Quinta-feira de muita chuva, quando acordei não estava tão frio, por sorte escutei a faxineira que me disse “leva um casaco garoto”, eu obedeci, como me foi ensinado a obedecer os mais velhos. Durante a vinda de ônibus para a universidade, olhando as nuvens escuras que se aglomeravam e também, outro pouco, olhando para o chão do ônibus com serragem para não ficar liso, para os meus pés calçando all-star e foi só isso.

                Estranho dizer “foi só isso”, é como se isso fosse um vazio, um espaço, um interlúdio, mas não, isso é, justamente, o todo, o preenchimento, o recheio de uma mente dispersa e incontida.  Cheguei a conclusão que minha mente é como uma empresa em desenvolvimento com um dono auto-suficiente.

                No início tudo era simples, uma empresa de pequeno porte, com produtos baratos e simples, fáceis de se fabricar e de vender, com apenas um sorriso se vendia de tudo, e também recebia donativos de empresas maiores, migalhas importantes pra construção do que viria.  Depois começou a expansão, abriu-se uma filial que exigia mais atenção e queria produzir produtos novos, diferentes da proposta inicial, e assim ela passou a ter mais autonomia. Sucedeu-se, então, que essa empresa exigia cada vez mais coisas extravagantes, queria produtos impecáveis, mas de pouca utilidade, ainda assim, foi crescendo de forma espantosa. Concomitantemente, a empresa original crescia, sua taxa exorbitante de informações e dados se transformava numa pilha diárias de laudas lidas e relidas e confundidas.

                Atualmente, minha mente é como essa empresa sufocada, eu sou o dono, dividido entre as duas empresas, uma é bonita e excêntrica, produz pouca coisa útil, ainda assim, faz mais sucesso que a outra, que, por sua vez, é uma empresa antiga, de renome no mercado interno, e eu, com tanta informação gerada, não consigo mais dirigir ambas.

                Agora, quem não sente esse aperto na cabeça? Parar quieto é dar vazão a um sem-número de idéias e pensamentos, a maioria deles não conseguimos acompanhar, perceber, racionalizar. É como se tudo dentro do espírito tomasse vida própria e agora parássemos pra assistir a peça, é como se os personagens estivessem prestes para pular fora do palco, logo fossem se materializar e oprimir o criador. Aliás, mesmo sem a materialização, eles são opressores muito bem alimentados.

                Quem foi que decidiu dar um cérebro que segue a estímulos, autômato, e que, no entanto, nos faz pensar que somos, de fato, os senhores desses rumos seguidos? Quem foi que teve essa brilhante idéia?

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