Casa vazia
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Assim te vais, meio sem alma,
Nesse monólogo ensurdecedor
Gritas às paredes desta casa vazia,
Ecoas maldições no teu íntimo oco.
Pensas nas almas e nos átomos,
Meditas sobre o amor e o universo,
E assim te esgotas, em gotas amargas.
Lentamente, sem pressa nenhuma,
Preenches teu corpo nesse escuro ocaso,
Tão pretérito quanto tua vida esquecida,
Tão valioso quanto tua liberdade fria.
Assim te acabas, gota por gota,
Meio sem alma – histeria calma -,
E quando cessas tuas blasfêmias altas,
Afogado no cansaço desse discurso,
Acabas por dormir nesse chão frio
Que ainda vibra gritos de casa vazia.
Foco e Sabedoria
1“- Quando alguém procura muito — explicou Sidarta — pode facilmente acontecer que seus olhos se concentrem exclusivamente no objeto procurado e que ele fique incapaz de achar o que quer que seja, tornando-se inacessível a tudo e a qualquer coisa porque sempre só pensa naquele objeto, e porque tem uma meta, que o obceca inteiramente. Procurar significa: ter uma
meta, Mas achar significa: estar livre, abrir-se a tudo, não ter meta alguma. Pode ser que tu, ó venerável, sejas realmente um buscador, já que, no afã de te aproximares da tua meta, não
enxergas certas coisas que se encontram bem perto dos teus olhos.
(…)
- Olha, meu querido Govinda, entre as idéias que se me descortinaram encontra-se esta: A sabedoria não pode ser comunicada. A sabedoria que um sábio quiser transmitir sempre cheirará
a tolice.
— Estás brincando? — perguntou Govinda.
— Não brinco, não. Digo apenas o que percebi. Os conhecimentos podem ser transmitidos, mas nunca a sabedoria. Podemos achá-la; podemos vivê-la; podemos consentir em que ela nos norteie; podemos fazer milagres através dela. Mas não nos é dado pronunciá-la e ensiná-la.” (Sidarta – Hermann Hesse)

Senta que lá vem história.
PARTE 1
Esse diálogo, cortado muito pela metade, está nos últimos capítulos do livro Sidarta do Hermann Hesse. Sidarta explica a Govinda, com muito bom gosto, do que se sucede quando um homem procura demasiadamente algo, quando se torna cego, fanático, e, assim, simplesmente se fecha ao que lhe está em volta.
Pode parecer bastante auto-ajuda, mas na verdade, acho que é muito mais pra psicologia isso. Nós não somos capazes de captar muitas informações, ao menos não tantas quanto gostaríamos de ser capazes.
Por exemplo, memorize cinco palavras e as procure numa lista gigantesca de outras palavras. Infelizmente, você notara que estará propenso a dar mais atenção a uma ou outra palavra como principal nessa busca e só depois de encontrá-la que você irá adiante, dando mais ênfase à outra.
Não somos tão multitarefa assim, creio que não rodamos num processador core 2 duo.
Um atleta não fica pensando em cada jogada que vai fazer com uma precisão milimétrica, ele não fecha os olhos para o que há em volta no campo para poder fazer um único drible que, provavelmente, não terá a oportunidade de conseguir. Não, um jogador está aberto e atento às oportunidades singulares e temporais que a situação lhe propicia, e assim, esquecendo de uma lógica, apenas encontrando uma maneira de realizar o feito, ele vai lá e faz.
Nossa vida deveria ser mais assim (ao menos no que diz respeito ao âmbito psicológico ou espiritual ou anímico ou como preferir). Gastamos energia, tempo, dinheiro, saúde e tudo que temos buscando coisas que talvez, e nada mais do que talvez, sejam, de fato, da nossa mais íntima vontade. Quando teimamos assim, nos fechamos a oportunidades inesperadas, não estamos mais dispostos aos imprevistos, aos “acasos”, as surpresas, boas ou ruins ou neutras, que a “vida” nos oferece.

PARTE 2
Certa vez (ou mais de uma) escrevi acerca da sabedoria e da inteligência, de suas diferenças. Pois bem, não sou, obviamente, um sábio, fico longe disso ainda, mas entendo que toda sabedoria é quase incomunicável.
Temos capacidade de comunicar conhecimentos, ainda que de maneira parcial, pois esbarramos, primeiramente, na barreira das palavras/comunicação e, depois, na da compreensão/idiossincrasia alheia.
Pois bem, digamos que comunicamos da forma mais articulada possível um conhecimento essencial para outra pessoa. Se ela não viveu aquilo que tentamos comunicar, não importa quão boa possa ser sua capacidade cognitiva, ela não terá um conhecimento total da experiência, perderá a essência num labirinto de imaginados “talvezes” e “porvires”.
O conhecimento total de uma ideia pode ser, quem sabe, chamado de sabedoria.
Um Buda não lhe faria conhecer o Nirvana apenas comunicando os métodos, sensações e aparências da experiência.
Palavras não podem ser cheiradas, não têm cor, não pesam, não tem arestas nem sabor. Palavras não possuem sabedoria, apenas carregam conhecimento.
A sabedoria nunca foi encontrada aqui, nunca será encontrada, embora aqui esteja contida. Cabe a nós apenas pegar essas palavras, transformá-las em conhecimento, amadurecê-las e fazer delas sabedoria.
Urgente, pois que vejo um mundo de pessoas transbordando de ignorância.
Sidarta e a roda da vida
1“Veio-lhe à memória que perante Kamala gabara-se de saber realizar três coisas, de dominar três artes, nobres, insuperáveis: jejuar, esperar e pensar. Isso representava tudo que então possuía. Servira-lhe de esteio sólido. Dera-lhe força e poder. Nos anos duros, laboriosos, de sua juventude, Sidarta assimilara essas três artes, só elas. Mas depois as perdera. A essa altura nenhuma delas pertencia-lhe: nem a arte de jejuar, nem a de esperar nem a de pensar.” (Sidarta – Hermnann Hesse)

Esse é um trecho do livro Sidarta do autor alemão Hermann Hesse. O personagem Sidarta era, quando novo um brâmane, estudioso, aplicado e único na inteligência e espiritualidade, porém, insatisfeito com o que a erudição lhe dava, ou melhor, com o que ela não lhe dava, pois seu coração continuava sedento, nele ainda morava um vazio opressor, Sidarta foi ter, então, com os samanas, monges peregrinos.
Sidarta já era um rapaz quando se juntou aos samanas, deles aprendeu muitos truques, meditações, habilidades e, com eles, obteve inúmeros transes e insights; contudo, o jovem Sidarta continuava sedento e vazio.
Gotama, o Buda da história, é encontrado por Sidarta quando este decide deixar os samanas. Sidarta conversa brevemente com o Buda e entende que, apesar da doutrina de Gotama ser perfeita, ele não deve seguir doutrina alguma, pois que sua maior busca é a si mesmo.
É nessa busca incessante que Sidarta, de certa forma, se perde pelas vilanias do jogo, da avareza, do dinheiro e do sansara. Assim, no trecho citado acima, o já não tão novo Sidarta, agora beirando os 40 anos, resolve se desfazer das riquezas acumuladas nos “anos de desvio”, sentindo profundo asco de si mesmo.
Numa epifania, percebe que, de algum jeito, estava aprendendo seu caminho, ali entende que já não era mais o Sidarta do passado, mas ainda era Sidarta, reconhecia-se não sendo ele mesmo.
A rápida compreensão de que já não sabia mais as principais artes que o constituíam o faz, de certa forma, sentir-se bem. Aí entra a história toda: a mudança.
Somos assim, nossa vida passa enquanto reclamamos, enquanto cansamos, enquanto brigamos com coisas que não podemos mudar. Nesse emaranhado de emoções conturbadas, perturbadas, nessa entropia que vai aumentando em nossa mente, esquecemos de aprender, de observar, de pensar.
Eu também soube, um dia, jejuar (não tanto quanto o personagem), soube esperar e soube pensar. Hoje não domino mais essas artes.
Aprendemos e desaprendemos tantas coisas. Não me refiro apenas às matérias do colégio que nunca mais usamos, quero me referir ao jeito que fomos. Muitos de nós aprenderam a ser rápidos e responsáveis, mas desaprendemos a calma e o relaxamento. Criamos vínculos com coisas desnecessárias e não sabemos mais cortar essas raízes; desvinculamo-nos de coisas boas e nos importamos demais.
Logo depois, Sidarta “escuta” o rio, entende que, como o rio – que não tem passado nem futuro, pois está na sua fonte, na sua foz, no estreito, na balsa, nas cataratas, e tudo no único momento presente -, nós também somos um único ser, com sombras do passado e do futuro, somos o ido e o porvir, porém, o somos somente agora.
Eu já não sei jejuar, nem esperar, tampouco sei pensar como antes. Agora, espero que a vida me ensine a “escutar” o rio, entender da roda da vida e das ilusões do mundo das configurações.
Domínio e Dignidade
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Pois bem, poucos estão a par do causo que se sucedeu no início do ano quando fui fazer minha mudança, do término do meu contrato com o antigo apartamento, das multas pagas (que não existiam) apenas para não arrecadar estresse e tempo perdido, dos inconvenientes, das burocracias e falta de vontade (para não dizer má-vontade e mau-caráter) dos corretores.
Não entrarei em detalhes acerca disto, tampouco vou revelar o nome da imobiliária que, por falta de bons modos, fez de tudo para arrecadar um dinheiro a mais. Ah, se um João-de-barro fosse indigno assim com sua própria moradia…
Enfim, o que venho lhes contar é que, dia desses (e não foi a primeira vez) estava caminhando pela rua e cruzei com o dito corretor imobiliário/dono da imobiliária; fiz-me pronto para dar um “oi”, fazer uma certa ironia quando este me olhasse e me cumprimentasse; porém, qual não foi minha surpresa ao reparar que, nervosamente, o senhor (pois passa, certamente, dos 50 anos, o que torna a situação mais cômica para o meu lado e mais triste e mendicante para o lado dele) desviou o olhar, procurou alguma coisa no chão enquanto caminhava, tateava em sua consciência procurando uma lanterna, uma vela qualquer que lhe ajudasse a procurar aquela dignidade que, ele ainda não entendeu, está perdida.
Fiquei pensando em como o ser humano trai a si mesmo constantemente. Obviamente, raras são as vezes em que nos traímos diante dos outros de forma tão clara, aprendemos, com o tempo a ser dissimulados (uns mais, outros menos).
O problema é que o homem comum (esse como você e eu, seu pai, seus amigos e quase todas as pessoas que você conhece) não sabe o que se passa em seu inconsciente, não sabe se perceber como indivíduo, dotado de personalidade, características particulares e emoções únicas.
As emoções constituem matéria de difícil entendimento, mais complicadas ainda para auto-compreensão. Poucos são os que sabem de forma satisfatória (o que não quer dizer, nem de longe, completa) o que se passa em seu espírito, o que são e por que assim são essas emoções, e os poucos que podem dizer que entendem um tanto sobre si mesmos ficam mais escassos ainda quando se lhes pergunta se eles conseguem ter um controle sobre isso.
Não é á toa que o amor é algo tão forte, que a raiva também o seja, são emoções primitivas do homem, estão demasiadamente arraigadas em nossa alma para que sejam, simplesmente, sobrepujadas, ludibriadas ou coisa que valha. Por isso, muitas vezes, pessoas são pegas nos detalhes, nos atos falhos, em pequenos erros ou descuidos que fazem com que verdade graves e perigosas sejam trazidas à tona.
Nós, pessoas normais – homens, não sobre-homens de Nietzsche -, não nos dominamos, não escondemos tudo, não sabemos tudo de nós mesmos e não podemos encarar os olhos de algo que nos traz temor e vergonha.
Jamais poderíamos olhar nos olhos de quem nos revelou a perda da própria dignidade.
Poesia suja
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Essa poesia branca e limpinha já não é a alma;
Essa poesia, cosida em um tapete de algodão branco,
Que se escorre, viscosa, por dedos magros
Não tem mais cheiro de espírito, somente de fantasia.
Essas nuvens alvas, redondas, que cobrem meio sol;
Essas aves que voam um vôo perfeito… são só imagens,
São escarros da nossa consciência,
São escape da nossa inocente inabilidade de ver.
Essa poesia que se enche de louros e outros ouros,
Essa poesia que, garbosa, vem bater na face da realidade
Não tem força, é muito menos real que um vômito de enjôo de uma viagem no mar.
Não existe métrica na fome, não existe rima na guerra.
Não existe leveza no mundo, senão nessa poesia branca e limpinha
Nessas palavras de poetas mentirosos.