Christian  Silveira

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Posts by Christian Silveira

Mas e se…

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Quando começamos a correr muito, a ir depressa demais, as coisas começam a se perder pelo caminho. Os valores vão caindo da carroça, a moralidade e a ética ficam em alguma estalagem beirando a estrada, as pessoas importantes vão dando um adeus tímido através da poeira do caminho e nós nos vemos apenas como sombras, e vamos, meio sem querer, vivendo o que acontece.

É comum inúmeras posses e pessoas terem seus ciclos fechados em nossa vida, é natural que muito disso se torne apenas lembrança. No entanto, a pressa do dia-a-dia, a ânsia por mais e a vontade de ganância abafam muitas cores que ainda deveriam brilhar inocentemente em nossas vidas. Mas nos mexemos tão rápido que essas cores se tornam borrões no espaço deixado pra trás.

Aliás, borrões são, mais ou menos, aquilo que enxergamos da realidade.

Não só nos é impossível ter uma compreensão completa e exata do que cada coisa significa para uma pessoa, ou até pra nós mesmos, como somado à isso parecemos fazer questão de perder a pequena habilidade de razão e entendimentos, que nos são inerentes como seres humanos, e perdemos isso por descuido, por pressa e por ansiedade.

Mas e se tudo isso (ansiedade, pressa, afobamento, desatenção et Cetera) for apenas um resultado tão simples e notório da angústia que a vida nos traz? Se for assim, como deixar o brilho voltar às cores? Como permitir que a angústia encontre uma porta de saída e nos deixe em paz naquela clareira em que paramos na estrada, cheia de flores e sons e cheiros de sossego?

Mas e se só soubermos levantar hipóteses e não conseguirmos parar para entender o que a estrada está nos dizendo?

São tantos “mas e se” que eu me canso.

Vou pro meu sossego.

Insetos

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Achei interessante alguns comentários que fizeram acerca do poema Estrado, postado há uns dias atrás aqui, mais especificamente sobre o verso:

Segue enquanto espera um raio, uma garrafa,

Uma pedra, qualquer coisa mais impossível

Que lhe caia sobre a cabeça sensível

E lhe destrua o amanhã que lh`estafa.

Há tempos está nos meus post its a ideia de um texto que parece ter amadurecido agora. Na verdade, tudo iniciou numa epifania há meses atrás quando vi um inseto se afogando, ou foi um besouro de barriga para cima sem conseguir se virar, um foi o fato e o outro a lembrança, só não lembro qual foi qual (o que também não vem ao caso).

Fiquei pensando o quanto um inseto numa situação dessas precisa/pede a nossa ajuda, nesse momento de agonia e aflição, de desesperadora impotência. Nós temos o poder de, com um simples movimento, devolver a possibilidade de vida ao inseto.

Na verdade, nós somos esses mesmos insetinhos, se debatendo pra lá e pra cá nessa arena gigantesca que é a nossa vida. Seguidamente nos percebemos em situações desesperadoras, ou apenas aflitivas, em que nossos pensamentos parecem circulares, pesados grilhões que nos forçam a permanecer parados mesmo em frenesi.

Aí entra a ideia do raio caindo sobre nós, nos tirando o insustentável peso do poder da escolha, a maldição do livre arbítrio. É reconfortante a possibilidade de entregar nosso destino a algo que está além da nossa compreensão, como se estendêssemos nossa vida de presente, segurando-a com as duas mãos em concha, carinhosamente, e dizendo “tome conta por mim, aja e decida por mim, pois eu não tenho forças”.

Esse é o papel da ideia de deus nas várias vidas que já vi passando pela minha. Vejo, com estes olhos quase cansados de tanta besteira, o quanto nos sentimos dispostos a entregar nosso poder de escolha como quem se livra dum fardo terrível. Deus, ou como quiser chamar, é o encarregado de recolher isso tudo e, de alguma forma, nos condicionar a não mais escolher e aceitar o que acontece.

Podemos chamar isso de Vontade de Impotência, já que sou um plagiador convicto do Nietzsche, me sinto no direito de inverter sua filosofia também.

Sim, temos a Vontade de Impotência!

Não queremos ser fortes, não queremos poder escolher e agir, não queremos essa responsabilidade sobre nossa própria vida, sobre a vida dos que nos cercam. Não queremos esse poder nesse emaranhados de vidas que se tocam e se batem, nessa teia indecifrável.

Queremos a paz da impotência, o sossego da não-escolha. Queremos sentar na poltrona enquanto a tempestade cai lá fora e dizer: “deus quis assim”.

E nós não mexemos um dedo pra ajudar o insetinho quase morrendo. E não nos estendem uma mão divina para nos tirar a aflição do desencontro com o entendimento de que somos fortes o suficiente para carregar muitos outros fardos.

MGMT – Congratulations

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Novo videoclipe da banda MGMT.

Simples e ótimo.

“I’d rather dissolve than have you ignore me”

Estrado

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Ela sorri enquanto carrega a maior das dores

Num peito de fibra desfeita como papel molhado;

Cambaleia por dentro, mas segue pelo estrado

Andando firme, reta, entre medos desanimadores.

Segue enquanto espera um raio, uma garrafa,

Uma pedra, qualquer coisa mais impossível

Que lhe caia sobre a cabeça sensível

E lhe destrua o amanhã que lh`estafa.

Mas caminhar de cabeça erguida é uma arte,

Não se pode desatentar do sorriso falso

Enquanto os outros lhe olham o passo:

Pode lhe cair a dignidade e não outra parte.

Tempo e mudança

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A incrível arte da mudança. Isso tinha me passado milhares e milhares de vezes pela cabeça, mas jamais fui apto a assumir uma mudança pequena.

É estranho pra mim dizer que tenho medo de mudanças, é estranho dizer que não mudei minha rotina, meus ambientes, minha músicas, et Cetera, nos últimos anos. É estranho porque eu mudei demais.

Passei de um adolescente muito vivo e corajoso a um adulto enfastiado e envelhecido por dentro num piscar de olhos. Quando olho pra o que fui há uns anos atrás eu vejo uma alma enrugada, seca, com cheiro de poltrona e pus.

Com certo esforço, estanquei o sangue, limpei a ferida e ganhei uma batalha determinante para o que seria a minha vida.

Mudei de cidade, mudei de ares, mudei de cotidiano, mudei de área de atuação. Só não mudei de sexo porque gosto muito de ser homem.

Quando essa nova verdade estava começando a me matar novamente, quando eu estava voltando a ser uma alma enrugada, ergui a mão e pedi atenção, fiz gato e sapato e dei um jeito de realizar minha vontade.

Hoje sou muito mais correto comigo mesmo. Desprovido de moralidade e de ética. Sou casto comigo mesmo, sou puro na minha vontade, e pela primeira vez nos últimos sete ou oito anos isso significou parar de escrever.

Fiquei duas semanas sem escrever uma só palavra para meu site. Sem mexer com nenhum dos meus projetos de contos e romances. Pensei em várias poesias, que me escapavam tão rápido quanto tinham vindo.

Essa fugacidade das palavras, essa forma passageira com que belas poesias me passavam pela cabeça como se não fossem minhas parece com a vida, parece com um floco de neve.

Fiquei maravilhado com a emoção das pessoas quando viram a neve esse ano. É um fenômenos da natureza, simples, bonito e só. Mas por que tanto alarde? Fiquei me perguntando isso e só consegui encontrar uma coisa que me convenceu disso tudo. A efemeridade.

A neve é linda porque não podemos guardá-la, porque não a temos por muito tempo. Ela cai, fica no chão por algum tempo relativamente curto e se vai como se não estivesse nunca estado ali. Em países mais frios ela continua sendo bonita, mas não passa disso, e quando passa se torna pesadelo para a economia e a saúde.

Somos apaixonados por coisas que passam, por coisas que não podemos segurar na mão, coisas que quando agarramos se tornam fluidas e escorrem, deixam o cheiro e o calor nas mãos, mas num instante se foram.

Somos apaixonados pelo tempo e temos tanto medo de nos percebermos apaixonados que continuamos a vida sempre caminhando de costas para a filha do tempo, a morte.

Não foi em vão que Cronos foi o titã supremo dos gregos.

Ah, e antes que me perguntem: não sei se estou realmente de volta. Só vou escrever por epifanias, só por inspiração. E quem me conhece sabe que até Dilma poderia ser inspiradora, não fosse tão sombra.

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