Christian  Silveira

Christian Silveira

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Posts by Christian Silveira

doravante

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Poderia me brotar um entusiasmo,
Que seja de medo ou de desespero,
Mas espero que seja inteiro
E arranque esse marasmo.

Pois se, em mim, crescer vida,
Poderia deixar estas montanhas,
Ser feliz lá nas campanhas,
Da minha saudade adormecida.

Ah, eu mexeria meus dedos,
Minhas pernas, mãos e vontade,
Acordaria ao mundo, de verdade,
Olhar-me-iam, doravante, ledos.

Se me germinasse algum alento,
Cravar-me-ia em fértil chão,
Fazendo do meu ser, cada quinhão,
Astrológico e cartesiano contento.

vela

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Ai, e a chama não se alimenta,
Caminha para um fim certo,
Para as fendas que o tempo tem aberto.
- E seu calor nem mais se sustenta.

Ora, como não me deixar morrer,
Se a pira vai abrandando ao nada?
Torna-se ínfima, nesta noite gelada.
- Abafo o vento tentando arder.

Mas se a brisa leve não apaga,
Vem temporal, e o que espero?
Sou vela em dia de desespero:
Meu calor não queima, afaga.

O que esperar desse venusiano
Que nasceu no entardecer?
No ocaso belo me vi ser
O crepúsculo firmado no oceano.

pedia pedras

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Roí, pela última vez, meu pedaço de seda
Já não me adiantava mais ruminar o que fora macio
Os trapos que restaram eram desbotados e fedorentos
E eu os punha na boca com vontade de veneno
Agora, tentando jogar fora esse remendo
Vi-me, de novo, remoendo, por não querer sair
Percebi-me sem apoio, e na seda me agarrei
Era que eu caía e ela desfiava
Sabia do que viria, mas adiava
Não havia chão sob os pés, era abismo
Segurava a ela como um fiel ao seu deus
Idolatrava
Afável
Sangrava as mãos naquele empuxo
E a iminência do tombo se crescia sobre mim
Aquela sombra sobeja sobrepujava-me
Então, roí, pela última vez, meu pedaço de seda
E me larguei ao abismo
Se era veneno que eu queria, conquistei o da queda .

na fila do pão

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Então, sei lá, acho que travei
Em algum lugar
E não consigo escapar
Não consigo sair para ver o novo
Aceitar o que a vida me traz
Sei lá, travei em algum lugar do passado
Talvez
No futuro
Quem sabe
Num que há de vir
Ou nem virá
Sei que travei
Primeiro participei do desfile
Depois eu coordenei
Agora eu só assisto
Tudo bem que de camarote
Mas eu só assisto

mas esquece

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Disseste-me: é só dor
E uma ilusão suficientemente grande para me iluminar um sorriso
Ah, enquanto estava em teus braços, iludido em tua bênção, não havia dor
Eram-me os dias nuvens brancas, passando rápidas pelo céu
Mal terminava o dia e eu já te queria, não dormia, pois era só saudade
Respirava tua pele em todo lugar
E qualquer espaço era tua falta, uma saudade infinita, incessante, inquietante
E no reencontro, o júbilo máximo, era minha vida toda ali contida
Disseste a mim que era só dor, e hoje entendo
És dor.

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