como testemunhas, nem um demônio dessa minha consciência inscontante dominando minhas atitudes. Sou só eu, só células, só átomos, só um monte de nada despropositado, subjetivo.
Esse calor úmido, sei que tem chuva por vir, já ouço os trovões ao longe, sinto o tremer da terra. Que venha o temporal e me afaste essas idéias, só o vento me salva, só a chuva me acalma, só os raios me aquecem.
Minhas mãos estão secas, minha pele está seca, acho que estou desidratado, tenho tomado pouca água, tenho cuidado mal desse corpo. Já tenho algumas marcas de expressão, tenho olheiras, tenho olhos opacos e cabelos secos desgrenhados.
Há quanto tempo estou sentado aqui? Inclino-me para frente, com os cotovelos nos joelhos escoro o rosto com as mãos. Já está escuro lá fora, a luz de antes já não aparece mais na tela, nem meu reflexo se torna evidente. Sou um fantasma agora.
Definitivamente, sou uma criatura da noite, um noctívago como Macário, sou um personagem dum conto de Álvares de Azevedo, sou típico. Começo, agora que não há mais sol, a me sentir melhor. Já não lembro das ânsias pela morte, do nojo da diversão, do asco da sociedade.
Um raio rasga a escuridão, que vai se instalando, de forma bela, como um conto do Olimpo. Quase nada depois o som do trovão ressoa em meus ouvidos. Que conforto isso me traz. Consigo relaxar os ombros, respirar fundo e me escorar para trás.
Hoje foi por pouco.
Venha chuva.
Quando era pequeno morava no campo. Quando via apenas o tempo úmido e com sol me sentia mal, havia um desconforto em mim, alguma doença respiratória. Não conseguia enxergar a tempestade que viria depois.
Quando era criança, em dias de vento e chuva, raios e trovões, minha mão costumava me colocar sentado ao lado do fogão a lenha, junto com meus irmãos, e fazia bolachas e pães para nós. Passávamos a tarde comendo coisas boas e brincando em volta dela enquanto nosso pai não chegava, com ele em casa tudo mudava. A chuva me faz sentir bem.
só isso
2Hoje sou arauto da gangrena que é nossa vida
Esse pus que escorre em nosso cotidiano
Hoje vejo essa necrose no sentido de nossas vidas
E aperto firme, forte, para que doa
E que a dor nos faça abrir os olhos
Ninguém vai sarar, mas poderemos ver
Ah, que enxergar a podridão e não poder lavá-la é como a insaciedade anímica
Más notícias, meus caros, nossa sujeira não pode ser limpa


