Moda risível
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O que está acontecendo com a cabeça das pessoas? Quando foi que estar na moda, ou ler um livro da Gloria Kalil, se tornou necessário? Quando foi que isso tudo se tornou uma doença?
Tenho visto um crescente número de reportagens, notícias, programas, etc, sobre o que é “tendência” para a estação, moda, comportamento e bom-costumes. Ética e etiqueta têm se confundido numa mesa branca, com guardanapos limpos e bem dobrados, tão impecáveis quanto a consciência de uma beata.
Desculpe se estou ofendendo, mas você está de parabéns se você não leu livros com títulos como: “10 lições sobre como fazer amigos”, “50 boas maneiras para eventos sociais”, “69 forma de levar uma mulher para a cama”, e essa última é incrivelmente variada, portanto, vai com lacuna, “mil _________ que você precisa conhecer (ler, ouvir, etc) antes de morrer”.
Comprar sonhos alheios tem sido uma prática corriqueira. Nada mais burguês que comprar o que se deve querer e pensar, como se deve agir e proceder; nunca estivemos sendo tão ignobilmente treinados por um maquiavelismo cômico e subjugante, domados e carregados como Muppets, felizes e faceiros, fazendo o que o roteiro diz. Não é, Bial?
Programas de beleza sempre foram uma idiotice de primeira linha, na verdade, uma eficiente e eficaz ferramenta de divulgação da ingenuidade burra de milhares de menininhas dispostas a tudo (e tenho certeza de que pra muitas “tudo” não é exagero) para conseguir o seu tão sonhado book e um desfile praticamente de graça para algum nome que surgiu do nada e parece ser tão importante para elas quanto Budha, Jesus, Gandhi, Nietzsche ou sua mamãe.
Reality show para cabeleireiros foi uma coisa inusitada que apareceu na televisão. Depois do Big Brother, A Fazendo, América`s next top model, e coisas assim, eu não duvido mais da competência televisiva para acabar com a competência cognitiva das pessoas. Porque pão e circo vai ser sempre uma política válida e capaz.
Estamos em produção em série. Os defeituosos costumam pensar mais porque logo são jogados para descarte, e ficam lá, observando o resto da produção acontecer, o formato ser dados, as cores serem impostas, e eles ficam lá, à parte dum mundo que não é seu, e devem estar satisfeitos por terem sido separados de nós, programados pelas revistas e novelas que nos dizem como vestir e falar.
Se precisamos de alguém para nos ensinar bom senso e, junto, nesse pacote cor de rosa de laço branco, nos enfiam guela abaixo o “Manual de Boas Maneiras, por Glória Kalil”, é sinal de que algo muito errado está acontecendo.
Olhe pra você, sem medo, com sinceridade, e me diga: quanto de você foi comprado em revistas e novelas? Quanto disso você se apropriou e disse “eu quero ser assim”? E mais, quanto do que você é hoje pode ser dito como “eu não pretendia ser assim, mas é como sou”?
Com sorte, você leu todos os livros que eu etiqueto como “baixíssimo nível” e passou ileso por suas influências, e você viu todos os programas da moda para simplesmente dizer “que besteira enorme”, e, com mais sorte ainda, você pode escolher livremente o que bem entendia para si, consciente, de que você é seu estilo de vida, seus hábitos, seus pensamentos e suas palavras e não suas roupas de marca, relógios importados, carros fabulosos nem fantasias megalomaníacas.
Quando vejo desfiles, aquela preocupação exorbitante com a “arte” que pousa num corpo de gazela me parece uma paranóia sem sentido essa exaltação pelos conceitos de moda e estilo.
Quando ouço aquelas pessoas falando sobre “muito tendência”, “super in”, enfim, essas gírias que escatologicamente se escapam como um cano de descarga de um caminhão pelas bocas cheias de gloss, hetero ou homosexuais, percebo o quanto estamos nos distanciando do que deveria ser uma “moda” para o ser humano.
Não sou eu quem vai dizer o que deve ou não ser feito, apenas preciso falar que algo está errado, pois não saber quantos centímetros tem um metro, porém, saber, prontamente, quem é Marcelo Dourado (vide vídeo: http://tinyurl.com/33ym5wj )é sinal de uma “tendência”, tendência ao…
Sei lá, ao que já está acontecendo em nosso planeta, essa cegueira onipotente, avassaladora e intransigente. Os olhos do Grande Irmão não se fecham, e Geroge Orwell foi muito feliz… sim, muito feliz.
Há um buraco
1Da minha sacada eu vejo a rua
Há um buraco no asfalto
Todas as noites os carros passam por ali
E eu ouço o barulho dos pneus passando pelo buraco
E eu vejo as luzes indo e vindo
E isso tudo me faz companhia
Pois há um buraco…
Ainda sobre o fetiche por pés
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Engraçado, o texto que escrevi ano passado no Descompassado sobre fetiche por pés sempre me rendeu muita trollagem, xingamentos e, no entanto, por muito tempo foi meu texto mais lido.
Contudo, o último comentário que fizeram sobre ele realmente me fez pensar um pouco, e me sinto obrigado a dizer que já não sustento mais a mesma opinião pueril daquela forma que fiz no texto. Quer dizer, pés femininos continuam sendo irrelevantes pra mim, prefiro olhos, bocas, seios e pernas, mas é aquela história, cada um com seu cada qual, não acho mais o absurdo que achava gostar tanto de pés.
Encarem isso como uma retratação humilde.
E introspectiva.
Introspectiva. No mesmo comentário, o leitor fala que “sempre gostou dos meus textos” mas aquele era ridículo e estragava muito do que eu já tinha feito. Exato! Reitero, não deveríamos carregar para sempre o estigma de palavras ditas há tempos, por isso digo que aquela opinião já se foi, não é mais minha nem eu sou dela, simples assim.
(Leia: http://descompassado.com/o-peso-do-passado/)
É interessante o quanto uma nota errada pode desconstruir toda melodia, tirar tudo do ritmo e do tom. Posso ter escrito cem textos bons (e não to dizendo que fiz isso), mas basta ter um ruim nestes tantos (pior ainda se esse ruim for justamente o único lido) para que todo o empenho, talento ou sei lá o que, sejam afogados numa privada de um banheiro de beira de estrada, assim, sem dignidade nenhuma.
Falando em dignidade, temos uma peculiaridade nesse nosso sistema cultural muito diferente do que dizemos ser bonito e bom. Retratar-se em público, mudar de opinião (não superficialmente), investigar-se e se descobrir diferente do que era há um, dois, dez anos atrás parece uma heresia, um pecado; como se o homem que pedisse desculpas ou se arrependesse perdesse toda a sua virilidade no mesmo instante.
Estamos cercados de exemplos de orgulho, de soberba, de pessoas que se vangloriam por sua teimosia insensata, a que chamam de caráter e persistência. Não, seguir burro não é ter caráter e persistência.
A única fidelidade que se deve ter é a si mesmo, todo o resto é teimosia descartável.
E, afinal, pés não podem ser tão ruins assim, não é? Deve ter sido algum trauma na minha psique sendo exorcizado de maneira indecorosa naquele texto, algum psicólogo deve saber explicar. Mas enquanto não me explicam, fica aqui meu retratamento para com os que se sentiram ofendidos e para os pés, coitados, que, como diria o ratinho do Castelo Rá-tim-bum, nos agüentam o dia inteiro.
Inocência e liberdade (ou lentilha de ano novo)
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Hoje tive vontade de comer lentilha. Tá, e daí?
Não, não foi um desejo por lentilha assim, simples e despretensioso, foi um desejo impregnado de um saudosismo quase infundado. Eu tive vontade de comer lentilha de ano novo, porque ela representa na minha vida, depois de tantas repetições, um momento estranho com a minha família, um momento em que todos acabam sendo mais “flor da pele”, tiram um pouquinho o coração do peito e mostram que ele tem lágrimas escondidas, acumuladas, que ele é de manteiga e que tudo pode ser tão maravilhosamente triste, ainda assim, num paradoxo fabuloso, belo e alegre.
Eu sempre tive pavor de ano novo e natal, dessas festas de fim de ano, cheias de gente, comida e risadas… parecia que eu nunca fora feito para isso.
Desde criança eu passava a tarde fora de casa, não participava dos preparativos, à noite ficava no quarto lendo, se possível com a luz apagada, iluminado apenas por uma luminária ao lado da cama. Socializava com o resto do pessoal apenas quando estritamente necessário, ou seja, momentos antes da janta e o mínimo depois.
Amo minha família, adoro estar com eles, mas é que pra mim esse negócio de natal e ano novo nunca fez muito sentido, só depois de um tempo passou a ter o significado de festa e feriado, nada além disso, pra mim (leia-se bebedeira, risadas e ressaca).
Fiquei sem entender bem porque senti esse desejo de lentilha, essa vontade de ano novo, porque a sensação que me veio não foi a de querer esse ano novo de hoje, com muita champagne, vodka e whisky, mas sim aquele da luminária, dos livros do Paulo Coelho, de passar a tarde jogando tênis e à noite, sem álcool nem internet, dormir.
Não quero ser precipitado, mas acho que eu fui muito mais maduro quando era criança e pré-adolescente. Eu não vivia em busca de prazer e risos, tudo bem que eu não era muito expansivo, era um tanto tímido, contudo, eu estava muito mais próximo do Princípio de Realidade.
Tudo muda com o tempo, nos tornamos homens e mulheres mais funcionais, dinâmicos, no entanto, pessoas mais pesadas, mais viscosas, vamos escorrendo pela vida e nos apegando a coisas, sentimentos e sensações e acabamos esquecendo como é ser livre, de verdade, como uma criança.
Na verdade, para tornar a ser livre, apenas recuperando a inocência, por isso a ingenuidade e a falta de memória pode até ser algo bom.
Penso que esse desejo de lentilha foi além de uma vontade de ano novo, passou pelos campos da adolescência, ficou olhando pra liberdade pintada em algum retrato por aí e sentindo falta daquela inocente liberdade ou livre inocência.
Alva
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Tinha os olhos miúdos, pequenos e belos, duas esferas negras contrastando, monocromaticamente, com aquela pele tão alva. As bochechas levemente rosadas revelavam, ao se moverem, um sorriso encantador, era ali que aqueles olhos se fechavam ainda mais, apenas uma leve luz escapava daquela gravitação que atraía.
A primeira vez que abriu a boca para lhe falar qualquer coisa, ele ouviu aquela voz suave, com um rouco, como se arrastasse uma garrafa de malbec por sobre a mesa, estendendo-lhe uma taça. Qualquer coisa, não lembrava o que ela havia lhe dito, ao certo, fora algo com muita timidez, demasiadamente sucinta, a garota dos olhos pequenos.
Ele tentava entender o que acontecia atrás daquele sorriso, que revelava uma espontânea timidez e uma tímida espontaneidade, que mostrava uma coisa, mas escondia outras mais. Cada palavra que dizia lançava luz à mais tantas, uma frase significava um livro. Ele se afogava naquela história que ela ainda não lhe contara, mas que já lhe servia tão bem.
Ele tentava entender o que havia naquela cabeça.
Queria saber o que tinha sob aquela pele, alva, suave, de cheiros não definidos, que oscilam ora entre os melhores que já sentira, ora entre os mais deliciosos que poderia sentir. Era barroca só por vaidade, permitia-se mudar, pois era assim, uma nuvem que se movia com beleza e brancura, com o direito mais íntimo variar entre o ótimo e o excelente.
Ele a tocou em um dia de calor, ele a sentiu em uma noite longa e ele a soltou numa manhã triste. Naquele dia o sorriso fez o sonho, de olhos miúdos, que cheirava a volúpias doces e tímidas, de bochechas rosadas que não podiam sentir culpa nem medo, estavam acima daquela vaidade que o ser humano tem em inventar ética e moralidade.
Ela vivia como uma nuvem e ele fez daquela nuvem solta e liberta um sonho para quando acordasse triste pudesse dormir de novo, contando cada pêlo que surgia daquela pele como um tesouro. Era rico, milionário, e só tinha ela, ou a lembrança dela, e um perfume fixo nos lençóis.