Christian  Silveira

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Posts by Christian Silveira

Há um buraco

1

Da minha sacada eu vejo a rua

Há um buraco no asfalto

Todas as noites os carros passam por ali

E eu ouço o barulho dos pneus passando pelo buraco

E eu vejo as luzes indo e vindo

E isso tudo me faz companhia

Pois há um buraco…

Ainda sobre o fetiche por pés

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Engraçado, o texto que escrevi ano passado no Descompassado sobre fetiche por pés sempre me rendeu muita trollagem, xingamentos e, no entanto, por muito tempo foi meu texto mais lido.

Contudo, o último comentário que fizeram sobre ele realmente me fez pensar um pouco, e me sinto obrigado a dizer que já não sustento mais a mesma opinião pueril daquela forma que fiz no texto. Quer dizer, pés femininos continuam sendo irrelevantes pra mim, prefiro olhos, bocas, seios e pernas, mas é aquela história, cada um com seu cada qual, não acho mais o absurdo que achava gostar tanto de pés.

Encarem isso como uma retratação humilde.

E introspectiva.

Introspectiva. No mesmo comentário, o leitor fala que “sempre gostou dos meus textos” mas aquele era ridículo e estragava muito do que eu já tinha feito. Exato! Reitero, não deveríamos carregar para sempre o estigma de palavras ditas há tempos, por isso digo que aquela opinião já se foi, não é mais minha nem eu sou dela, simples assim.

(Leia: http://descompassado.com/o-peso-do-passado/)

É interessante o quanto uma nota errada pode desconstruir toda melodia, tirar tudo do ritmo e do tom. Posso ter escrito cem textos bons (e não to dizendo que fiz isso), mas basta ter um ruim nestes tantos (pior ainda se esse ruim for justamente o único lido) para que todo o empenho, talento ou sei lá o que, sejam afogados numa privada de um banheiro de beira de estrada, assim, sem dignidade nenhuma.

Falando em dignidade, temos uma peculiaridade nesse nosso sistema cultural muito diferente do que dizemos ser bonito e bom. Retratar-se em público, mudar de opinião (não superficialmente), investigar-se e se descobrir diferente do que era há um, dois, dez anos atrás parece uma heresia, um pecado; como se o homem que pedisse desculpas ou se arrependesse perdesse toda a sua virilidade no mesmo instante.

Estamos cercados de exemplos de orgulho, de soberba, de pessoas que se vangloriam por sua teimosia insensata, a que chamam de caráter e persistência. Não, seguir burro não é ter caráter e persistência.

A única fidelidade que se deve ter é a si mesmo, todo o resto é teimosia descartável.

E, afinal, pés não podem ser tão ruins assim, não é? Deve ter sido algum trauma na minha psique sendo exorcizado de maneira indecorosa naquele texto, algum psicólogo deve saber explicar. Mas enquanto não me explicam, fica aqui meu retratamento para com os que se sentiram ofendidos e para os pés, coitados, que, como diria o ratinho do Castelo Rá-tim-bum, nos agüentam o dia inteiro.

Inocência e liberdade (ou lentilha de ano novo)

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Hoje tive vontade de comer lentilha. Tá, e daí?

Não, não foi um desejo por lentilha assim, simples e despretensioso, foi um desejo impregnado de um saudosismo quase infundado. Eu tive vontade de comer lentilha de ano novo, porque ela representa na minha vida, depois de tantas repetições, um momento estranho com a minha família, um momento em que todos acabam sendo mais “flor da pele”, tiram um pouquinho o coração do peito e mostram que ele tem lágrimas escondidas, acumuladas, que ele é de manteiga e que tudo pode ser tão maravilhosamente triste, ainda assim, num paradoxo fabuloso, belo e alegre.

Eu sempre tive pavor de ano novo e natal, dessas festas de fim de ano, cheias de gente, comida e risadas… parecia que eu nunca fora feito para isso.

Desde criança eu passava a tarde fora de casa, não participava dos preparativos, à noite ficava no quarto lendo, se possível com a luz apagada, iluminado apenas por uma luminária ao lado da cama. Socializava com o resto do pessoal apenas quando estritamente necessário, ou seja, momentos antes da janta e o mínimo depois.

Amo minha família, adoro estar com eles, mas é que pra mim esse negócio de natal e ano novo nunca fez muito sentido, só depois de um tempo passou a ter o significado de festa e feriado, nada além disso, pra mim (leia-se bebedeira, risadas e ressaca).

Fiquei sem entender bem porque senti esse desejo de lentilha, essa vontade de ano novo, porque a sensação que me veio não foi a de querer esse ano novo de hoje, com muita champagne, vodka e whisky, mas sim aquele da luminária, dos livros do Paulo Coelho, de passar a tarde jogando tênis e à noite, sem álcool nem internet, dormir.

Não quero ser precipitado, mas acho que eu fui muito mais maduro quando era criança e pré-adolescente. Eu não vivia em busca de prazer e risos, tudo bem que eu não era muito expansivo, era um tanto tímido, contudo, eu estava muito mais próximo do Princípio de Realidade.

Tudo muda com o tempo, nos tornamos homens e mulheres mais funcionais, dinâmicos, no entanto, pessoas mais pesadas, mais viscosas, vamos escorrendo pela vida e nos apegando a coisas, sentimentos e sensações e acabamos esquecendo como é ser livre, de verdade, como uma criança.

Na verdade, para tornar a ser livre, apenas recuperando a inocência, por isso a ingenuidade e a falta de memória pode até ser algo bom.

Penso que esse desejo de lentilha foi além de uma vontade de ano novo, passou pelos campos da adolescência, ficou olhando pra liberdade pintada em algum retrato por aí e sentindo falta daquela inocente liberdade ou livre inocência.

Alva

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Tinha os olhos miúdos, pequenos e belos, duas esferas negras contrastando, monocromaticamente, com aquela pele tão alva. As bochechas levemente rosadas revelavam, ao se moverem, um sorriso encantador, era ali que aqueles olhos se fechavam ainda mais, apenas uma leve luz escapava daquela gravitação que atraía.

A primeira vez que abriu a boca para lhe falar qualquer coisa, ele ouviu aquela voz suave, com um rouco, como se arrastasse uma garrafa de malbec por sobre a mesa, estendendo-lhe uma taça. Qualquer coisa, não lembrava o que ela havia lhe dito, ao certo, fora algo com muita timidez, demasiadamente sucinta, a garota dos olhos pequenos.

Ele tentava entender o que acontecia atrás daquele sorriso, que revelava uma espontânea timidez e uma tímida espontaneidade, que mostrava uma coisa, mas escondia outras mais. Cada palavra que dizia lançava luz à mais tantas, uma frase significava um livro. Ele se afogava naquela história que ela ainda não lhe contara, mas que já lhe servia tão bem.

Ele tentava entender o que havia naquela cabeça.

Queria saber o que tinha sob aquela pele, alva, suave, de cheiros não definidos, que oscilam ora entre os melhores que já sentira, ora entre os mais deliciosos que poderia sentir. Era barroca só por vaidade, permitia-se mudar, pois era assim, uma nuvem que se movia com beleza e brancura, com o direito mais íntimo variar entre o ótimo e o excelente.

Ele a tocou em um dia de calor, ele a sentiu em uma noite longa e ele a soltou numa manhã triste. Naquele dia o sorriso fez o sonho, de olhos miúdos, que cheirava a volúpias doces e tímidas, de bochechas rosadas que não podiam sentir culpa nem medo, estavam acima daquela vaidade que o ser humano tem em inventar ética e moralidade.

Ela vivia como uma nuvem e ele fez daquela nuvem solta e liberta um sonho para quando acordasse triste pudesse dormir de novo, contando cada pêlo que surgia daquela pele como um tesouro. Era rico, milionário, e só tinha ela, ou a lembrança dela, e um perfume fixo nos lençóis.

A noite e a náusea

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Quando ele saiu da cama e começou a colocar a cueca ela já se sentia suja. Olhava para aquele corpo de cheiro forte que se levantara e agora vestia a calça, olhando para ela de maneira satisfeita, com um sorriso no canto da boca; aqueles olhos denotando uma malícia que ela achava hilariamente repugnante, como um cachorro mordendo seu osso, tudo tão ralo e superficial, só instinto e ignorância.

Ele sentou-se ao lado dela e, antes de se curvar para colocar as meias e os tênis, fez um carinho em seus cabelos. Ela retribuiu com um sorriso, uma atriz perfeita, escondia com maestria a ânsia de se ver sozinha, livre daquela presença masculina, fingiu querer que ele ficasse, mas cuidando para ser defensiva, de forma que ele não aceitasse a pequena oferta.

- Desculpe, mas tenho que ir. Obrigado pela noite.

Ele se referia ao sexo divertido e prazeroso. Ela era boa de cama, ela sabia disso, escolhia suas presas de uma forma muito particular, e sempre experimentava o que queria, quando queria. Ele correspondeu ao que ela esperava, e só, nada mais. Isso de não ir além, de ser só o esperado, decepcionava-a, cada vez mais essa inaptidão de sentimentos e satisfação ia cansando.

O cheiro pesado de suor de homem manchava seus lençóis, ela se continha para não tirá-los da cama e atirá-los longe enquanto ele estava ali. Ela era um sorriso simples e fingido, uma pureza de prazer dissimuladamente satisfeito.

O que lhe causava mais asco era impreciso, cheiro, suor, humores, sorrisos fingidos ou sua própria alma. Não poderia escolher, não poderia arrolar tudo. Era nojo de si mesma e do mundo.

Entra e sai, gemidos, líquidos, palavras, gozos ou interpretações. Era sempre igual, a mesma sensação, a mesma doença e a mesma náusea.

Ele vestiu a camiseta e ela se levantou e pôs uma camisola para ir abrir-lhe a porta, controlava-se para não mostrar a pressa. O mesmo tchau, o mesmo beijo, o mesmo “amanhã nos falamos”.

Ela se perguntava sobre quando conheceria aquele homem que mereça ser chamado de homem. Queria saber quando pararia de abrir a porta e as pernas para esse tipo de adulto fazendo hora extra na adolescência.

Assim que fechou a porta foi tomar um banho, demorado, cheio de sabonetes, xampus, cremes e prantos. Sentada, sentindo a água morna escorrer em seus cabelos, deslizar sobre sua pele, ela chorava, soluçava, sentia-se muito suja. A água levava uma sujeira viscosa e invisível, choro sublimava aquela podridão, mas havia, em algum lugar dentro dela, uma fonte inesgotável de dor asquerosa.

Queria sentir-se digna do colo de seus pais de novo, queria conforto do lar. Queria ser algo que não era mais. Sentiria mais saudade do que nunca fora e seguiria com sua doença, continuaria lavando sua sujeira e madrugadas imundas.

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