Christian  Silveira

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Posts by Christian Silveira

Cinzeiro

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Sacode a poeira como se fosse um cinzeiro

Lança as cinzas só para dar espaço a outras mais

Mais frias, mais secas, mais tristes…

.

Deixa que lhe descartem os restos

Apaga a última chama do que lhe trouxe prazer

É um fim em si e isso é tudo, um semprefim

.

Apóia o passado apagado

Carrega em si os lábios que tocaram as sobras

Tem o gosto da ressaca de um mundo cinza

Dá gosto à ressaca da alma que lhe toca

.

E permanece assim, guardando as cinzas por necessidade

Coleciona cada boca amarga que lhe toca

Como um cigarro de prostituta

O que somos no universo

2

Não recordo qual físico disse uma frase que, antes de eu a conhecer, eu já pensava nela: estudar o universo nos ensina humildade. Tá, não era bem assim a frase, mas o sentido é esse.

Há uns dias atrás li uma matéria sobre o que seria o universo pré-big bang ( http://super.abril.com.br/universo/havia-antes-big-bang-598331.shtml ). São quase abstrações paradoxais bastante difíceis de serem compreendidas pela mente. Na verdade, acredito que entender o universo e sua história pré-existencial é justamente conformar-se em não entender. Isso vai além da nossa capacidade.

Uma teoria interessante que estava nessa matéria é a de que o Universo poderia seguir uma linha mais ou menos como a de Darwin para a vida no planeta. Algo como reprodução de universos, como se os buracos negros, que não nos permitem ter ideia do que há dentro deles, fossem outros universos criados à partir deste, e dentro deles poderiam haver outras crias.

Então, se somos um grãozinho numa escala planetária, quer dizer, em relação ao planeta Terra, que é muito menor do que o sol que, por sua vez, é muito, mas muito mesmo, menor que a estrela VY Canis Majoris, quer dizer que somos o que?

Bom, não sei bem o que posso dizer que somos, tenho a mania de dizer que somos nada e muitos iriam me xingar por isso. Mas se não somos uma poeirinha, se representamos algo dentro desse universo, representamos pouquíssimo.

Se é assim, o que nossos problemas representam para o mundo? O que deus tem a ver com o prazo que você perdeu? Com os quilos que você ganhou? Com o café que você derramou no livro? O que diabos (whatahell!!!) isso significa? Nada. Ou melhor, NADA!

Quando alguém me diz que deus castiga, que pagamos por nosso pecados, eu tenho um pensamento: se ele é tão grande e pai, porque seria tão ruim conosco a ponto de nos colocar nos círculos infernais que o poeta Dante Alighieri deu uma leve explicadinha (hey, ironia, ok?)? Por acaso um pai condena um filho à vida inteira de penitência porque ele quebrou o vaso de porcelana chinesa jogando bola dentro de casa?

Se esse pensamento não é o suficiente para entender o que são essas amenidades humanos diante de um ser que, acredita-se, ser superior e criador do universo, obedeçamos a escala do vídeo. Logo, deixamos de ser um filho de um pai muito superior e passamos a ser uma poeirinha que passa quase perto do nariz dele, talvez nem isso.

E agora, o que representamos no universo? O que nossa ressaca tem a ver com isso? O que aquele pão com nutella que caiu virado para baixo significa para o universo? Nada, a não ser para nós em nossa insignificância pretensiosa e mimada.

Quando mudamos de escala de pensamento, vamos aprendendo a ter humildade diante do universo. Isso é um processo lento e doloroso, mas gratificante.

Um deserto

1

Tem um modo de chover diferente;

É seco, semi-árido, no que vejo,

Em cada gesto ensaiado o ensejo

De parecer permanecer indiferente.

.

Não diz nada, cala como fosse eterno,

Quando fala não fala o que quer falar;

Corre os dedos pelas palavras, sem ar,

Escolhe uma a uma, um par,

E anota em um caderno.

.

Possui mundos que colidem em rotas confusas,

Que explodem em luzes soturnas,

Mostrando profundezas absurdas.

.

Naquele abismo, tudo é uma ofensa absurda,

Tal recôndito esquecido pela razão,

Lá chove, escorrem oceanos de lágrimas

Que pesam ao semi-árido lá fora.

.

E outro mundo colide.

Mundos ideais

3

Todos nós idealizamos uma espécie de mundo ideal, não um lugar dos sonhos, ainda que um sonho represente perfeitamente bem aquilo que, teoricamente, queremos.

Passamos dias, meses, anos imaginando, detalhando, aprimorando e destruindo um lugar que nos parece ser perfeito, uma situação queria o máximo da possível a uma vida experimentar nessa encarnação e um estado de espírito perfeito, harmonicamente dinâmico.

Pois é justamente aí que reside o principal e mais real (e, provavelmente o mais terrível) erro: o estado de espírito, a disposição anímica.

Se prestarmos atenção, são incontáveis as vezes em que o ideal se apresenta na nossa frente, nos dá a mão e nos convida para um passeio. Está tudo perfeito, tudo ótimo, e a vida é só café, flores, sol e amor.

Isso acontece repetidas vezes, muito mais do que somos capazes de avaliar e entender, simplesmente acontece e nós deixamos passar. Ou ficamos assistindo, ou deixamos escapar por desleixo, ou ainda, largamos da mão do perfeito e vamos em busca de outra coisa.

Nosso estado de espírito é como as cinzas de um cigarro fumado no sétimo andar em um dia de vento: saem voando sem rumo certo, e vão se despedaçando, virando partículas cada vez menores até que deixamos de enxergar.

O vento rasgou o dia e levou as cinzas.

A vida rasgou nossa força e levou nossa constância, somos espíritos inconstantes e medrosos, e é por isso que há a necessidade de construir um novo mundo ideal toda vez que outro, que já não serve mais, é destruído ou alcançado.

Não é a insatisfação que nos move, é o medo.

Viver de café e flores, sol e sexo, rock and roll e risos.

Os mundos platônicos vêm e vão, mas a nossa maior habilidade é ser constante em nossa inconstância. Mudar, mudar e mudar e nunca mudar de verdade.

Releitura

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Tá, eu elogiei bastante esses dias dois best-sellers aqui no blog.

Ta, eu sei que daqui um tempo eles deixarão de ser best-sellers e poderão ser lidos e criticados com mais imparcialidade.

Não quero desdizer o que disse, não quero me retratar. Aliás, reitero, A Menina Que Roubava Livros e O Guardião de Memórias são dois livros excelentes.

No entanto, sinto falta de um livro intenso do lado de dentro, que nos pegue pela alma. Que pegue nossa alma como quem pega um pano sujo do chão e vai lavando, e vai mostrando de que que é cada mancha que está sendo retirada e vá além, que nos mostre a água suja no balde e diga “viu só tudo que saiu”, só não diz um “e ainda tem mais” por ser orgulhoso de si mesmo, o livro.

Sinto falta de nunca ter lido Demian, Sidharta e O Lobo da Estepe do Hermann Hesse, de nunca ter lido A Insustentável Leveza do Ser e A Brincadeira do Milan Kundera, de nunca ter lido Assim Falou Zaratustra do Nietzsche. Sinto muita falta de quando não tinha lido esses e muitos outros livros bons (que nos pegam pela alma).

Sinto falta de quando eram alheio a essas palavras porque eu podia lê-las como quem lê a si mesmo pela primeira vez, como quem tem uma janela aberta para o horizonte pela primeira vez, como quem acorda de um sonho… pela primeira vez.

Ter o inédito em nossas vidas é tão valioso que se torna, ao menos para mim, insustentável seguir sem buscar uma coisa nova. Por isso não sossego com autores e bandas, vou fuçando até encontrar algo novo e bom.

Vou me tornando um poço de cultura inútil pra minha área de atuação profissional, mas não tem muita importância, isso é m hobby, é por prazer (ou por amor?).

Porém, sinto falta de nunca ter lido esses livros supracitados, acima de tudo (creio eu), por ter sido ignorante sobre as sujeiras do pano.

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