Humanos engraçadinhos

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Muitas vezes assistimos vídeos “engraçadinhos” de animais, cachorrinhos brincando, caindo, gatos errando o pulo, trapalhadas de bichos selvagens, caça e predador, enfim, são inúmeros os tipos e teores de vídeos sobre o comportamento animal.

Sempre que assisto a esses animais se relacionando entre si, com o mundo, com suas próprias patas e rabos, penso em como é interessante a forma como se comportam, do quão privados de uma consciência eles são, agindo sempre de forma instintiva, com suas capacidades limitadas, comparados a nós, seres humanos.

Acima de tudo, penso que somos iguais.

Penso ser uma estupidez gigantesca acreditar-mo-nos tão cheios de consciência, capacidades, possibilidades e superioridade.

Não precisamos ir longe para percebermos o quão bestiais ainda somos.

Não precisamos pisar no solo sujo dos homicidas, dos enganadores, dos preguiçosos ou dos drogados. Temos exemplos da nossa, ainda, precária capacidade racional e/ou emocional em diversas ocasiões do dia-a-dia.

Acredito que, por exemplo, com um ente querido em um hospital a milhares de quilômetros de você, mesmo sabendo que não há nada que você possa fazer a não ser esperar notícias dadas pelo médico, você dificilmente conseguiria redigir uma simples mensagem de 140 caracteres. Suas habilidades motoras ficariam prejudicadas, seus pensamentos muito confusos e você, em questão de segundos, seria um animal obedecendo a instintos não muito mais evoluídos que os do seu cachorro de estimação.

Se uma arma estiver apontada para sua cabeça, sou levado a acreditar que você, homem, dificilmente conseguiria mijar dentro de uma privada; ou você, mulher, dificilmente saberia passar batom sem errar muito.

Ora, temos algumas opções quando nos analisamos, no que tange à racionalidade. Podemos buscar controle, conhecimento e sabedoria. Buda, certamente, foi um mestre em técnicas de controle, isso é muito explorado no mundo esotérico, bem se sabe, mas conhecimento e sabedoria não advém apenas do exercício de controle mental e corporal, é necessário estudo e experiência, vivência e contemplação do que se pode compreender dessa nossa vida, muitas vezes, parca e automática.

Podemos, também, nos aceitarmos como animais igualmente limitados, com algumas coisas especiais como a dupla polegar-indicador ou a capacidade de criar algoritmos que fazem programas de computador, mas jamais seremos deuses, donos, por completo, de nossas ideias, dos nossos sentimentos e emoções e, assim, curvar-nos diante do grande mistério que é a vida e pensar, lá no cantinho da nossa psique: alguém está nos assistindo e está dando risada e achando isso tudo muito engraçado, ou está com pena.

Se o Olho que Tudo Vê existe, acho que ele deve estar meio fechado, assim, como se desse risada.

Filhos das estrelas

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Acho incrível a fascinação que as estrelas me causam.

Lembro que desde criança gostava de ficar muito tempo deitado, ao ar livre, olhando o céu da noite, a lua e as estrelas, sem uma causa aparente, sentia uma atração por isso, uma sensação boa, de paz, calma, sossego e harmonia.

Inicialmente, havia algo puramente místico nisso, como se nesse simples ato de observação e, por que não, integração, eu estivesse transcendendo o que sou, passando a uma espécie de outro nível de consciência, e é um absurdo perceber, agora, que eu fazia isso nos idos dos meus treze anos, talvez até menos.

Com o tempo as coisas foram mudando, meu interesse por astronomia cresceu, bem como pela física. Aos poucos fui entendendo o funcionamento de algumas coisas sobre esses astros, a ideia de que aquilo era uma assinatura divina foi dando espaço, ou melhor, coabitando, vivendo em simultaneidade harmônica com o entendimento de que eram luzes, fótons, átomos, ondas, energias e milhares de coisas puramente físicas que, depois de muito tempo, chegavam a Terra com essas informações. A luz hipnótica era tão comum quanto o sol, diferindo (simploriamente) apenas pelo fato de demorar um tempo maior para chegar até nós. Aquela velha história, a luz que vemos de uma estrela hoje pode ter saído dela há mais de dez anos; pode ser que estejamos vendo somente um fantasma, pois não se descarta a hipótese de que esse astro possa ter morrido nesse meio tempo.

Ainda assim, a noite e suas estrelas conserva sua poesia eterna, misteriosa e perfeita. Se não me engano, foi em um livro do Dawkins que li uma vez que a física não estragaria a poesia, a beleza dos fenômenos, apenas daria um novo sentido, e eu devo complementar: um sentido mais profundo e intrigante, portanto, mais poético.

Acho que essa questão astronômica continua tendo seu peso esmagadoramente introspectivo e ensurdecedoramente transcendente porque, mesmo inconscientemente, sabemos que aquilo faz parte da nossa história, da história do universo inteiro. Um dia fomos apenas átomos, pó, carbono ou nem isso, uma energia amorfa e desarmônica, ou, colocando isso de uma forma mais bonitinha: poeira cósmica.

Somos filhos de um mesmo evento.

Somos irmãos em matéria e energia.

Saímos da mesma mãe e do mesmo pai, e podemos chamá-los Cosmos.

Talvez seja isso que nos deixe perplexos diante da insustentável infinitude da noite, o fato de ela tentar nos contar, diariamente, que somos fruto de uma coisa só.

Talvez seja por isso que ficaremos eternamente impressionados com a imensidão do universo, precisamos entender, trazer do inconsciente ao consciente a ideia, ou o fato, de que somos irmãos de Éons atrás.

Também, talvez o universo se expanda conforme a nossa ignorância, a nossa prepotência e a nossa arrogância: antes éramos um condensado único, esse deve ter sido nosso auge, depois disso viramos matéria e fomos nos distanciando, abrindo, cada vez mais, espaço para um vazio que agride nossa alma.

Hoje, há um imenso vazio, e ele pode ser chamado de estupidez humana.

Personagens

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Acredito que, de certa forma, em maior ou menor grau, todos acabamos interpretando algum tipo de papel. Só sabemos ser nós mesmos, de verdade, sozinhos… e de olhos fechados, e isso, digo, a muito custo ainda.

Alguns de nós passam anos e anos interpretando esse papel, escolhe-se um, ou o papel nos escolhe ou nos é imposto, e assim seguimos, teimosos ou persistentes, como queira, fazendo o que essa pessoas faria. A maioria de nós se apodera desse personagem, o torna parte de si mesmo, e passamos, por conseguinte, a chamá-lo de “Eu”.

N.R.: existe uma frase na música Beyond The Pale da banda Pain of Salvation que diz “life seemed to him merely like a gallery of how to be”, traduzindo seria algo como “a vida parecia para ele apenas como uma galeria de ‘como ser’”. Existem pessoas assim, aquelas nunca adotaram um papel para si, apoderam-se de um ou outro personagem, o são por algum tempo, o largam como se ele nunca tivesse existido, sem emoções, sentimentos nem ressentimentos, apenas uma cerca cicatriz que poderia ser chamada de abismo entre o que é SER alguém e ESTAR alguém. É meio desesperador.

Pois bem, miseravelmente, existem aqueles que se deixam dominar completamente pelos papéis histéricos, aqueles que vêem a vida com olhos de lantejoula. Sim, esses são mais miseráveis do que aqueles que não conseguem (ou não precisam, ou não querem) cruzar o abismo entre ser e estar, eles são os cegos, são aqueles que não se perguntam, nunca se perguntaram e, muito provavelmente, jamais se perguntarão, com sinceridade, quem são.

Eles estão dormindo, mas tomam todos os energéticos da mesa com o whisky 12 anos para impressionar e fazer a vida parecer um palquinho, uma cirandinha, e depois suas balas e pílulas consomem uma noite com alguma menininha tão sonolenta quanto.

Tenho um misto de pena e raiva desses, os atores profissionais do dia-a-dia.

Existem aqueles que bebem e se sentem bem, alegres ou tristes, mas sentem-se como queriam sentir; existem, também, aqueles que bebem porque faz parte do personagem, precisam interpretar o papel e enganar o mundo. Os miseráveis.

Encaixar-se em um papel chama-se, apoderar-se dele, corriqueiramente, personalidade. Não ter um papel, não saber como usá-los apropriadamente, pode ser chamado de despersonalização, acredito eu. Ser apoderado por um papel, vivê-lo na mais intensa fantasia do mundo da Barbie e do Ken, pode ser denominado… bom, acho que você entendeu, podemos dar vários nomes, estamos cheios de exemplos.

Não se deixe enganar, as diferenças às vezes são sutis, é possível enganar-se a si mesmo, pensar-se dono do papel mas, pelo contrário, ser apropriado pelo personagem.

Enquanto isso, a balada faz brilhar os olhos de lantejoulas, dois papéis se procuram num roteiro de novela barata onde as pessoas pensam que sabem o que fazem…

Da folha em branco e a nova velha forma de escrever

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Hoje comprei um pacote de folhas de ofício. Minha necessidade de escrever há dias vem se arrastando e minha cabeça tem resistido a estas teclas que uso no momento. Teimei…teimei, então resolvi tentar à moda antiga: papel e caneta.

Sentei numa mesa, na frente do Café & Afins, em Balneário Camboriú, coloquei as folhas na minha frente, peguei a caneta na mão e esperei, talvez uns cinco minutos e pronto, uma história começou a criar forma, algo que não tinha me passado pela cabeça ainda, tenho quase certeza de que não foi uma das milhares ideias que me vêm e vão sem que eu anote ou escreva logo.

Tá, não vou contar nada por enquanto, vou deixar que o enredo tome forma mais clara. O importante, aliás, o interessante é observar o processo de construção na forma manual. É irrefutável: escrever com papel e caneta exige (ou simplesmente confere) uma forma de criação um tanto diferente, está-se consciente dos erros, eles ficam gravados como na vida real, não podem ser apagados por um backspace ou um delete, assim, eles não são esquecidos, ou se são, sempre se pode voltar e lembrar onde, como e porque ele aconteceu.

Quando se escreve em papel uma história as ideias fluem de uma forma diferente, elas são construídas com cuidado, porém, subjetivas, espera-se reler alguns pedaços para encontrar o sentido claro do que foi escrito, apoderar-se da acepção contida nas entrelinhas e continuar.

A vida é algo assim. Uma imensa folha branca na sua frente, um monte delas, aliás; você olha para ela com um certo receio, não sabe bem como começar, como grafar a primeira letra, aliás, não se sabe bem nem com que palavra se começa cada capítulo, mas assim mesmo se vai escrevendo, pouco a pouco, um trabalho de formiga, com paciência e, geralmente, sem muita sapiência, inicialmente.

Com muito cuidado e atenção as palavras, além de mais coesas e sensatas, podem, outrossim, principiar a indicar uma certa direção. Você erra, risca, rasura, mas a caneta não pode ser apagadas, não sem deixar severas marcas. Assim mesmo é com a vida, porém, você não tem permissão para amassar a folha e jogar fora, isso não.

Acredito que, se a partir de hoje, você tentar prestar atenção às palavras que tem escrito, logo começará a compreender melhor o rumo da história, logo perceberá como os personagens interagem, e poderá, talvez até, modelar de forma mais sábia esse roteiro.

E não se preocupe, lapsos de criatividade acontecem, é só esperar com calma.

Ferida

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Calas, porque sabes ter razão;

Não justificas o descaso

Daquele amor em atraso

Que te dispensaram então.

.

Não discutes nem argumentas,

Não alimentas a escuridão desnuda

Dessa ignomínia magra, ossuda,

Da fome dessas agras contendas.

.

Não gritas, não apontas o dedo,

Baixas o rosto e choras quieta,

Evitas de sangrar-me com a seta

Que eu mesmo disparei sem medo.

.

Pois que no silêncio úmido que se evade

Dos teus olhos, me restou uma ferida

Muda e resignada, inflamada e dorida

Que, sendo tua, cuido eu com afabilidade.

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