Solilóquio do personagem principal do livro sobre sua opinião acerca da fotografia.

“No fundo eu odeio fotografias e a mim mesmo nunca passou pela cabeça tirar fotografias, com exceção dessas de Londres, de Sankt Wolfgang, de Cannes, minha vida inteira não possuí máquina fotográfica. Desprezo as pessoas que fotografam constantemente e que andam o tempo todo com sua máquina fotográfica pendurada ao pescoço. Constantemente elas estão em busca de um tema e fotografam absolutamente tudo, até as coisas mais absurdas. Constantemente elas não têm nada na cabeça a não ser retratar a si mesmas, e sempre de maneira mais repulsiva, coisa de que no entanto elas próprias não têm consciência. Em suas fotos elas captam um mundo perversamente deformado, que não tem nada em comum com o mundo real senão a perversa deformação de que elas são responsáveis. O fotografar é uma mania sórdida que pouco a pouco se apodera de toda a humanidade, porque ela não está somente apaixonada pela deformação e pela perversidade, mas louca por elas, e com o tempo, de tanto fotografar, ela toma efetivamente o mundo deformado e perverso como o único verdadeiro. Aqueles que fotografam cometem um dos crimes mais sórdidos que podem ser cometidos ao transformar a natureza, em suas fotografias, num grotesco perverso. Em suas fotografias, as pessoas são marionetes ridículas, irreconhecíveis de tão distorcidas, mutiladas mesmo, que com ar obtuso, repulsivo, fitam assustadas suas lentes sórdidas. O fotografar é uma paixão abjeta que se apoderou de todos os continentes e todas as camadas sociais, uma doenã de que foi acometida toda a humanidade e da qual não pode mais ser curada. O inventor da arte fotográfica é o inventor da mais desumana de todas as artes. A ele devemos a definitiva deformação da natureza e do ser humano que nela vive, reduzidos à careta perversa de um e de outro. Ainda não vi em nenhuma fotografia uma pessoa natural, quer dizer, verdadeira e real, como ainda não vi em nenhuma fotografia uma natureza verdadeira e real. A fotografia é a maior desgraça do século XX.” Extinção, de Thomas Bernhard.

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