Inteligência (Primitivismo) Emocional

3

E não adianta vir se gabar de que você sabe inúmeros ossos do corpo humano décor, que você sabe transplantar um coração, que você sabe usar a constituição e leu Kelsen, que você sabe integrar, derivar e entende tudo de físico-química.

Não adianta nada, nada adianta.

Adianta muito, mas não tem valor nenhum, portanto, quero dizer que não adianta nada acumular essa quantidade insustentável de conhecimento, de minúcias e especificidades, quando se vive, irrefutavelmente, ao lado do réptil que deixamos para trás há mais de cem mil anos.

 

 

Somos incrivelmente primitivos. Enjoei de dizer isso, cansei, vomitei até o que não podia desse asco que se nutre daquilo que podemos ser, dessa nossa vilania nata, tão rudimentar quanto um macaco: somos incrivelmente primitivos.

Não sabemos lidar com nossas emoções. Sequer sabemos quais são nossas emoções. Esse orgulho que sustentamos em dizer que somos da Geração Y, que sabemos fazer isso e aquilo, que seremos futuros empresários bem sucedidos prontos para subir numa montanha de dinheiro e, lá de cima, gritar ao mundo (que é o próprio ego gigantesco) que conseguiu.

Estamos pouco ou quase nada preocupados com o que sentimos, com o que somos por dentro e com como afetamos, através das nossas nem sempre boas atitudes/palavras, aqueles que nos rodeiam.

Sabemos muito bem, desde pequenos, ser maus.

 

 

Vide crianças e essa moda do bullying: se isso não é pura expressão da maldade e as crias personificações do que há de mais irrefreado em nosso inconsciente primitivo, então tem muita coisa errada com o que acontece depois da infância.

Além do erro da agressão moral/física, há a nossa incapacidade de lidar com as impressões externas. Sabemos de forma muito insatisfatória controlar nossos impulsos, emoções e pensamentos.

Claro, é natural que tenhamos que nos lapidar, sabedoria exige tempo e esforço que uma criança ainda não dispõe, mas nós, adultos, deveríamos ser mais sábios. Nós, adultos, somos igualmente primitivos.

Crescemos hostis, estressados e egoístas.

Ter bom humor é antônimo de credibilidade; ser paciente é sinônimo de inoperância; ser altruísta é, e essa de fato tem sido assim, interesse.

Assassinos, estupradores, terroristas, homens-bomba… vamos engrandecendo nossa loucura, vamos remontando os anos de história de forma idêntica, continuamos brigando pela terra santa e pela razão da verdade absoluta.

Defendemos, cegos, nossas bandeiras, maculadas e mortas. Há quem mate por um time de futebol… e há quem morra por isso.

Somos macacos brigando por uma penca de bananas, dispostos a usar da nossa mais alta inteligência, a violência, para conseguir o prêmio. Passamos a vida lutando, e isso é tudo.

Impacientes, inconsequentes. Wellington matou crianças no Realengo, alguém duvida de que ele nunca soube lidar com suas emoções e impulsos e pensamentos? Uma bomba estourou numa estação de trem. Um homem se explodiu defendendo sua religião/limite territorial.

Somos primitivos, não sabemos levantar a mão e pedir a palavra. Levantamos a mão para um soco apenas, um soco letal, é o mesmo golpe que levamos dentro de nós a vida inteira e queremos pôr pra fora: não sabemos lidar com nossas emoções, extravasamos em violência.

Não somos sábios, somos inteligentes, e só por isso você lê isso na internet hoje.

Só por isso eu escrevo, só por isso eu me indigno.

 

Alhures

1

Segurou firme aquela carne flácida, carne da sua carne, um pedaço do seu próprio corpo, no entanto, parecendo tão alheio quanto os pensamentos de qualquer desconhecido que se lhe passasse pela rua.

Aquele pedaço de carne e gordura, pele e osso, não tinha significado nenhum, parecia estar conectado a si por um mero acaso da vida, ou melhor, todo o seu corpo parecia um amontoado de peças de vários quebra-cabeças que não se encontravam mas, de alguma forma, encaixavam-se de uma maneira mais ou menos simétrica e harmônica. Contudo, nada disso lhe era suficiente, era um pedaço de carne, e era estranho; era um pedaço dele mesmo, porém, era alheio a sua vontade ou consciência.

Era estranho como aqueles milhões de células podiam se juntar daquela forma, naquele corpo, que não parecia ser seu. Agarrava aquele pedaço da sua perna e entendia que para aquelas células estarem ali foram necessárias explosões estrelares, forças gravitacionais, dor, raiva, amor, paixão, sexo, morte, guerra, uma funcionária de um banco e um funcionário do governo. Milhares e milhares de fatos precisaram acontecer de uma forma específica para que aquele pedaço de carne que segurava agora estivesse ali e para que ele pensasse naquilo como algo estranho.

Poderia estar apenas olhando seus pêlos, admirando suas veias que, sutilmente, se avançavam pela pele, como uma cobra nadando quase na superfície da água, revelando por pouco sua silhueta, seu formato, suas cores e tamanhos. Poderia apenas estar se queixando de uma dor muscular ou, com mais azar, de um osso quebrado.

Não, nada disso. Ele olhava para aquela pele que cobria ossos e se perguntava o por quê daquilo ser daquela forma.

Seus pensamentos iam muito além da perna e do sangue que corria dentro das veias que cruzavam aquele membro, seus pensamentos vagavam distantes, corriam por montanhas pré-históricas, por ruas e casebres da idade média, voavam por entre planetas e estrelas que já não existem mais, por entre nebulosas e energias que, de alguma forma, pode ser que jamais sejam completamente compreendidas pelos homens.

Seus pensamentos chegavam até o início de tudo, ao Big Bang, a Deus, a Força Primordial. A Criação.

Mas tudo voltava aquela perna, agora alhures. O que, diabos, ele fazia ali, perguntando-se sobre tudo aquilo? E por que aquele corpo? Por que aquelas formas, pelos, cores, cheiros? Por que esses por quês?

Debatia-se em suas próprias ideias, pra lá e pra cá, como um macaquinho selvagem aprisionado, como um pássaro preso em uma gaiola, como um ser humano que pensa demais.

Um conjunto de células não poderia ser ele mesmo. Aquele mundo que existia dentro de si não poderia ser apenas a soma de uma predisposição biológica e uma fisiológica agregadas a estímulos elétricos do que vira e vivera em toda sua vida, da sua relação com seus amigos, irmãos, pai e mãe e, assim, consequentemente, das mais remotas escolhas pessoais desses que lhe educaram. É uma loucura ad infinitum.

Não conseguia aceitar que todo seu universo interior era apenas reflexo, uma resposta do seu corpo ao meio-ambiente. No entanto, tudo apontava numa direção pouco magnânima, era puro determinismo. Nada mais, nada além.

Soltou aquela perna e prestou atenção no chimarrão que agora lhe alcançavam. Era melhor sorver um amargo e parar de besteira.

 

Pele e perfume

1

 

Uma vida para respirar esse ar

Que suavemente se abarrota

Dessa boa bela branca nota:

- É a existência diáfana em par.

 

Nos meus dedos que entrelaçam

E tocam quase sem tocar,

Num momento, fazem arrepiar

As melodias que se avançam.

 

Na pele e nos cabelos que, molhados,

Parecem, pois, conter um jardim;

Entro beija-flor que busca Jasmim

Num corpo de sabores temperados.

 

A incerteza do futuro

6

Continuando as tradicionais análises mundo-humano/mundo-animal, ontem tive mais um insight nem um pouco brilhante sobre nossa possibilidade de mudar nosso destino.

Estava terminando minha corrida sábado à tarde quando começou a ventar bastante. Nessa ventania que se iniciava e prenunciava temporal vi folhas e flores voando, nuvens fechando o céu que, pouco tempo atrás, era claro e, o que me chamou atenção, um mosquito sendo simplesmente arrastado pelo vento, sem possibilidade nenhuma de se defender daquela força que ultrapassava em muito sua capacidade de resistência.

Um vento forte varre um mosquito para longe. Um vento muito forte pode destruir casas e, infelizmente, vidas.

A natureza é espetacularmente devastadora.

Agora, quero ir além da força da natureza, não quero falar das vezes que ela, em toda sua força, arrasta tudo para longe, quero pensar sobre as sutilezas que nos cercam sem que nos demos conta, aquelas que vão nos moldando, nos direcionando, pouco a pouco, por caminhos que, se formos um pouco deterministas, podemos chamar de “mão única”.

Quando assisti ao filme Mr. Nobody fiquei maravilhado com a hiperbólica cena em que uma borboleta voa, o vento de suas asas move algumas folhas formando um vento mais forte em um bosque, desse bosque uma folha seca se desprende e voa até a calçada fazendo um homem cair e ser ajudado por uma mulher que passava por ali. Resumo da ópera: os dois se casam e têm um filho.

Talvez nossa vida seja assim, decidida fatalmente não em momentos únicos, mas em eventos extraordinariamente exclusivos e fora do nosso controle. E se não tivéssemos caído de skate e quebrado a perna aos doze anos de idade? E se tivéssemos ganhado aquele campeonato? E se não tivéssemos pegado exame naquela matéria? Se tivéssemos passado no vestibular? E se tivéssemos amado mais? Ou melhor: e se tivéssemos amado melhor?

Não podemos prever uma falha na rampa nem um jogador excepcional no time alheio. Não sabemos as questões que cairão na prova nem no vestibular. Não podemos, até onde sei, controlar de forma satisfatória nossas emoções, as nuances que envolvem as idas e vindas dos nossos corações se escondem no espírito, no inconsciente, e seus caminhos são muito mais complexos do que um tapa do pai ou um mimo da vó. Talvez ter olhado cinco minutos a mais para um pôr-do-sol bonito tenha nos feito ter pensamentos espessos, densos, que nos fizeram mudar completamente nosso comportamento emocional.

A vida não pode ser calculada.

Em outra cena do mesmo filme, o personagem recebe um bilhete com o telefone da mulher que amava escrito a caneta. Porém, naquele instante, uma chuva torrencial repentina faz com que um pingo caia bem na tinta recém colocada no papel, e o telefone se apaga, e essa chuva foi ocasionada por um, no caso do filme, brasileiro que matou o trabalho e esqueceu um ovo cozinhando na sua cozinha, o vapor fez com que, no outro hemisfério, acontecesse tal temporal.

Será que, agora mesmo, nossa vida não está sendo determinada por algo que vai muito além da nossa capacidade cognitiva? E será que átomos, ondas eletromagnéticas ou a mais nova famosa matéria-escura não estão, igualmente, interferindo incessantemente nas nossas “escolhas”? Será que o homem vai cruzar a corda-bamba que para o lado do macaco ou do Übermensch?

Alimentos: uma questão política

2

Assisti um pedaço de uma entrevista hoje sobre a (in)suficiência de alimentos no mundo, sobre o futuro da produção e distribuição de comida no planeta. Pois bem… elucubremos.

Há poucos dias ouvi falarem que, daqui alguns anos, será insustentável alimentar todos os seres humanos no planeta. Ora, dizem isso como se todos comessem, como se não houvesse fome, como se não houvesse a miséria, como se não houvesse a maldade, o egoísmo, a ganância e tantas outras particularidades da nossa raça.

A entrevistada, que infelizmente não lhes poderei creditar, tampouco ela terá créditos, pois que não atentei aos seus títulos e graduações, disse uma coisa que pode não parecer tão clara, ou tão evidente, mas o que acontece, de fato, não é uma insuficiência de produção de alimentos, mas uma falha grotesca na distribuição e aproveitamento dos mesmos.

Ela disse que a única “questão” que devemos nos perguntar e analisar é a “questão política”, pois é esse o principal estigma da (des)(sub)nutrição atual no mundo.

O ponto essencial é que as pessoas não passam fome por falta de comida, passam fome por entraves políticos, por barreiras econômicas e milhões de dólares guardados em contas de agricultores e empresários que, de forma alguma, pensariam em perder um real por saca de soja para aliviar essa fome de outros tantos seres humanos, pessoas.

Eu sinto uma culpa insustentável quando vejo comida sendo jogada fora, comida que poderia alimentar uma pessoa que, com muito menos da metade que temos disponível diariamente ficaria muito mais do que o conceito de felicidade conhecido por nós poderia expressar.

Imaginar que uma pessoa, no auge da sua gula, passa o dia comendo, “aperitivando”, e rindo; e que outra, em algum lugar do mundo, sequer tem força para sorrir, que come uma banana e toma meia xícara de água suja por dia, e tem que sobreviver assim é, no mínimo, irônico.

Deus é dono de um sarcasmo lacônico.

Não culpo quem aproveita o que conquistou com trabalho, ou por herança. Culpo aqueles que, por pura ganância desmedida, impedem a si mesmos de levantar um dedo para ajudar com o mínimo que seja aqueles que têm fome.

Não sou nenhuma madre Teresa, aliás, nutro um certo asco por essa “esmola”. Mas tenho certeza que se não suporto ver alguém passando fome. Ajudo com muito menos força do que poderia, porém, mantendo-se as devidas proporções, um milionário monsantino, ajudando muito aquém do que poderia, alimentaria, pelo menos, umas vinte famílias miseráveis.

A questão ainda não é o quanto é produzido, talvez venha a ser dentro de alguns anos, mas o quanto estamos dispostos a ceder de nossa posição para ajudar outro. A questão não é quantitativa, é política.

Se isso é certo ou errado, eu não sei, talvez seja apenas natural, uma espécie de seleção natural. Mas fatos são fatos.

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