O ósculo da vida
Ele tentava largar, queria soltar a vida, desvencilhar-se dela. Esta, porém, insistia em agarrar-lhe as pernas, impedia-lhe os movimentos, cingia com seus braços de esperanças a mente dele e o fazia acreditar em possibilidades.
Lá adianta ele caía novamente, um deus falho, uma desordem imprópria ao prometido pela Vida; ah, mas ela ainda o agarrava, queria o homem de qualquer forma, por inteiro, só pra ela… ela e suas esperanças.
A cada momento que ele pensava em desistir, e já havia (quase) desistido, ela, a megera vida, vinha depositar-lhe idéias de renovação, de novidades. Ah, e o pobre escutava os discursos, acreditava mais uma vez, e outra, e mais outra, sempre ponderando que nunca ela estivera certa, porém, persistia.
Ele queria fechar os olhos e descansar, mas a vida vinha lhe fazer cócegas, tirava-lhe a quietude, o silêncio era jogado para longe, a paz se tornava utopia.
Ele queria cair, mas logo no início da queda a vida vinha, com uma nuvem de algodão-doce, amaciar a queda, e fingia que tudo seria perfeito à partir dali.
Oh, pobre tolo é o homem, ainda luta contra vida, num amor e ódio indizíveis.
“O que escreve em máximas e com sangue não quer ser lido, mas decorado.” F. W. Nietzsche.
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