I
Suponhamos, primeiramente, que o poeta seja dotado de alma
Poderia ele realmente sentir o que diz que sente, ou seria ele um grande fingidor?
Fingiria que finge, sentindo, de fato, o afago e a hora da partida?
Ah, se o poeta fosse dotado de alma, ele poderia fingir que finge, ou fingir que sente
Isso não importa, ao bem da verdade, devo dizer que não nos importa
Só se ele tivesse alma

II
E se um poeta não fosse capaz de ser seu eu lírico
E se seu eu lírico transpusesse o homem que o criou?
E se nada disso fosse possível, e nada houvesse
Quantos estímulos ele fabricaria para se perceber realidade?
E se ele tivesse alma para sentir, quereria o sol?

III
E se tocam o teu rosto, poeta, acaso tu não sentes
Por que assim não é com teu coração?
O que causa em indiferença a mais plena não-comoção
Essa frialdade que cultiva o árido e o deserto
Onde está, poeta, a semente que plantaram em tua alma?
Seca.

IV
E se os heterônimos não te salvam, poeta, larga deles e os deixa ir embora

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