Noite dos afortunados

1

A alma apaga à cada passo errado que é dado

as fibras do peito estremecem perante a dúvida

e trôpego, ofegante e inexato passa o tempo

varrendo em fortes tempestades o ímpeto

O ânimo desvanece como um cordeiro

carneado para o prato do meu banquete

o diabólico da carne que nutre meu corpo

que nutre minha alma que não mata nada

E vão-se dias de rotinas de fim impreciso

vão-se porras em corpos nem sempre quentes

a beleza não se mede no corpo que se vê

nem o conforto se percebe no olhar

Hoje não me deito acompanhado

e meu espírito descansa sossegado

tépido, tétrico, sereno em soledade

quem tem a marca sabe da verdade

É noite dos uivos incansáveis

dos gritos intermináveis

das almas que não descansam

e recrutam poetas que as ouçam

para que suas angústias expressem

para que seus devaneios se revelem

e quando a chuva cai no corpo

é a alma que é lavada

e quando a chuva cai no corpo

é a alma acalentada

quando o sinal não arde

quando a água abranda a pena

que a consciência se nos revela

da besta a forte marca

como uma sentença de conhecimento

como um corte que não fecha

e o remédio não cura

a noite da alma dura

noites dos afortunados

inquietos por tanto tato

noite de luz sombria

que se ouve o que não queria

do recôndito tecido nervoso

e se controla o que se sabia

com uma boa dose de sono

É da vida

2

A vida é de alcançar o olhar

naquilo que nasce no coração

de ir com calma, mesmo sem par

navegando no mar, sendo solidão

A vida é pôr a mão nas coisas

e soltá-las quando é hora certa

seguir adiante só com lembranças

e regozijar com o coração que aperta

É da vida desfalecer em pedaços

e não saber remendar os cacos

montar-se, novamente, com laços

e colas e fitas e errar os marcos

Pois vejo só na morte a quietude,

o deixar deitar o corpo

n`água dessa fonte de virtude

do contrário, vida é má finitude

Sargon – Desgel

2

Pessoas que acompanham este descompassado pensamento, peço desculpas por não lhes ter brindado com textos magníficos como o que escrevo. (Preciso explicar sobre ironia?)

Não há tempo nesses dias de provas de engenharia. Contudo, eu penso em vocês (viram como sou querido?).

Portanto, aqui vai uma dica de uma banda muito boa que descobri esses dias: Sargon. É uma banda de heavy metal, meio melódico, meio progressivo, meio power lá das bandas da España. Espero que gostem.

Tempo, relatividade, universo em expansão e nós

2

De forma alguma quero dizer que essas ideias aqui são originais, muito menos novas. Já devo ter lido isso em alguma lugar. Contudo, no momento, isso me pareceu pertinente ser escrito com ideias próprias, com o que me veio agora na cabeça. Sendo assim, é muito possível que isso tudo caia no besteirol, porém, como não tenho a intenção de ser muito científico e sério nesse texto, vou deixar a imaginação se soltar.

Primeiro, me peguei pensando em como as coisas têm passado rápidas demais, os dias acabam logo, as semanas passam e quando se vê já é a segunda-feira que parecia tão distante sete dias atrás. Os meses vão correndo, e o ano novo chega como se recém tivéssemos batido as taças com champanhe fazendo todos aqueles votos e promessas entediantes, falsas e, muitas vezes, de tolice perturbadora.

Quis buscar uma explicação física para isso. Como trabalho muito com a física newtoniana, foi natural que, no início, eu buscasse algo ali para justificar isso. Fui, de cara, pra equação de pêndulo simples, onde o período é definido pela fórmula T=2π√L/g . Onde T é o período que demora para que se complete um ciclo (do pêndulo, no caso), L é o comprimento da corda e g é a gravidade.

Pois bem, logo se percebe que quanto maior o comprimento da corda maior é o período do movimento, e agora percebo que fui bastante juvenil nessas comparações. Enfim, agora vamos até o fim. Se o período é maior, a frequência (f=1/T) é menor, e assim, através da equação de velocidade da onda (V=λ.f) percebemos que a velocidade diminui.

Por métodos específicos que não citarei aqui, hoje sabemos que o universo está em expansão, isotrópica e acelerada (pra todos os lados, na mesma proporção e quanto mais afastadas as coisas mais rápidas parecem se afastar).

Tendo o universo em expansão, nossa equivalente ao comprimento (L), o período do universo em ondas seria maior, portanto a frequência menor e, assim, a velocidade diminuindo, tomando nosso comprimento de onda ( λ) como constante. Portanto, essa impressão de rapidez dos dias que temos deveria ser exatamente contrária, deveríamos experimentar uma vagarosidade. Mas é óbvio que isso não é assim, as coisas não se aplicam dessa forma.

Também, com o universo em expansão, a desordem do universo cresce (entropia), as colisões se tornam mais raras, a energia se torna mais dispersa e o calor decresce. O que também parece tão estúpido em tempos de aquecimento global.

Isso tudo ficou bastante confuso, claramente equivocado e, também, inválido.

Teimoso, fui adiante.

Dei uma lidas rápidas sobre a relatividade do tempo e expansão do universo e encontrei umas coisas que eu já havia lido, provavelmente, no O Universo numa Casca de Noz do Stephen Hawking. Dependendo da velocidade com que determinado corpo se locomove, o tempo irá agir de forma diferente sobre ele, como no paradoxo dos gêmeos.

Sendo assim, um corpo que se locomove com uma velocidade extremamente alta (falamos aqui de grandezas como a velocidade da luz) teria a ação do tempo modificada sobre ele, ou seja, o tempo pareceria passar mais lento para ele, não uma impressão sensorial experimentada pelo indivíduo, mas uma constatação para quem observasse num estado fixo.

Que bonito tudo isso né? A física é linda. Mas eu viajei demais aqui e percebi que nossa impressão de correria dos dias não tem (ainda) uma explicação inteligível por mim na física quântica. Sei que deve existir isso em algum lugar, e se alguém souber, me lembre, relembre, alerte, porque ando com a memória fraca e meio imbecilizado.

Só pode haver uma explicação filosófica e/ou psicológica pra isso.

Será que tem algo a ver com o twitter e a necessidade de ser rápido e inteligente nas twittadas? Sei que 140 caracteres são insuficiente pra relatividade, e pra minha prolixidade também.

Pain of Salvation – Kingdom of Loss: ”Time is so important these days, it’s becoming a fucking disease, and I guess in a way it is since it’s bound to kill us all in the end.Now with all the time and money we stashed away on others’ expenses, I can only assume that the tickets to hell are really expensive. For some reason, it’s important to be first in line.”

Sem prumo

2

Não tive tempo de olhar pra dentro

deixei passar o instante quase perfeito

o momento apropriado desse feito

olhar para dentro, encontrar o centro

Passei correndo pelo âmago

vi o vulto varrido pela luz

um borrão amorfo que conduz

pra longe minha alma num relâmpago

Não vi a estrela que surgiu nem a nuvem escura

que passou pelo céu escondendo a lua

que parecia distante na minha rua

mas era em mim, na minha alma tão dura

Quando percebi havia perdido o rumo

desapercebido do que havia em mim

do ouro que pensara ter sido o fim

passei do tempo certo, perdi o prumo

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