fragmento I
As palavras se esmorecem num poema natimorto
Quando tu nem vens ver se há, ainda, em mim, cores
Que possam trazer vida diferente da minha ausência
De mim mesmo, como barco perdido do seu porto.
O poema nasce sem objetivo, senão o próprio defeito
Idiossincrático, jogado ao acaso para minha consciência;
E salvei-me da morte na minha racionalizada insolência
Ao fazer do objetivo a dor, e o meio a poesia meio sem jeito.
Do que cresce em mim, não vejo jardins nem os pagos
Que queria ter cultivado em cada manhã gelada,
Vejo o cativado despedaçado, a enseada maculada
E o esquecimento enegrecido dos teus afagos.
Não há lótus brilhando no lodo que me circunda,
Não há ar puro nesse enxofre denso e sufocante;
Morro na dor prometéica, diariamente e a cada instante,
Só perdura minha doença, intocada, viva e profunda
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