Nenhum beijo tem sabor igual ao do beijo dado com lágrimas, aquele beijo misturado ao pranto, ao choro emergido das vísceras, aquele que mostra a alma do seu jeito mais convulso.

Quando se beija entremeado de sentimentos aflorados, da dor mais viva, ou da esperança e alegria mais guardadas, traz-se ao mundo a maior parcela de humanidade que se pode manifestar em um ato que tem se transformado tão corriqueiro.

O que há de obscuro e secreto em nós é aquilo que nós, de fato, somos, nossa essência mais rústica, dura, pura e animalesca, e se é necessário que situações extremas sejam atingidas para que possamos nos manifestar é, realmente, uma pena.

O calor do beijo dado em meio às lágrimas, tendo surgido elas por razão qualquer, é um tépido compartilhamento de vida, de sensações e emoções, é uma entrega igualada em poucas situações – não está impregnada de excesso de sexo nem desprovida, uma vez que o sexo é, mesmo que queiramos e sejamos tentados a negar, uma das forças primevas de nosso âmago.

O beijo de algum tipo de dor é a contradição mais incrível que o ser humano pode conhecer, um ato de carinho para o que lhe machuca, é a maior aproximação daquilo que os cristãos chamam de amor de Cristo. Querer dar amor e prazer num ato de suprema entrega, ainda que isso custe uma parcela de dor sobre-humana, é a própria redenção ou rendição ao incompreensível, posto que emoções não me parecem entendidas, por completa, pela psicologia.

O gosto salgado das lágrimas misturado ao calor morno dos lábios num gesto de amor e passagem é a vida desabrochando, é um botão de flor se abrindo, um momento em que não se é nem broto nem flor, quando se é pré e pós, mas não se é nada. Entregar-se nesse símbolo dorido de vida é deixar a si mesmo, e perceber-se como liberdade.

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