Ignorância I
Vim jantar com a minha esposa neste restaurante porque me disseram que ele era excelente, e também porque nesta semana ele saiu na revista como um dos dez mais importantes de São Paulo. O ambiente me faz ter a sensação de estar na itália, as cores, os cheiros, as mesas, as cadeiras, enfim, tudo.
Tudo, exceto esse negro na outra mesa. Vim para esse restaurante pensado que estaria em um ambiente seleto, com pessoas distintas, e agora me deparo com esse negro. Talvez eu toleraria sua presença se ele fosse um garçom. Não. Poderia, quem sabe, tolerá-lo se ele fosse servente, se ele apenas se limitasse a limpar o chão da cozinha, e ficasse bem longe dos meus olhos.
Agora estou aqui, sentado nessa mesa, com um vinho caríssimo aberto e duas taças cheias, a minha e a da minha mulher, um Malbec, português; aliás, garanto que em Portugal não existem negros na produção de vinhos, o vinho que tomo é um vinho cem por cento confiável. Os pratos ao lado das taças são brancos, é claro, assim pode-se enxergar a sujeira (preta) e limpá-la com facilidade.
Com o canto do meu olho direito consigo ter o negro no meu campo de visão, e nem preciso virar muito os olhos ou o pescoço, vejo sua cor enquanto converso com minha mulher que, claramente, também está incomodada. Sinto o cheiro forte de negro, ouço a voz grotesca, tudo nele me desperta os sentidos de um jeito asqueroso.
Penso uma, duas, três vezes em chamar o garçom para que nos mude de mesa; melhor, poderia pedir para que retirasse aquela escória do restaurante. Quanta ousadia, um crioulo entrar num restaurante desses, querendo se juntar a pessoas como eu e minha esposa, isso é ultrajante.
Minha esposa está com espasmos no olho esquerdo, o mesmo lado que está virado para a mesa do negro, o nariz dela está com uma expressão de asco, e eu sinto que preciso fazer algo. Sorvo quase todo o vinho que está servido num gole só.
Chamo o garçom e peço para que nos mude de mesa, peço para que nos coloque na ala dos fumantes, afinal, quero fumar mesmo. Isso parece ter aliviado minha esposa. Enquanto caminhamos para a nova mesa, passo ao lado do crioulo, sinto uma imensa vontade de socá-lo, ali mesmo, eu em pé e ele sentado, como deveria ser, até ele deitar no chão sem forças para revidar. Assim tem que ser. Eu cruzo encarando aquele chimpanzé e desisto da idéia de espancá-lo, não vale a pena uma situação dessas.
Na ala de fumantes eu acendo meu charuto para fumar enquanto tomamos o vinho e esperamos o pedido de janta. Fiquei de frente para o negro, daqui ele me olha diretamente nos olhos, coisa que, diga-se de passagem, o faz frequentemente. Minha esposa percebe que minha inquietação aumenta, e meus olhares são constantemente direcionados àquela mesa do casal de negros.
Apago o charuto antes de chegar na metade e a convido para sairmos. Nunca mais retornarei àquele restaurante, digo a mim mesmo. Nunca mais voltarei a este restaurante, disse ao atendente na hora de acertar a conta do vinho e da janta que, mesmo sem comer, pagamos; e ele ficou sem reação quando disse isso, não sei se está imaginando minhas razões, mas deveria saber, eu não devo precisar explicar que arianos puros não querem a presença destes estúpidos negros no mesmo recinto. Maldita aquela que terminou com a escravidão, malditos revolucionários, humanistas, igualitários. Como querer igualdade para todos quando sabemos que, obviamente, não somos iguais?
Onde já se viu, um restaurante desses permitir a entrada de negros. Deveria ser retirado da lista dos dez mais de São Paulo.
Onde já se viu um negro querendo frequentar o mesmo lugar que nós, brancos.
Agora que você já leu o texto todo, que tal compartilhar com seus amigos? É só clicar nos botões abaixo!
Hey, tem novidade: Ignorância I -> http://migre.me/8ekp
Hey, tem novidade: Ignorância I -> http://migre.me/8ekp