O Rei – Capítulo 1 – Dos Recônditos
CAPÍTULO 1 – DOS RECÔNDITOS
Eu não fui sempre assim, não nasci desse jeito, na verdade, não tenho muita noção de como as mudanças ocorreram, de quando isso aconteceu, o que eu sei é de um passado e um presente que parecem não poder se encostar, senão por um elo chamado consciência, que, no meu caso, já não tem tanta importância nem eficiência. Aliás, mais ainda pela verdade, acredito que eu ignore as ínfimas mudanças que foram ocorrendo pouco a pouco na minha alma, prefiro assim, então eu repito a mim que não sei onde nem quando ocorreu a mutação. Eu não fui sempre assim.
Lembro de quando ainda era criança, ou não lembro, posso ter inventado, depois desses anos como estou as coisas começam a ficar nubladas, com uma luz trêmula, é fácil se deixar enganar pelas memórias. Bom, voltando ao assunto, lembro de quando ainda era criança e ia com meu pai no lago, ou lagoa, perto de casa, ficávamos horas num pequeno bote, à deriva. Às vezes ele falava algo, lições de vida, meu pai era um homem sábio, não apenas inteligente, pois devemos saber distinguir a sabedoria da inteligência, esta é uma habilidade mental conquistada com muito treinamento, aquela é uma característica (ou seria também uma habilidade?) da alma, intrínseca ao homem que a possui, e uma pode, sim, existir sem a outra, contudo, meu pai tinha muito das duas, e por isso era um homem diferente.
Nessa época meu pai ainda morava com a minha mãe, éramos entre quatro: minha mãe, meu pai, minha irmã mais velha e eu. Eu e minha irmã tínhamos dois anos de diferença, e, ao contrário do que parece ser comum no comportamento familiar, eu era mais apegado ao meu pai do que a minha mãe, e minha irmã mais apegada a minha mãe do que ao meu pai. Minha irmã se chama Luciana, eu acho, não tenho mais certeza, mas deve ser, porque ela tinha luz em seus olhos, acredito que ainda esteja viva, não a vejo há mais de doze anos. Era muito magra, pobrezinha, tinha seios miúdos e pernas finas, morena de olhos castanhos e vivos, era de uma simpatia sem igual, e ela me adorava. Porém, não ficávamos muito tempo juntos, ela passava muito tempo com a minha mãe, e eu com meu pai.
Quando tinha, mais ou menos, uns onze anos meus pais se separaram, foi tudo muito amigável, mas meu pai sofria muito, calado, eu percebia isso. Fui morar com ele e minha irmã com minha mãe. Como meu pai não gostava de me deixar sozinho em casa à noite, levava-me, por vezes, assistir as suas aulas na universidade: Hegel, Kant, Nietzsche, Descartes, Platão e toda sorte de homens ditos filósofos. Eu ouvia aquilo com mais atenção do que os alunos de verdade, e as garotas adoravam me apertar e me beijar, diziam que queriam esperar que eu crescesse para que se casassem comigo. Casar, a essa farsa eu, felizmente, nunca aderi, usei e abusei das mulheres por anos, mas nunca me casei.
Na escola sempre tirei notas altas, mas não gostava de me esforçar nas matérias, preferia os livros do meu pai e dos jogos da educação física. Quando fiz quinze anos meus amigos foram na minha casa, meu pai estava na aula, e uma das garotas quis conhecer meu quarto, foi a primeira vez que fiz sexo, e depois disso meus dias se resumiam em filosofia e sexo. Meu pai começou a passar mais noites fora de casa, talvez tivesse arrumado alguma namorada, eu já não perguntavam muito sobre isso, e ele parecia ter parado de sofrer por dentro pela separação. As garotas me visitavam, algumas se conheciam e sabiam uma da outra, a maioria não. Houve uma noite em que duas garotas foram ao mesmo tempo, esse era o sonho de todos os homens, mas eu nunca contei a ninguém, não queria que meus amigos pensassem mal das garotas. Era hedonismo, era sadismo, era niilismo e existencialismo, era sexo e terminava ali.
Só depois de muitos anos fui compreender o relacionamento dos meus pais, do porque eles haviam se separado, dos planos que haviam feito e não puderam realizar, dos conflitos internos de cada um que ia, aos poucos, minando não a relação deles, mas a relação deles com seus próprios espíritos, eram estranhos dentro de suas próprias cascas, como sustentar uma existência assim? Eu assumi o que sou até às últimas consequências, e eu não fui sempre assim, porém, viver sempre com medo e receio do que há em sua própria cabeça deve ser um inferno, acho que esse é o inferno que dizem, pois eu não me sinto mal, e sou o que todos tem medo e nojo.
Minha irmã foi morar na Europa, já lembro mais em qual país. É estranho, da minha infância eu lembro, ou finjo lembrar, mas as memórias de adulto eu não controlo, lembro umas vezes, esqueço tantas outras. Pobrezinha, era tão frágil seu corpo, mas sua alma era cheia de bondade; pobrezinha, o mundo não é feito para os bons.
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