Lei anti-fumo
2Sério, como assim proibir que se fume dentro de bares ou boates? O cheiro incomoda algumas pessoas, eu sei, mas tenho plena certeza que um bêbado chato incomoda várias vezes mais. Sério, proibir o cigarro em bares é eficaz para o Ministério da Saúde? Para mim não, eficaz seria proibir a fabricação dos cigarros, mas isso eu não quero.
Vi entrevistas nas ruas de São Paulo sobre a proibição do cigarro em bares e boates de São Paulo, as pessoas entrevistadas, sem exceção, ressaltaram unicamente o fato de que o cigarro tem um cheiro forte (fedido?) e isso incomoda. Nem uma rica alma lembrou-se de que o Ministério da Saúde busca uma diminuição nos gastos de tratamento de pessoas com problemas devido ao fumo passivo.
É óbvio que essa lei só será eficaz se forem fiscalizados os estabelecimentos, entretanto, devo dizer, temos um exemplo bem recente de lei que não deu certo. A tolerância zero do álcool ao volante existe ainda, mas aquele fervor do início já foi esquecido, a fiscalização foi deixada de lado quase totalmente, e as pessoas continuam dirigindo após beberem, estando ou não estando bêbadas. E isso não mata mais que fumar passivamente?
i, ii e iii
4i
Ai de mim, que de tanta dor sentindo
Esqueci-me de ser o meu Ser em vida
Ausentei-me de mim, da alma omitida,
E perdi meu tempo – comigo desavindo.
ii
Com uma película cobrindo meus olhos
Eu tateio em vão pelos contornos que vejo
E me bato e debato num parco lampejo
Nessa noite, contra os enormes escolhos
iii
Na noite mais escura eu consigo me ver de perto
E só assim eu suporto minha imagem
Quando cessa a dor e sou apenas eu à margem
Do meu Ser oceânico, com sede do incerto
cena em cinza
4Pois bem, deixe que eu seja, por momentos, mais pessoal, mais humano do que eu gostaria de ser, mais inapto ao convívio do que deveria ser.
Acabo de voltar de um bar, se tomei um copo de cerveja foi muito, fumei alguns cigarros para curar a ansiedade de estar num lugar que não me sinto confortável, com muitas pessoas ao redor, com música mais alta do que eu gostaria, músicas ruins, aliás. Acendo cada cigarro para ficar em paz, por alguns breves minutos, meu único companheiro quando não posso estar com minhas letras ou meu violão.
Ri, com certeza ri muito, mas esses momentos parecem ser sobrepujados de maneira intratável por qualquer outro sentimento de retração, ira ou dor que possa vir. Acendo outro cigarro para tentar expelir junto com a fumaça essa dor, e então continuar rindo, sorrindo, ouvindo o que me falam, mesmo que tu me pareça bobagem, e tudo me parece bobagem desnecessária. Sinto-me deslocado.
Estou investigando algumas coisas sobre mim, digo, estou apenas procurando confirmação científica do que há (ou não há) em mim. Sou incapaz de sentir o que deveria, e se alguém quiser definições melhores sobre isso (não falarei nada por enquanto) procure no google por despersonalização.
Como posso, então, sair e não me sentir um estranho? Ao menos se eu bebesse, como vinha fazendo há anos, seria mais social e instintivo, então tudo estaria bem. Hoje não bebi, ontem não bebi, em nenhuma das últimas noites eu bebi. Assisti às pessoas e não soube me incluir muito bem no contexto. Estou ficando mais e mais deslocado.
Agora, ouço algo gritando em mim, um urro desesperado, irado, estridente e rasgado, quase um ruído terrível, e estou rachando. Não sei o que esperar, tentei abafar muitas vezes esse verme, mas acho que preciso abraçá-lo e colocá-lo de frente com meu resto. Sinto-me dividido.
Preciso por as ideias no lugar. Não sei o que disse, não irei reler o que disse. E se é de humanidade que há sede, pois aqui está um pote cheio de fraquezas e defeitos, e não vejo nada mais humano, e assim será, sem revisões, sem editar, o meu humano cru. Sinto-me nu.
combate à fome
1
Achei tão bonitinho hoje quando li que o G8 se comprometeu em doar, em 3 anos, 20 bilhões de dólares para ajudar no combate a fome mundial. Já é um passo. Ainda que não estejam ensinando ninguém a utilizar a natureza do seu país para cultivar algo, financiando maquinários e afins, dar o peixe, mesmo sem ensinar a pescar, já é um primeiro passo grandioso nessa sociedade egoísta que vivemos.
Entretanto, eu não posso fazer nada além de esboçar um rápido sorriso amarelo, depois volto a minha carranca e mau-humor para questionar: e com a guerra, quanto se gasta?
Fui pesquisar quanto esses países gastam com produtos bélicos. Encontrei diversos números: os dos EUA, da China, da França, da Alemanha, etc. Contudo, o que mais me deixou, digamos assim, embasbacado, foi o fato de que, apenas em 2008, o Brasil, país subdesenvolvido, emergente (?), que não está, teoricamente, em guerra e tem, comparado a diversos outros países, um gasto bélico muito pequeno, gastou cerca de 23,3 bilhões de dólares.
Vamos à matemática agora, mas bem simples: G8 são oito países, ricos, que se comprometem a gastar U$20 bilhões com uma causa nobre. Dividindo os 20 por 3, temos uma dízima de 6,66666; pois bem, são 6,66 bilhões de dólares gastos anualmente pelo G8, mas o grupo é formado por oito países, então dividamos por 8 o resultado anterior, temos então 0,8333 bilhões de dólares gastos, anualmente, por cada país. Concluo, portanto, que apenas o Brasil gastou cerca de 27 vezes mais em produtos militares do que será gasto para o combate à fome (e ainda temos audácia de dizer que combatemos a fome com o Fome Zero).
É impressão minha ou tem alguma coisa de muito errado aí? Ah, o grande irmão não tem interesse em terminar a guerra.
Infelizmente, não consigo ter esperanças de uma sociedade, no mínimo, decente para se viver enquanto números assim, postos de uma forma tão simples, se apresentam diante de nós. Nem sequer entrei nas questões dos assaltos, homicídios, tráfico e toda sorte de coisas divertidas assim que vemos diariamente por todos os meios de comunicação.
Se o Brasil, que é um país sem nenhuma tradição com grandes armamentos, tecnologia bélica e tudo mais, gasta nessa magnitude com a “guerra”, nem serei obrigado a entrar na questão dos países como EUA e China. No entanto, só para termos uma idéia, a China, que foi o segundo país que mais gastou com a indústria bélica em 2008 (primeiro foram os EUA, com 41,5%) o fez na proporção de cerca de 100 vezes mais do que o que será gasto para combater a fome.
Penso que não é impressão minha. Há, de fato, algo de muito errado aí.
Ah, agora vem a nova tendência: Guerra Cibernética. Boa sorte pras Coréias e pra todos os usuários da internet. Vossa Fordeza já vê onde isso tudo pode parar.
guarda-os
2Como se não pudessem ser encostados
Eles se retraem em perturbadora indiferença,
E quantos anos se vão nessa andança
De gares vazias e de corpos desolados.
Eles tímidos, contidos, reprimidos,
Esperando o halo cósmico da vida,
Vão envelhecendo, perdendo a lida
Para os dias exíguos, expiados, exauridos.
Ah, sentimentos que de tão racionalizados
Eu não mais os sinto, e eis que hoje os penso,
E não mais os choro, mas os lamento, indefenso,
Nos meus minimundos miúdos desazados.