Causos Abafados – I – Parte Um
Na época ele era jovem, tinha 19 anos, morava numa cidade do interior, nem pequena nem grande. Sua mãe era professora do ensino médio numa escola estadual, morena, magra, cabelos crespos, estava com 38 anos na época, ainda mantinha uma certa beleza, e seu jeito hippie ainda persistia na forma de caminhar, de se vestir, de olhar e de viajar internamente, sem dar muita importância, ou sem perceber, ao que pensavam sobre ela, seus alunos ou seus colegas de trabalho. Ela não tinha muitos amigos, havia se mudado para aquela cidade quando ficara grávida dele, isso porque seu marido na época, o pai do garoto, havia sido transferido. O pai do jovem estava na época com 44 anos, a transferência aconteceu quando ele fora promovido para subgerente do banco em que trabalha até hoje; no tempo em que a criança nascera ele era bonito, também moreno, jogava futebol com os amigos, tinha quase corpo de atleta, fumava maconha com a, então, namorada, divertia-se e adorava escapar para outros corpos femininos, nos churrascos após os jogos ia a bailes e se divertia com as loiras, dizia ele que só seria traição se fosse morena como sua futura esposa.
Ele nasceu e ela interrompeu os estudos, que terminaria dois anos depois, deixando a criança muito tempo com a babá, que colocava calmante na sua mamadeira. Os tempos eram bons, a economia do país era boa, as coisas eram compradas facilmente, não havia inflação, o dinheiro rendia e a comida estava sempre na mesa, e os natais eram cheios de presentes e alegres.
No dia em que completou 6 anos seu pai recebeu a notícia de uma promoção, seria agora gerente do banco, contudo, precisavam mudar de cidade. Ela ficou muito feliz pela promoção, mas detestou a idéia de se mudarem novamente, dessa vez para uma cidade fora do estado. Como o pai precisava ir logo, foi sozinho, até que o ano letivo terminasse, isso duraria quase 3 meses.
Ela estava dando aula para a quarta-série, seu filho estava na primeira e era um prodígio. O pai, lá de longe, mandava dinheiro toda semana; e, no início do segundo mês, começou a enviar quantias maiores. Ela pensava que era porque estava ganhando muito bem, ele fazia isso como jeito de limpar a consciência do que estava fazendo.
Lá na cidade nova, no Paraná, ele conhecera uma morena, mais bonita, mais inteligente, mais independente, mais apaixonante. Começou a se relacionar e o que mais queria evitar aconteceu: apaixonou-se.
Chegando perto do final do ano letivo o pai voltou à cidade, ela pensando que era pra ajudar na mudança, e ele querendo dar um fim ao casamento de maneira amigável. Quando ela recebeu a notícia ficou sem reação por alguns segundos, depois teve um ataque histérico o qual parece ter sido o início de uma série de problemas psicológicos. O estopim.
O garoto cresceu com o salário da mãe professora e a pensão generosa do pai bem-sucedido que, aliás, era repelido ao máximo por sua mãe, e seu contato com ele foi diminuindo. Como o pai parecia não fazer muita questão de estabelecer uma relação, o laço foi se desfazendo, e a figura paterna não foi substituída por ninguém mais, nem avô, nem tio, nem padrasto.
Aos doze anos tomou o primeiro porre com o pessoal da escola, numa festinha do irmão mais velho de um dos colegas. Era sempre ele e seus quatro amigos, roqueiros, os cinco que todos finais de semana tomavam cachaça com coca-cola com o dinheiro economizado do lanche da escola. E a mãe do rapaz parecia sempre imersa dentro dela mesma, afogada demais pra perceber as mudanças, pra perceber que o prodígio estava sendo apagado aos poucos.
A cachaça com coca ficou mais frequente, e o baseado entrou na história quando eles tinham 13 pra 14 anos. Era fácil conseguir, era barato, e era, acima de tudo, descolado, as garotas achavam eles os maiorais, e assim foi até os 16 anos, quando todos começaram a estudar com mais afinco. Dois dos cinco se afastaram, retomaram as rédeas, assumiram as responsabilidades. Restou ele e mais dois dos amigos.
Foi numa noitada, após um dos dois ter brigado com seus pais, que eles tomaram um dos maiores porres da vida e o filho que fugira de casa roubara o carro dos pais. Bêbados, chapados, experimentaram a cocaína e a velocidade do carro que mal sabiam dirigir. A primeira morte da turma, a do garoto que havia brigado com os pais.
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