contaminado
3Tentar a si mesmo,
Da galáxia ao pó,
E nessa empresa, só
Descobrir-se, a esmo.
Provar de si o veneno,
Sorver a droga dispersiva
E bater e bater cabeça, inativa,
Viagem a Cruz Alta
2Notei o quanto estou perdendo a habilidade de meditar e de ser uma pessoa paciente ontem à noite, no ônibus, vindo para Cruz Alta. Mal tinha saído de Chapecó e já queria fazer alguma coisa, além de ouvir música do mp3.
Pensei em acender a luz e fazer palavra cruzada, ou ler (pela trilionésima vez) O Guardador de Rebanhos do Fernando Pessoa (ou seria do Alberto Caeiro?), ou ligar o notebook e escrever, ou jogar Neverwinter Nights, enfim, nada me dizia para ficar sem fazer nada, exceto a moça que viajou do meu lado. Não, ela não me disse para que eu ficasse quieto, até porque eu ainda estava quieto, mas ela estava num estado entre sono e vigília, assim todos do ônibus pareciam estar (a não ser o motorista, eu espero), um silêncio protestava contra minha ansiedade, e é proibido fumar dentro dum ônibus.
Então o que eu fiz foi fechar os olhinhos, respirar em pranayama (certo que só depois de usar meu descongestionante nasal), e tentar tirar a consciência do corpo, isso nunca falhou. Dormi tanto, a viagem toda, acho que acordei quando o ônibus parou em duas rodoviárias apenas, e por pouco não acordo quando ele chegou aqui em Cruz Alta.
A veia vil que dá força
2Não há esperança em nenhum ato;
Não existe, nas ações, expectativa alguma;
É como cair de um trampolim sem uma
Rede que possa sustentar o impacto.
Inexiste qualquer fé no fazer ou reter;
Causos abafados
3Por que a vida alheia é tão importante? Por que é tão necessário se identificar ou se deliciar com os problemos dos outros? Por que queremos tanto ler, ver, saber notícias das vidas que não as nossas?
Quanto mais chocante, melhor. A audiência e a importância crescem de forma diretamente proporcional à intensidade da desgraça.
Também, temos uma enorme necessidade de expôr, de colocar pra fora, de limpar a alma falando ou escrevendo sobre nossos medos, angústias, ansiedades, dores, alegrias, conquistas, vangloriamo-nos e assim nos queremos bem.
