licença, Zé
Há alguns dias terminei de ler o excelente livro de José Saramago “Ensaio sobre a cegueira”. Sinto-me impelido a fazer algumas citações dos diálogos dos personagens ou de observações do próprio escritor, mas não o farei. Claro que a história contém vários elementos um tanto tangentes à realidade, no entanto, a realidade psicológica se torna tão crua e fiel que podemos relevar algumas minúcias.
O que vem ao caso é o que seria de nós num mundo de cegos? É certo que teríamos, inicialmente, diversos problemas de higiene e alimentação, de desenvolvimento de tecnologias e de organização social. Porém, acredito que teríamos ainda razão suficiente para superar tudo isso e passar a um novo estado (estágio) de (sobre)vivência.
O que mais me admira, entretanto, é como o foco de nossas atenção estaria sendo desviado. Eu explico. É que, atualmente, vejo mais do que 50% da nossa vida ser guiada pelas aparências visuais (e ressalto desde já que não sou absolutamente nada contra isso, talvez até seja um tanto a favor, o que também não vem muito ao caso). Antes de ouvir, observamos; antes de nos apresentarmos, observamos; antes de cheirar, observamos. Analisamos as pessoas, os alimentos e produtos em geral pelas cores, pelas formas visuais, mas e se tudo isso fosse, de repente, apagado? E se restasse para nós apenas o cheiro, o tato, o paladar e a audição para que nos comunicássemos com o mundo?
Será que cegos aprenderíamos (inventaríamos) uma nova forma de vaidade, de estética? Eu poderia muito bem ser atraído por uma mulher unicamente por sua voz, combinada com a textura de sua pele e seu cheiro, afinal, no fim das contas é isso que conta juntamente com a beleza visual. Porém, não penso que existiria um padrão de beleza tão rígido e senso comum, parece-me que sob tal condição nos abriríamos a novas formas de experimentar os corpos alheios e o próprio corpo, teríamos mais tato e nos aproximaríamos mais, ouviríamos mais o que têm para nos dizer, seríamos mais atento ao recheio daquelas mentes que se escondem em panos e laços.
E melhor ainda seria se, depois de perdermos a visão, voltássemos a tê-la no momento mais inoportuno, para vermos, de fato, o que a realidade não-visual nos trazia em tal hora.
Será que seríamos seres humanos melhores ou piores? Penso que seríamos os mesmos, com aquilo que chamamos de “futilidade”, mas no fundo tanto nos prende, desviada para outro tipo de sensação.
Mas a música, com certeza, seria mais deliciosa.
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Precisamos entender que não enxergamos apenas com os olhos…Na minha opinião, as pessoas cegas muito tem a nos ensinar, considero o tato um dos sentidos mais belos que possuímos…vivemos em um mundo que padroniza as pessoas, mas é preciso ir além dos que os olhos são capazes de ver, esse não é um exercício muito fácil, porém importante para que abadonemos os tantos preconceitos que temos.Ah, para mim beleza é um conjunto de muitas coisas e que faz parte de um mistério, afinal o que é belo para uma pessoa, pode não ser para outra…enfim…Escrevi algo bem parecido no meu blog há um tempo.Um beijo, Isa.
É o que sempre falo…com o perdão do assunto…nasci cega meu amigo…e sou feliz assim…:)