Christian Silveira
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Posts by Christian Silveira
te destruir
2Quero te machucar, antes de tudo;
Quebrar, do teu ser, cada pedaço;
Arruinar tua consciência, um andaço;
Desmoronar teu ego, esse campanudo.
Acabar com tudo aquilo que pensas ser
Teu Eu, teu âmago, quase intocado;
Aí eu te terei destruída, ao meu lado,
Sem nada que possa te prender.
Nua e terminada, em minha cama,
Terás uma vida que não imaginavas;
Incompleta verás que estavas,
E te enganavas por tanto drama.
Ignorância I
2Vim jantar com a minha esposa neste restaurante porque me disseram que ele era excelente, e também porque nesta semana ele saiu na revista como um dos dez mais importantes de São Paulo. O ambiente me faz ter a sensação de estar na itália, as cores, os cheiros, as mesas, as cadeiras, enfim, tudo.
Tudo, exceto esse negro na outra mesa. Vim para esse restaurante pensado que estaria em um ambiente seleto, com pessoas distintas, e agora me deparo com esse negro. Talvez eu toleraria sua presença se ele fosse um garçom. Não. Poderia, quem sabe, tolerá-lo se ele fosse servente, se ele apenas se limitasse a limpar o chão da cozinha, e ficasse bem longe dos meus olhos.
Agora estou aqui, sentado nessa mesa, com um vinho caríssimo aberto e duas taças cheias, a minha e a da minha mulher, um Malbec, português; aliás, garanto que em Portugal não existem negros na produção de vinhos, o vinho que tomo é um vinho cem por cento confiável. Os pratos ao lado das taças são brancos, é claro, assim pode-se enxergar a sujeira (preta) e limpá-la com facilidade.
Com o canto do meu olho direito consigo ter o negro no meu campo de visão, e nem preciso virar muito os olhos ou o pescoço, vejo sua cor enquanto converso com minha mulher que, claramente, também está incomodada. Sinto o cheiro forte de negro, ouço a voz grotesca, tudo nele me desperta os sentidos de um jeito asqueroso.
Penso uma, duas, três vezes em chamar o garçom para que nos mude de mesa; melhor, poderia pedir para que retirasse aquela escória do restaurante. Quanta ousadia, um crioulo entrar num restaurante desses, querendo se juntar a pessoas como eu e minha esposa, isso é ultrajante.
Minha esposa está com espasmos no olho esquerdo, o mesmo lado que está virado para a mesa do negro, o nariz dela está com uma expressão de asco, e eu sinto que preciso fazer algo. Sorvo quase todo o vinho que está servido num gole só.
Chamo o garçom e peço para que nos mude de mesa, peço para que nos coloque na ala dos fumantes, afinal, quero fumar mesmo. Isso parece ter aliviado minha esposa. Enquanto caminhamos para a nova mesa, passo ao lado do crioulo, sinto uma imensa vontade de socá-lo, ali mesmo, eu em pé e ele sentado, como deveria ser, até ele deitar no chão sem forças para revidar. Assim tem que ser. Eu cruzo encarando aquele chimpanzé e desisto da idéia de espancá-lo, não vale a pena uma situação dessas.
Na ala de fumantes eu acendo meu charuto para fumar enquanto tomamos o vinho e esperamos o pedido de janta. Fiquei de frente para o negro, daqui ele me olha diretamente nos olhos, coisa que, diga-se de passagem, o faz frequentemente. Minha esposa percebe que minha inquietação aumenta, e meus olhares são constantemente direcionados àquela mesa do casal de negros.
Apago o charuto antes de chegar na metade e a convido para sairmos. Nunca mais retornarei àquele restaurante, digo a mim mesmo. Nunca mais voltarei a este restaurante, disse ao atendente na hora de acertar a conta do vinho e da janta que, mesmo sem comer, pagamos; e ele ficou sem reação quando disse isso, não sei se está imaginando minhas razões, mas deveria saber, eu não devo precisar explicar que arianos puros não querem a presença destes estúpidos negros no mesmo recinto. Maldita aquela que terminou com a escravidão, malditos revolucionários, humanistas, igualitários. Como querer igualdade para todos quando sabemos que, obviamente, não somos iguais?
Onde já se viu, um restaurante desses permitir a entrada de negros. Deveria ser retirado da lista dos dez mais de São Paulo.
Onde já se viu um negro querendo frequentar o mesmo lugar que nós, brancos.
Parte Oitava – Interlúdio
3Chegamos no templo naquele dia, completamente vazio o lugar, completamente vazia minha alma, esta, porém, não de uma forma triste ou melancólica, era um vazio racional, mais para a compreensão, mais para a presença de tudo em vez do nada.
Acreditava-me em plena aventura agora, oscilando entre humores e pensamentos contraditórios, quase excludentes.
Enquanto caminhávamos pela entrada de chão batido, cercada por uma grama extremamente verde, eu lançava olhares superficiais para as folhas que me foram entregues. E foi nessa distração proposital que paramos em frente a uma cabana. Em pé, na frente da porta, estava um senhor de uns cinquenta anos, com barba por fazer há mais de uma semana e cabelos compridos, ruivos, presos. O homem tinha cerca de um metro e oitenta de altura, tinha aparência vigorosa e sorridente.
A Bê percebeu a presença dele antes de mim, e já se adiantou em direção a ele, que a cumprimentou calorosamente: certamente sabia da nossa visita. Eu cheguei logo em seguida para cumprimentá-lo. Ele falava um portunhol forçoso, tinha sotaque de britânico nos seus erres e vogais.
Ali, naquele momento único, eu percebi onde tudo se ligava. Das raízes de Thelema, do instrutor ao discípulo, eu acabara de ser enviado para a cidade das minhas mais íntimas pretensões, ali encontraria o triunfo sobre meus anseios ou a desistência mais inexorável.
- Como tu cresceste, Daniel, lembro-me de quanto íamos na tua casa, nas festas de final de ano, eu e minha esposa. Seus pais nos eram muito amigos antes de se mudarem, e eu enxergava, desde o dia em que reparaste na minha aura, que tu tomarias tal caminho.
- Então você conhece meus pais? Mas eu não lembro de você, nem da sua esposa. Disse isso meio desconfiado, tentando disfarçar o receio da minha voz, com insucesso.
- A Marta conheceu tua mãe quando foi fazer a matrícula do nosso filho no colégio, tua mãe estava lá fazendo a tua. Uns dias depois eu conheci teu pai em uma reunião, logo ficamos chegados, e eu sabia que não era coincidência, na época não soube avaliar minha responsabilidade nessa empresa, mas hoje consigo enxergar.
Olhou-me com olhos de alegria, olhou para a Bê logo em seguida.
Eu me senti estranhamente em casa, despido de coisas desnecessárias que há tempos vinha carregando, era o vazio mais profundo e completo que poderia experimentar, lembrei da história do monge que “acordara” para o mundo espiritual quando recebera um tapa de seu mestre, como as coisas podiam ser simples e corriqueiras, tanto que, normalmente, nas confusões da nossa rotina, passam por nós desapercebidas.
Convidou-nos para entrar antes de nos apresentar o lugar, nos ofereceu chá e alguns biscoitos. Ele percebeu meu olhar de curiosidade para o salame pendurado ao lado da geladeira. Eles tinham luz lá, e ele me explicou que nem todos eram vegetarianos, santos, monges, budistas, algumas pessoas simplesmente passavam alguns dias de descanso por lá, assim como nós.
Enquanto colocava um tênis, falou, como quem comenta fatos diários, que eu deveria decorar algumas passagens dos papéis que me foram entregues, também foi sucinto ao citar as práticas que deveriam ser realizadas, impreterivelmente, ao nascer do sol, ao meio-dia, ao pôr-do-sol e à meia-noite, a prática constava no Liber Resh vel Helios, e que em uma semana eu deveria receber o próximo grau da ordem em uma cerimônia mágicka.
Eu lembro daquela semana como a mais viva de todas que tive até hoje, a mais cheia de cores e de sons, de cheiros e de sensações, e a perfeição disso tudo se misturava às obrigações mágicas e aos deveres domésticos daquela parte do templo. Tudo era um imenso ritual, cheio de significado por todos os lados.
O transe de uma situação muito bem preparada é terrivelmente superior ao transe obtido por acaso numa exaltação momentânea do espírito. Nunca terei subtraído de mim as visões e vozes daquela noite, minha consciência superlativa, um poder quase sobrenatural, e minhas noites jamais tiveram o mesmo gosto de intervalo, de morte.
Continuo sem coragem de comentar sobre essa viagem com qualquer pessoa que não seja a Bê, nem mesmo perguntei aos meus pais acerca do britânico Alexander, casa com a brasileira Marta, contudo, às vezes me parece que eles sabem de tudo, às vezes me parece que muitas outras pessoas sabem, e penso que estou constantemente sendo vigiado e preparado para uma prova maior.
[Veja também: Válvula de Escape]
Caça-bilhetes II
3Tinha os olhos prontos para a desgraça
E tinha as asas abertas para o vôo ao abismo
Era crônico em pensar no infinito
Era uma só hora o tempo todo, a hora que desistia
Possuía o dom do contrário, era não nas afirmativas, era sim nas negativas
Era um adjetivo deslocado, o mais ímpio dos insensatos
Era um substantivo tresloucado, o mais infame dos descabidos
Tinha a boca e os ouvidos cheios de preguiça
Afundado
Infundado
Um trem desviado
Tinha os olhos vermelhos
Prontos pra desgraça