Hermann Hesse - Gertrud

HESSE, Hermann. Gertrud. 4. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977.

“Afinal de contas, é insensato indagar assim da felicidade ou infelicidade, pois penso que mais dificilmente renunciaria aos dias infelizes da minha vida do que aos alegres”

“O que um homem é para si e o que vive interiormente, de que maneira se torna outro e cresce e adoece e morre, tudo isso é inenarrável.”

“Acompanhei-a, penalizado, com o olhar; e, durante muito tempo, não me livrei mais daquela visão. Seria eu, deveras, um ser inteiramente diferente de todos eles, de Marion, de Lotte, de Muoth? E aquilo seria, realmente, amor? Eu as via todas, essas criaturas de paixão, cambalear como arrastadas pelas tormentas e flutuarem no desconhecido: o homem, torturado, hoje, pelo desejo, amanhã, pelo fastio, amado sombriamente e rompendo brutalmente, inseguro de qualquer inclinação, descontente com qualquer amor; e as mulheres, arrebatadas, suportando ofensas e pancadas, por fim enxotadas e, contudo, ainda agarradas a ele, aviltadas pelo ciúme e pelo amor repelido, numa fidelidade canina. Naquele dia, pela primeira vez, desde muito tempo, eu chorei. Chorei lágrimas de indignação e de ira por essas criaturas, pelo meu amigo Muoth, pela vida e pelo amor; e lágrimas silenciosas e secretas por mim mesmo, que vivia em meio a tudo isso como num outro planeta, que não compreendia a vida, que ardia em sede de amor e que, no entanto, devia temê-lo.”

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