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	<title>Descompassado &#187; Christian  Silveira</title>
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		<title>Di&#225;logo I</title>
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		<pubDate>Sun, 02 Oct 2011 21:08:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Christian  Silveira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Minicontos]]></category>
		<category><![CDATA[alma]]></category>
		<category><![CDATA[auto-conhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[filosofia]]></category>
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		<category><![CDATA[universo]]></category>

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<p style="text-align: center;">                <img class="aligncenter" src="http://2.bp.blogspot.com/-IvyxgAJ-mNU/TadPYqN3CQI/AAAAAAAAADo/PntedngL6iE/s1600/Atlas.jpg" alt="" width="475" height="608" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Era de lembran&ccedil;as vazias que vivia. Aquela noite ele quis d&aacute;-las de presente. Era tudo o que possu&iacute;a de verdade, seus bens mais preciosos, e oferec&ecirc;-las era abrir sua alma de forma que n&atilde;o poderia voltar atr&aacute;s; era tudo que podia dar e, ainda que pensasse que aquilo, de fato, era um ato de doa&ccedil;&atilde;o, que era presente&aacute;-la com seu &acirc;mago, atirando-se num abismo de lembran&ccedil;as, era ele mesmo quem se presenteava.</p>
<p>Aconteceu que no dia do seu anivers&aacute;rio eles jantaram juntos e, ap&oacute;s a janta, sentados na sacada que dava para a rua onde, vez ou outra, um carro passava interrompendo o tom suave de confid&ecirc;ncia da conversa e a lua despontava minguando entre dois pr&eacute;dios altos, ele lhe contou coisas que permaneciam enterradas, coisas que s&oacute; ousava remexer sozinho mas que, n&atilde;o obstante, faziam parte de suas noites de ins&ocirc;nia, t&atilde;o freq&uuml;entes quanto os dias de vento norte.</p>
<p><em>Engole isso, acalme-se, </em>dizia de si para si, diariamente. Todos lidam com seus dem&ocirc;nios internos. <em>Acalme-se!</em> <em>N&atilde;o alimente com sangue quente essas bestas!</em></p>
<p>Era do qu&atilde;o humano era e o quanto se sentia pequeno e impotente diante da sua alma t&atilde;o universal, por&eacute;m, t&atilde;o alquebrada, que falava. Cada constela&ccedil;&atilde;o era uma cicatriz no seu &iacute;ntimo; as estrelas, os pontos da opera&ccedil;&atilde;o. Um sol ardia em seu peito, um sol que brilhava melancolicamente sozinho, querendo abra&ccedil;ar o mundo numas vezes; noutras, querendo explodir em toneladas de destrui&ccedil;&atilde;o.</p>
<p>- Eu tenho medo desse seu lado – ela dizia. Tenho medo de n&atilde;o conseguir acalmar essa fera que est&aacute; em seu peito.</p>
<p>Ele dizia “<em>calma, est&aacute; tudo sob controle</em>” como quem fala do papai Noel para uma crian&ccedil;a.</p>
<p>Crian&ccedil;a&#8230; via-se quando crian&ccedil;a, era cheio de energia e alegria. Onde aconteceu o rompimento? Em que lugar foram abandonadas a inoc&ecirc;ncia e a esperan&ccedil;a?</p>
<p>Brincava na rua com os amigos, anos mais tarde era o amigo beberr&atilde;o divertido, depois o homem ocupado, mas sempre se lembrava dessa semente vermelha que brotava na escurid&atilde;o do seu ser. De todos os dias que podia lembrar de sua vida, via sempre aquela fa&iacute;sca insustent&aacute;vel nos seus olhos, como quem sabe de um segredo mas n&atilde;o compartilhar&aacute;. Ele sabia que conhecia esse segredo, mas n&atilde;o podia se recordar de nada&#8230; nada.</p>
<p>Eram muitas vidas em uma. Queria gritar para que aquela crian&ccedil;a que fora lhe ouvisse, ela saberia gui&aacute;-lo naquela queda acelerada atrav&eacute;s da escurid&atilde;o do abismo.</p>
<p>Deu uma tragada no cigarro enquanto segurava a x&iacute;cara de caf&eacute; com a outra m&atilde;o.</p>
<p>- Eu n&atilde;o entendo como isso acontece, t&ecirc;m dias&#8230; melhor, t&ecirc;m horas que sinto um aperto no peito, como se um verme se alimentasse das minhas entranhas. De repente, vejo-me um r&eacute;ptil, uma gota, uma poeira estelar, um ca&ccedil;ador interglacial, ou talvez uma c&eacute;lula dele, ou a pr&oacute;pria causa da Glacia&ccedil;&atilde;o Wiscosin, o que for. Por vezes, sinto-me circundando o universo, abrangendo tudo, e vejo as coisas com tanta paz e clareza; noutras, sou circundado por el&eacute;trons, uma parte t&atilde;o &iacute;nfima de tudo que sinto que s&oacute; posso obedecer &agrave;s leis da in&eacute;rcia ou da gravidade.</p>
<p><em>Estou caindo. Eu sou a queda.</em></p>
<p>Freud parecia dar demasiada import&acirc;ncia para a sexualidade, da mesma forma procediam os vedantas, os monges, os magos, os tantras et Cetera. Excedendo ou anulando, o sexo parecia ser chave para a liberdade e para o entendimento, mas ele nunca encontrara no sexo essa superconsci&ecirc;ncia; era prazer, dom&iacute;nio, som, cheiro e tato, ritmo e gozo, depois tudo voltava ao normal. &Agrave;s vezes, pior.</p>
<p>Cansara de fugas, de &aacute;lcool e das drogas, dos transes e das abstra&ccedil;&otilde;es. Queria abrir os olhos para enfrentar o que era seu e ele insistia em se escapar.</p>
<p>A vida ia se abrindo, ia se rasgando como um v&eacute;u de tecido fino, queimando e estalando como o seu cigarro. E o presente era seu, de si para si.</p>
<p>Ela ouvia, tentava entender aquela alma complicada, feliz por ter sido escolhida por ele para compartilhar aquilo; insegura, por&eacute;m, sem saber como proceder com aquele universo que se abria no meio, recolhendo-a, permitindo sua entrada.</p>
<p>Ele abria ao meio seu universo como um filhote quebra a casca do ovo para sair ao mundo. <em>Abraxas, eu sempre lembro.</em> Tudo era pesado e lento, doloroso e quase insustent&aacute;vel.</p>
<p>- &Agrave;s vezes penso que vou quebrar.</p>
<p>- Eu me sinto incapaz de te ajudar. O que posso fazer? Perguntava ela.</p>
<p>Ele respondia “<em>nada</em>”, sabendo que era mentira. Ela existia e lhe ouvia como quem deve ouvir a si mesmo, como quem ouve Vivaldi, e essa era a ajuda; e quebrar a casca era cair em um abismo perigoso, solit&aacute;rio e necess&aacute;rio.</p>
<p>- Por vezes me sinto t&atilde;o universal que colapso sobre mim, um Big Crunch. Sou dois, tr&ecirc;s, muitos com a mesma intensidade que sou s&oacute; um perdido entre milh&otilde;es, incapaz de navegar apenas numa dire&ccedil;&atilde;o correta, &agrave; deriva, num oceano vasto demais para uma vida. Sinto que nunca realizarei minhas possibilidades.</p>
<p>- Dizem que quem n&atilde;o sabe para onde vai qualquer dire&ccedil;&atilde;o serve e&#8230;</p>
<p>- Ou nenhuma serve; ou, ainda, n&atilde;o tenho dire&ccedil;&atilde;o, navego em um c&iacute;rculo eternamente perfeito, olhando sempre para as mesmas paisagens que as esta&ccedil;&otilde;es se encarregam de mudar as sombras, criando a ilus&atilde;o de que realmente estou mudando mas&#8230;</p>
<p>- Mas na verdade n&atilde;o est&aacute;, n&atilde;o &eacute; mesmo?</p>
<p>- Acho que no fundo nunca mudei, de verdade. Creio, ali&aacute;s, que &agrave; poucos de n&oacute;s &eacute; permitida a mudan&ccedil;a.</p>
<p>- Como n&atilde;o mudou?!</p>
<p>- Sim. Essas mudan&ccedil;as aparentes j&aacute; s&atilde;o parte de mim, sinto como se estivessem guardadas em algum lugar, esperando, prontas para assumir o controle do que sou.</p>
<p>- Muitas vidas em uma&#8230; voc&ecirc; me parece Fernando Pessoa.</p>
<p>Muitas vidas em uma&#8230; &agrave;s vezes ele sentia que todas essas vidas se abra&ccedil;avam e se atiravam com ele naquele abismo. Nada havia &agrave; frente, ou, talvez, apenas n&atilde;o enxergasse um fim pr&oacute;ximo, prestes a lhe bater no rosto com uma for&ccedil;a descomunal.</p>
<p>Muitas vidas em uma&#8230; como pode? Tudo parecia uma s&eacute;rie de sonhos, ora concatenados com perfei&ccedil;&atilde;o, ora revelando vac&acirc;ncias terr&iacute;veis, lapsos assustadores. Mas n&atilde;o eram sonhos, pois dormir era mais quieto.</p>
<p>Tinha as m&atilde;os amarradas para si, enxergava tudo ao seu redor, mas n&atilde;o lhe era permitido ter controle sobre sua alma. O Atman, ele acreditou, o Inner Self, o SAG, o Daeimonos, o que for, era aquilo que deveria govern&aacute;-lo; cada a&ccedil;&atilde;o, cada gesto, cada pensamento, cada emo&ccedil;&atilde;o&#8230; tudo era controlado por algo que n&atilde;o compreendia, e ia para o diabo o livre arb&iacute;trio.</p>
<p>- Por que o mundo &eacute; assim? – Perguntou ele, depois de um tempo em sil&ecirc;ncio enquanto soprava a fuma&ccedil;a do cigarro que terminava. – Por que somos assim?</p>
<p>- Se existe uma raz&atilde;o nisso tudo, talvez o melhor mesmo seja que a desconhe&ccedil;amos.</p>

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		<title>A Gangue da Matriz como voc&#234; bem sabe</title>
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		<pubDate>Wed, 03 Aug 2011 22:45:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Christian  Silveira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Indignação]]></category>
		<category><![CDATA[aumento salarial]]></category>
		<category><![CDATA[deputados]]></category>
		<category><![CDATA[gangue da matriz]]></category>
		<category><![CDATA[rio grande do sul]]></category>
		<category><![CDATA[tonho crocco]]></category>

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<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter" src="http://www.superbrasilia.com/aquarela/aq_congresso_dia.jpg" alt="" width="737" height="497" /></p>
<p>&Eacute; sob esse c&eacute;u azul, em tapetes bem cuidados, que o crime acontece.</p>
<p>A esta altura do campeonato quase todos voc&ecirc;s j&aacute; devem ter ouvido o rap do Tonho Crocco chamado <em>Gangue da Matriz </em>(que voc&ecirc; pode ouvir no v&iacute;deo postado no final do texto), que cita, de forma muito inteligente e n&atilde;o-ofensiva o nome dos 36 deputados do estado do Rio Grande do Sul que votaram a favor do pr&oacute;prio aumento salarial em uma quantia pouco inocente de 73%.</p>
<p>Ali&aacute;s, de inoc&ecirc;ncia esses deputados do nosso querido estado ga&uacute;cho n&atilde;o t&ecirc;m nada.</p>
<p>N&atilde;o &eacute; de hoje que vemos pol&iacute;ticos enriquecendo &agrave;s custas dos cofres p&uacute;blicos alimentados pelo dinheiro que eu e voc&ecirc; pagamos em impostos em cada pequena mercadoria que adquirimos.</p>
<p>Ladr&otilde;es, eu digo, porque n&atilde;o sou t&atilde;o polido quanto o Tonho Crocco.</p>
<p>Tonho est&aacute; sendo processado pela m&uacute;sica supracitada, mostrando o quanto nossa liberdade de express&atilde;o ainda &eacute; limitada. Pisemos, pois, nos calos desses senhores deputados, desses e de outros senhores possuidores de riquezas e honrarias que muito me causam d&uacute;vidas de suas proced&ecirc;ncias, se l&iacute;citas ou merecidas&#8230;enfim, pisemos nos calos desses “poderosos” para vermos o quanto nossa liberdade &eacute; fr&aacute;gil, pois esses n&atilde;o se recusam em usar os meios mais perversos para tirar da frente quem lhes &eacute; contra, ou melhor, quem lhes &eacute; verdadeiro.</p>
<p>Uma mentira sustentada por v&aacute;rias pessoas acaba se tornando uma verdade, infelizmente, e um furto (pois &eacute; assim que eu classifico esse aumento) praticado por v&aacute;rios deputados acaba sendo aceito em uma dolorida e ignorante resigna&ccedil;&atilde;o.</p>
<p>Esses senhores n&atilde;o possuem vergonha, n&atilde;o possuem escr&uacute;pulos, s&atilde;o nossos Lu&iacute;s XIV, s&atilde;o nossas condessas B&aacute;thory melindradas na viol&ecirc;ncia f&iacute;sica.</p>
<p>Existe algo de muito errado nessa c&acirc;mara destra do Congresso Nacional (obviamente existe algo de muito errado em todo esse congresso), sem excusas esses senhores &iacute;mprobos se movem e movem quantias absurdas de dinheiro para l&aacute; e para c&aacute;, montando seus patrim&ocirc;nios particulares sob nossos olhos e nada lhes acontece, nada lhes &eacute; imputado.</p>
<p>No entanto, quando algu&eacute;m lhes ergue a voz dizendo “isto est&aacute; errado”, essa voz &eacute; logo ca&ccedil;ada, presa, enjaulada em grades de censura e “justi&ccedil;a”, e ent&atilde;o esses senhores nos dizem “essas vozes nada provam, s&atilde;o as vozes de caluniadores, de desocupados amorais”.</p>
<p>Senhores que sorriem e mentem, senhores que com as m&atilde;os nos bolsos seguram o pr&oacute;prio dinheiro e, misteriosamente, tamb&eacute;m roubam o nosso instantaneamente. Senhores de ternos novos, de barba bem cortada e de perfumes importados acabam fedendo a gan&acirc;ncia e falsidade. Inclusive esses que viveram uma vida correta, esperando apenas o momento certo de mostrar o car&aacute;ter fraco e ordin&aacute;rio que possui, esses que moram t&atilde;o perto que voc&ecirc; chegou a pensar que n&atilde;o seriam capazes de rir da sua cara enquanto metiam a m&atilde;o no seu bolso.</p>
<p>Ladr&otilde;es, eu grito, porque n&atilde;o sou t&atilde;o polido quanto o Tonho Crocco.</p>
<p><object width="425" height="349" classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/SukPLNWgY7M?version=3&amp;hl=pt_BR" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed width="425" height="349" type="application/x-shockwave-flash" src="http://www.youtube.com/v/SukPLNWgY7M?version=3&amp;hl=pt_BR" allowFullScreen="true" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" /></object></p>

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		<title>Uma F&#225;bula Reconfortante</title>
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		<pubDate>Fri, 08 Jul 2011 01:26:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Christian  Silveira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Indignação]]></category>
		<category><![CDATA[carl sagan]]></category>
		<category><![CDATA[Darwin]]></category>
		<category><![CDATA[humanos]]></category>
		<category><![CDATA[planeta]]></category>
		<category><![CDATA[universo]]></category>

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		<description><![CDATA[Esse &#233; o terceiro v&#237;deo da S&#233;rie Sagan que eu, fortemente, recomendo que assistam todos. Esse, em especial, inspirou/revoltou o texto a seguir. Olhando para o planeta Terra, esse planeta que habitamos de forma inconseq&#252;ente, irrespons&#225;vel e parasit&#225;ria, olhando para ele, um ponto azul perdido num Universo infinitamente grande&#8230; nada acontece olhando de longe, em [...]]]></description>
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<p>Esse &eacute; o terceiro v&iacute;deo da S&eacute;rie Sagan que eu, fortemente, recomendo que assistam todos.<br />
Esse, em especial, inspirou/revoltou o texto a seguir.</p>
<p><object width="640" height="390"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/8-fnoS01KmU?version=3&amp;hl=pt_BR" /><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="640" height="390" src="http://www.youtube.com/v/8-fnoS01KmU?version=3&amp;hl=pt_BR" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
<p>Olhando para o planeta Terra, esse planeta que habitamos de forma inconseq&uuml;ente, irrespons&aacute;vel e parasit&aacute;ria, olhando para ele, um ponto azul perdido num Universo infinitamente grande&#8230; nada acontece olhando de longe, em verdade, o que acontece &eacute; praticamente insignificante para o Universo.</p>
<p><strong>Somos part&iacute;culas infinitesimais de poeira sobre a superf&iacute;cie de um gr&atilde;o de poeira um pouco maior. Somos &aacute;caros.</strong></p>
<p>&Eacute; uma arrog&acirc;ncia exorbitante pensarmo-nos seres especiais nisso tudo. &Eacute;, al&eacute;m de arrogante, est&uacute;pido pensar, por um momento sequer, que religi&otilde;es, ideias, conceitos, op&ccedil;&otilde;es sexuais, fronteiras nacionais ou qualquer outro motivo ou valor ou ideal t&atilde;o transit&oacute;rio possa ser o &uacute;nico, o verdadeiro. Aquele que diz “eu tenho orgulho de ser assim, pois assim &eacute; o certo”, aquele que grita sua verdade (sua e somente sua), que levanta suas armas com outras centenas de milhares de pessoas que pensam estar no mesmo barco (pois cada um est&aacute; sozinho no seu, por&eacute;m, no mesmo oceano), &eacute; o maior arrogante, o maior est&uacute;pido, pois ele mata por um ideal inconsistente.</p>
<p>Aquele que pode se transformar num assassino ou agressor apenas para defender seu ponto de vista, defender sua bandeira, seja ela colorida, preta e branca ou a cor que for, est&aacute; errado, ainda que nesse jogo n&atilde;o exista, de fato, tal coisa de estar totalmente errado.</p>
<p><strong>“O Homem, em sua arrog&acirc;ncia, pensa de si mesmo uma grande obra, merecedora da interven&ccedil;&atilde;o de uma divindade.” (Darwin)</strong></p>
<p>O que te faz pensar que suas op&ccedil;&otilde;es s&atilde;o melhores que as do outro? Por que pensas que tua causa &eacute; a mais justa e, por isso, um deus qualquer deve intervir e te apoiar e te permitir sobrepujar toda e qualquer pessoa ou coisa que esteja em seu caminho? Como chegaste a esse ponto?</p>
<p><strong>N&oacute;s falhamos em compreender nosso universo.</strong></p>
<p>N&oacute;s n&atilde;o nascemos prontos. Somos filhos de bilh&otilde;es de anos de evolu&ccedil;&atilde;o, somos &aacute;tomos, p&oacute; de estrela, carbono e energia, somos sinapses e, quem sabe, num outro instante, somos nada.</p>
<p>N&atilde;o podemos dominar o Universo, n&atilde;o podemos domar deus (se ele existe) para que satisfa&ccedil;a nossos, indubitavelmente ego&iacute;stas, desejos, n&atilde;o podemos muitas coisas pois somos limitados no que fazemos e no que compreendemos. Por&eacute;m, podemos sim, esfor&ccedil;armo-nos, de maneira t&eacute;pida, calma e lenta mas consistente, para que nosso planetinha azul, perdido nesse infinito de escurid&atilde;o e “vazios”, seja um lugar melhor.</p>
<p>N&atilde;o pense que um deus qualquer vai te salvar quando tu ergueres as m&atilde;os para o c&eacute;u pedindo perd&atilde;o; tampouco seres de outro planeta (se existirem) vir&atilde;o te salvar desse caos, pois tu &eacute;s merecedor.</p>
<p><strong>N&atilde;o! N&atilde;o existem milagres!</strong></p>
<p>Podemos ser filhos de um &aacute;tomo em especial, o primeiro a ter sofrido uma muta&ccedil;&atilde;o de sucesso, e ele foi nosso deus, e se for assim, ele n&atilde;o ir&aacute; nos salvar novamente. Estamos sozinhos, abandonados &agrave; pr&oacute;pria sorte, e j&aacute; est&aacute; mais do que na hora de limpar a nossa casa.</p>
<p>Olhando assim, de longe, tamb&eacute;m n&atilde;o parece t&atilde;o suja. Mas daqui de dentro, essas diferen&ccedil;as que n&atilde;o sabemos suportar nos fazem imundos.</p>
<p>&nbsp;</p>

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		<title>Casa vazia</title>
		<link>http://descompassado.com/casa-vazia/</link>
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		<pubDate>Sun, 12 Jun 2011 15:33:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Christian  Silveira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Poesia]]></category>
		<category><![CDATA[alma]]></category>
		<category><![CDATA[angústia]]></category>
		<category><![CDATA[dor]]></category>
		<category><![CDATA[vazio]]></category>

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		<description><![CDATA[Assim te vais, meio sem alma, Nesse mon&#243;logo ensurdecedor Gritas &#224;s paredes desta casa vazia, Ecoas maldi&#231;&#245;es no teu &#237;ntimo oco. Pensas nas almas e nos &#225;tomos, Meditas sobre o amor e o universo, E assim te esgotas, em gotas amargas. Lentamente, sem pressa nenhuma, Preenches teu corpo nesse escuro ocaso, T&#227;o pret&#233;rito quanto tua [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[
<div class="topsy_widget_data topsy_theme_blue" style="float: right;margin-left: 0.75em; background: url(data:,%7B%20%22url%22%3A%20%22http%253A%252F%252Fdescompassado.com%252Fcasa-vazia%252F%22%2C%20%22style%22%3A%20%22big%22%2C%20%22title%22%3A%20%22Casa%20vazia%20%23%22%20%7D);"></div>
<p><img class="aligncenter" src="http://3.bp.blogspot.com/_vbb8UHOcmW4/TDdrWF4nOhI/AAAAAAAADn4/y2ZyOgU1nao/s1600/otto_grun_sala3.jpg" alt="" width="400" height="300" /></p>
<p>Assim te vais, meio sem alma,</p>
<p>Nesse mon&oacute;logo ensurdecedor</p>
<p>Gritas &agrave;s paredes desta casa vazia,</p>
<p>Ecoas maldi&ccedil;&otilde;es no teu &iacute;ntimo oco.</p>
<p>Pensas nas almas e nos &aacute;tomos,</p>
<p>Meditas sobre o amor e o universo,</p>
<p>E assim te esgotas, em gotas amargas.</p>
<p>Lentamente, sem pressa nenhuma,</p>
<p>Preenches teu corpo nesse escuro ocaso,</p>
<p>T&atilde;o pret&eacute;rito quanto tua vida esquecida,</p>
<p>T&atilde;o valioso quanto tua liberdade fria.</p>
<p>Assim te acabas, gota por gota,</p>
<p>Meio sem alma – histeria calma -,</p>
<p>E quando cessas tuas blasf&ecirc;mias altas,</p>
<p>Afogado no cansa&ccedil;o desse discurso,</p>
<p>Acabas por dormir nesse ch&atilde;o frio</p>
<p>Que ainda vibra gritos de casa vazia.</p>
<p>&nbsp;</p>

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		<title>Foco e Sabedoria</title>
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		<pubDate>Tue, 31 May 2011 02:14:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Christian  Silveira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Eu]]></category>
		<category><![CDATA[conhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[foco]]></category>
		<category><![CDATA[Hermann Hesse]]></category>
		<category><![CDATA[inteligência]]></category>
		<category><![CDATA[sabedoria]]></category>
		<category><![CDATA[Sidarta]]></category>

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		<description><![CDATA[“- Quando algu&#233;m procura muito — explicou Sidarta — pode facilmente acontecer que seus olhos se concentrem exclusivamente no objeto procurado e que ele fique incapaz de achar o que quer que seja, tornando-se inacess&#237;vel a tudo e a qualquer coisa porque sempre s&#243; pensa naquele objeto, e porque tem uma meta, que o obceca [...]]]></description>
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<p><em>“- Quando algu&eacute;m procura muito — explicou Sidarta — pode facilmente acontecer que seus olhos se concentrem exclusivamente no objeto procurado e que ele fique incapaz de achar o que quer que seja, tornando-se inacess&iacute;vel a tudo e a qualquer coisa porque sempre s&oacute; pensa naquele objeto, e porque tem uma meta, que o obceca inteiramente. Procurar significa: ter uma</em></p>
<p><em>meta, Mas achar significa: estar livre, abrir-se a tudo, n&atilde;o ter meta alguma. Pode ser que tu, &oacute; vener&aacute;vel, sejas realmente um buscador, j&aacute; que, no af&atilde; de te aproximares da tua meta, n&atilde;o</em></p>
<p><em>enxergas certas coisas que se encontram bem perto dos teus olhos.</em></p>
<p><em>(&#8230;)</em></p>
<p><em>- Olha, meu querido Govinda, entre as id&eacute;ias que se me descortinaram encontra-se esta: A sabedoria n&atilde;o pode ser comunicada. A sabedoria que um s&aacute;bio quiser transmitir sempre cheirar&aacute;</em></p>
<p><em>a tolice.</em></p>
<p><em>— Est&aacute;s brincando? — perguntou Govinda.</em></p>
<p><em>— N&atilde;o brinco, n&atilde;o. Digo apenas o que percebi. Os conhecimentos podem ser transmitidos, mas nunca a sabedoria. Podemos ach&aacute;-la; podemos viv&ecirc;-la; podemos consentir em que ela nos norteie; podemos fazer milagres atrav&eacute;s dela. Mas n&atilde;o nos &eacute; dado pronunci&aacute;-la e ensin&aacute;-la.” (Sidarta &#8211; Hermann Hesse)</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter" src="http://1.bp.blogspot.com/-M2WHKuo83_k/TbSuKEgNaNI/AAAAAAAAElk/ydUkGxkNyFo/s1600/Foco.jpg" alt="" width="442" height="577" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Senta que l&aacute; vem hist&oacute;ria.</p>
<p>PARTE 1</p>
<p>Esse di&aacute;logo, cortado muito pela metade, est&aacute; nos &uacute;ltimos cap&iacute;tulos do livro Sidarta do Hermann Hesse. Sidarta explica a Govinda, com muito bom gosto, do que se sucede quando um homem procura demasiadamente algo, quando se torna cego, fan&aacute;tico, e, assim, simplesmente se fecha ao que lhe est&aacute; em volta.</p>
<p>Pode parecer bastante auto-ajuda, mas na verdade, acho que &eacute; muito mais pra psicologia isso. N&oacute;s n&atilde;o somos capazes de captar muitas informa&ccedil;&otilde;es, ao menos n&atilde;o tantas quanto gostar&iacute;amos de ser capazes.</p>
<p>Por exemplo, memorize cinco palavras e as procure numa lista gigantesca de outras palavras. Infelizmente, voc&ecirc; notara que estar&aacute; propenso a dar mais aten&ccedil;&atilde;o a uma ou outra palavra como principal nessa busca e s&oacute; depois de encontr&aacute;-la que voc&ecirc; ir&aacute; adiante, dando mais &ecirc;nfase &agrave; outra.</p>
<p>N&atilde;o somos t&atilde;o multitarefa assim, creio que n&atilde;o rodamos num processador core 2 duo.</p>
<p>Um atleta n&atilde;o fica pensando em cada jogada que vai fazer com uma precis&atilde;o milim&eacute;trica, ele n&atilde;o fecha os olhos para o que h&aacute; em volta no campo para poder fazer um &uacute;nico drible que, provavelmente, n&atilde;o ter&aacute; a oportunidade de conseguir. N&atilde;o, um jogador est&aacute; aberto e atento &agrave;s oportunidades singulares e temporais que a situa&ccedil;&atilde;o lhe propicia, e assim, esquecendo de uma l&oacute;gica, apenas encontrando uma maneira de realizar o feito, ele vai l&aacute; e faz.</p>
<p>Nossa vida deveria ser mais assim (ao menos no que diz respeito ao &acirc;mbito psicol&oacute;gico ou espiritual ou an&iacute;mico ou como preferir). Gastamos energia, tempo, dinheiro, sa&uacute;de e tudo que temos buscando coisas que talvez, e nada mais do que talvez, sejam, de fato, da nossa mais &iacute;ntima vontade. Quando teimamos assim, nos fechamos a oportunidades inesperadas, n&atilde;o estamos mais dispostos aos imprevistos, aos “acasos”, as surpresas, boas ou ruins ou neutras, que a “vida” nos oferece.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><img class="aligncenter" src="http://casal10.evonblogs.com.br/wp-content/uploads/2008/11/cerebro.jpg" alt="" width="330" height="400" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>PARTE 2</p>
<p>Certa vez (ou mais de uma) escrevi acerca da sabedoria e da intelig&ecirc;ncia, de suas diferen&ccedil;as. Pois bem, n&atilde;o sou, obviamente, um s&aacute;bio, fico longe disso ainda, mas entendo que toda sabedoria &eacute; quase incomunic&aacute;vel.</p>
<p>Temos capacidade de comunicar conhecimentos, ainda que de maneira parcial, pois esbarramos, primeiramente, na barreira das palavras/comunica&ccedil;&atilde;o e, depois, na da compreens&atilde;o/idiossincrasia alheia.</p>
<p>Pois bem, digamos que comunicamos da forma mais articulada poss&iacute;vel um conhecimento essencial para outra pessoa. Se ela n&atilde;o viveu aquilo que tentamos comunicar, n&atilde;o importa qu&atilde;o boa possa ser sua capacidade cognitiva, ela n&atilde;o ter&aacute; um conhecimento total da experi&ecirc;ncia, perder&aacute; a ess&ecirc;ncia num labirinto de imaginados “talvezes” e “porvires”.</p>
<p>O conhecimento total de uma ideia pode ser, quem sabe, chamado de sabedoria.</p>
<p>Um Buda n&atilde;o lhe faria conhecer o Nirvana apenas comunicando os m&eacute;todos, sensa&ccedil;&otilde;es e apar&ecirc;ncias da experi&ecirc;ncia.</p>
<p>Palavras n&atilde;o podem ser cheiradas, n&atilde;o t&ecirc;m cor, n&atilde;o pesam, n&atilde;o tem arestas nem sabor. Palavras n&atilde;o possuem sabedoria, apenas carregam conhecimento.</p>
<p>A sabedoria nunca foi encontrada aqui, nunca ser&aacute; encontrada, embora aqui esteja contida. Cabe a n&oacute;s apenas pegar essas palavras, transform&aacute;-las em conhecimento, amadurec&ecirc;-las e fazer delas sabedoria.</p>
<p>Urgente, pois que vejo um mundo de pessoas transbordando de ignor&acirc;ncia.</p>
<p>&nbsp;</p>

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		<title>Sidarta e a roda da vida</title>
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		<pubDate>Fri, 27 May 2011 04:25:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Christian  Silveira</dc:creator>
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		<category><![CDATA[esperar]]></category>
		<category><![CDATA[Hermann Hesse]]></category>
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<p><em>“Veio-lhe &agrave; mem&oacute;ria que perante Kamala gabara-se de saber realizar tr&ecirc;s coisas, de dominar tr&ecirc;s artes, nobres, insuper&aacute;veis: jejuar, esperar e pensar. Isso representava tudo que ent&atilde;o possu&iacute;a. Servira-lhe de esteio s&oacute;lido. Dera-lhe for&ccedil;a e poder. Nos anos duros, laboriosos, de sua juventude, Sidarta assimilara essas tr&ecirc;s artes, s&oacute; elas. Mas depois as perdera. A essa altura nenhuma delas pertencia-lhe: nem a arte de jejuar, nem a de esperar nem a de pensar.”</em> (Sidarta &#8211; Hermnann Hesse)</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><img class="aligncenter" src="http://3.bp.blogspot.com/_c2uaRRtAD48/TT8CXFlomqI/AAAAAAAAAD0/eBFLCxQIlPA/s1600/scover.jpg" alt="" width="328" height="508" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Esse &eacute; um trecho do livro <em>Sidarta </em>do autor alem&atilde;o <em>Hermann Hesse</em>. O personagem Sidarta era, quando novo um br&acirc;mane, estudioso, aplicado e &uacute;nico na intelig&ecirc;ncia e espiritualidade, por&eacute;m, insatisfeito com o que a erudi&ccedil;&atilde;o lhe dava, ou melhor, com o que ela n&atilde;o lhe dava, pois seu cora&ccedil;&atilde;o continuava sedento, nele ainda morava um vazio opressor, Sidarta foi ter, ent&atilde;o, com os <em>samanas</em>, monges peregrinos.</p>
<p>Sidarta j&aacute; era um rapaz quando se juntou aos <em>samanas,</em> deles aprendeu muitos truques, medita&ccedil;&otilde;es, habilidades e, com eles, obteve in&uacute;meros transes e insights; contudo, o jovem Sidarta continuava sedento e vazio.</p>
<p>Gotama, o Buda da hist&oacute;ria, &eacute; encontrado por Sidarta quando este decide deixar os <em>samanas</em>. Sidarta conversa brevemente com o Buda e entende que, apesar da doutrina de Gotama ser perfeita, ele n&atilde;o deve seguir doutrina alguma, pois que sua maior busca &eacute; a si mesmo.</p>
<p>&Eacute; nessa busca incessante que Sidarta, de certa forma, se perde pelas vilanias do jogo, da avareza, do dinheiro e do <em>sansara</em>. Assim, no trecho citado acima, o j&aacute; n&atilde;o t&atilde;o novo Sidarta, agora beirando os 40 anos, resolve se desfazer das riquezas acumuladas nos “anos de desvio”, sentindo profundo asco de si mesmo.</p>
<p>Numa epifania, percebe que, de algum jeito, estava aprendendo seu caminho, ali entende que j&aacute; n&atilde;o era mais o Sidarta do passado, mas ainda era Sidarta, reconhecia-se n&atilde;o sendo ele mesmo.</p>
<p>A r&aacute;pida compreens&atilde;o de que j&aacute; n&atilde;o sabia mais as principais artes que o constitu&iacute;am o faz, de certa forma, sentir-se bem. A&iacute; entra a hist&oacute;ria toda: a mudan&ccedil;a.</p>
<p>Somos assim, nossa vida passa enquanto reclamamos, enquanto cansamos, enquanto brigamos com coisas que n&atilde;o podemos mudar. Nesse emaranhado de emo&ccedil;&otilde;es conturbadas, perturbadas, nessa entropia que vai aumentando em nossa mente, esquecemos de aprender, de observar, de pensar.</p>
<p>Eu tamb&eacute;m soube, um dia, jejuar (n&atilde;o tanto quanto o personagem), soube esperar e soube pensar. Hoje n&atilde;o domino mais essas artes.</p>
<p>Aprendemos e desaprendemos tantas coisas. N&atilde;o me refiro apenas &agrave;s mat&eacute;rias do col&eacute;gio que nunca mais usamos, quero me referir ao jeito que fomos. Muitos de n&oacute;s aprenderam a ser r&aacute;pidos e respons&aacute;veis, mas desaprendemos a calma e o relaxamento. Criamos v&iacute;nculos com coisas desnecess&aacute;rias e n&atilde;o sabemos mais cortar essas ra&iacute;zes; desvinculamo-nos de coisas boas e nos importamos demais.</p>
<p>Logo depois, Sidarta “escuta” o rio, entende que, como o rio &#8211; que n&atilde;o tem passado nem futuro, pois est&aacute; na sua fonte, na sua foz, no estreito, na balsa, nas cataratas, e tudo no &uacute;nico momento presente -, n&oacute;s tamb&eacute;m somos um &uacute;nico ser, com sombras do passado e do futuro, somos o ido e o porvir, por&eacute;m, o somos somente agora.</p>
<p>Eu j&aacute; n&atilde;o sei jejuar, nem esperar, tampouco sei pensar como antes. Agora, espero que a vida me ensine a “escutar” o rio, entender da roda da vida e das ilus&otilde;es do mundo das configura&ccedil;&otilde;es.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>

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		<title>Dom&#237;nio e Dignidade</title>
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		<pubDate>Wed, 25 May 2011 02:39:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Christian  Silveira</dc:creator>
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<p><img class="aligncenter" src="http://1.bp.blogspot.com/-H_IcDwTGSp4/TV0YOjDTRqI/AAAAAAAACBk/jGuQ9F5C2Xg/s1600/carater.jpg" alt="" width="400" height="302" /></p>
<p>Pois bem, poucos est&atilde;o a par do causo que se sucedeu no in&iacute;cio do ano quando fui fazer minha mudan&ccedil;a, do t&eacute;rmino do meu contrato com o antigo apartamento, das multas pagas (que n&atilde;o existiam) apenas para n&atilde;o arrecadar estresse e tempo perdido, dos inconvenientes, das burocracias e falta de vontade (para n&atilde;o dizer m&aacute;-vontade e mau-car&aacute;ter) dos corretores.</p>
<p>N&atilde;o entrarei em detalhes acerca disto, tampouco vou revelar o nome da imobili&aacute;ria que, por falta de bons modos, fez de tudo para arrecadar um dinheiro a mais. Ah, se um Jo&atilde;o-de-barro fosse indigno assim com sua pr&oacute;pria moradia&#8230;</p>
<p>Enfim, o que venho lhes contar &eacute; que, dia desses (e n&atilde;o foi a primeira vez) estava caminhando pela rua e cruzei com o dito corretor imobili&aacute;rio/dono da imobili&aacute;ria; fiz-me pronto para dar um “oi”, fazer uma certa ironia quando este me olhasse e me cumprimentasse; por&eacute;m, qual n&atilde;o foi minha surpresa ao reparar que, nervosamente, o senhor (pois passa, certamente, dos 50 anos, o que torna a situa&ccedil;&atilde;o mais c&ocirc;mica para o meu lado e mais triste e mendicante para o lado dele) desviou o olhar, procurou alguma coisa no ch&atilde;o enquanto caminhava, tateava em sua consci&ecirc;ncia procurando uma lanterna, uma vela qualquer que lhe ajudasse a procurar aquela dignidade que, ele ainda n&atilde;o entendeu, est&aacute; perdida.</p>
<p>Fiquei pensando em como o ser humano trai a si mesmo constantemente. Obviamente, raras s&atilde;o as vezes em que nos tra&iacute;mos diante dos outros de forma t&atilde;o clara, aprendemos, com o tempo a ser dissimulados (uns mais, outros menos).</p>
<p>O problema &eacute; que o homem comum (esse como voc&ecirc; e eu, seu pai, seus amigos e quase todas as pessoas que voc&ecirc; conhece) n&atilde;o sabe o que se passa em seu inconsciente, n&atilde;o sabe se perceber como indiv&iacute;duo, dotado de personalidade, caracter&iacute;sticas particulares e emo&ccedil;&otilde;es &uacute;nicas.</p>
<p>As emo&ccedil;&otilde;es constituem mat&eacute;ria de dif&iacute;cil entendimento, mais complicadas ainda para auto-compreens&atilde;o. Poucos s&atilde;o os que sabem de forma satisfat&oacute;ria (o que n&atilde;o quer dizer, nem de longe, completa) o que se passa em seu esp&iacute;rito, o que s&atilde;o e por que assim s&atilde;o essas emo&ccedil;&otilde;es, e os poucos que podem dizer que entendem um tanto sobre si mesmos ficam mais escassos ainda quando se lhes pergunta se eles conseguem ter um controle sobre isso.</p>
<p>N&atilde;o &eacute; &aacute; toa que o amor &eacute; algo t&atilde;o forte, que a raiva tamb&eacute;m o seja, s&atilde;o emo&ccedil;&otilde;es primitivas do homem, est&atilde;o demasiadamente arraigadas em nossa alma para que sejam, simplesmente, sobrepujadas, ludibriadas ou coisa que valha. Por isso, muitas vezes, pessoas s&atilde;o pegas nos detalhes, nos atos falhos, em pequenos erros ou descuidos que fazem com que verdade graves e perigosas sejam trazidas &agrave; tona.</p>
<p>N&oacute;s, pessoas normais – homens, n&atilde;o sobre-homens de Nietzsche -, n&atilde;o nos dominamos, n&atilde;o escondemos tudo, n&atilde;o sabemos tudo de n&oacute;s mesmos e n&atilde;o podemos encarar os olhos de algo que nos traz temor e vergonha.</p>
<p><strong>Jamais poder&iacute;amos olhar nos olhos de quem nos revelou a perda da pr&oacute;pria dignidade.</strong></p>

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		<title>Poesia suja</title>
		<link>http://descompassado.com/poesia-suja/</link>
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		<pubDate>Mon, 25 Apr 2011 12:21:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Christian  Silveira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Poesia]]></category>
		<category><![CDATA[fome]]></category>
		<category><![CDATA[guerra]]></category>
		<category><![CDATA[rima]]></category>

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		<description><![CDATA[Essa poesia branca e limpinha j&#225; n&#227;o &#233; a alma; Essa poesia, cosida em um tapete de algod&#227;o branco, Que se escorre, viscosa, por dedos magros N&#227;o tem mais cheiro de esp&#237;rito, somente de fantasia. Essas nuvens alvas, redondas, que cobrem meio sol; Essas aves que voam um v&#244;o perfeito&#8230; s&#227;o s&#243; imagens, S&#227;o escarros [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[
<div class="topsy_widget_data topsy_theme_blue" style="float: right;margin-left: 0.75em; background: url(data:,%7B%20%22url%22%3A%20%22http%253A%252F%252Fdescompassado.com%252Fpoesia-suja%252F%22%2C%20%22style%22%3A%20%22big%22%2C%20%22title%22%3A%20%22Poesia%20suja%20%23%22%20%7D);"></div>
<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter" src="http://2.bp.blogspot.com/_oWcFf6_O_9M/SwwF6k91xZI/AAAAAAAAAMk/Bb8ZRM8w7ng/s1600/tanque-guerra.jpg" alt="" width="472" height="354" /></p>
<p>Essa poesia branca e limpinha j&aacute; n&atilde;o &eacute; a alma;</p>
<p>Essa poesia, cosida em um tapete de algod&atilde;o branco,</p>
<p>Que se escorre, viscosa, por dedos magros</p>
<p>N&atilde;o tem mais cheiro de esp&iacute;rito, somente de fantasia.</p>
<p>Essas nuvens alvas, redondas, que cobrem meio sol;</p>
<p>Essas aves que voam um v&ocirc;o perfeito&#8230; s&atilde;o s&oacute; imagens,</p>
<p>S&atilde;o escarros da nossa consci&ecirc;ncia,</p>
<p>S&atilde;o escape da nossa inocente inabilidade de ver.</p>
<p>Essa poesia que se enche de louros e outros ouros,</p>
<p>Essa poesia que, garbosa, vem bater na face da realidade</p>
<p>N&atilde;o tem for&ccedil;a, &eacute; muito menos real que um v&ocirc;mito de enj&ocirc;o de uma viagem no mar.</p>
<p><strong>N&atilde;o existe m&eacute;trica na fome, n&atilde;o existe rima na guerra.</strong></p>
<p>N&atilde;o existe leveza no mundo, sen&atilde;o nessa poesia branca e limpinha</p>
<p>Nessas palavras de poetas mentirosos.</p>

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		<title>Intelig&#234;ncia (Primitivismo) Emocional</title>
		<link>http://descompassado.com/inteligencia-primitivismo-emocional/</link>
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		<pubDate>Tue, 12 Apr 2011 01:02:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Christian  Silveira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Indignação]]></category>
		<category><![CDATA[emoções]]></category>
		<category><![CDATA[homem]]></category>
		<category><![CDATA[impulsos]]></category>
		<category><![CDATA[inteligência emocional]]></category>
		<category><![CDATA[primitivismo]]></category>
		<category><![CDATA[violência]]></category>

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		<description><![CDATA[E n&#227;o adianta vir se gabar de que voc&#234; sabe in&#250;meros ossos do corpo humano d&#233;cor, que voc&#234; sabe transplantar um cora&#231;&#227;o, que voc&#234; sabe usar a constitui&#231;&#227;o e leu Kelsen, que voc&#234; sabe integrar, derivar e entende tudo de f&#237;sico-qu&#237;mica. N&#227;o adianta nada, nada adianta. Adianta muito, mas n&#227;o tem valor nenhum, portanto, quero [...]]]></description>
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<p><img class="aligncenter" src="http://www.ccvp.com.br/wp-content/uploads/2009/01/palestina.jpg" alt="" width="400" height="364" /></p>
<p>E n&atilde;o adianta vir se gabar de que voc&ecirc; sabe in&uacute;meros ossos do corpo humano d&eacute;cor, que voc&ecirc; sabe transplantar um cora&ccedil;&atilde;o, que voc&ecirc; sabe usar a constitui&ccedil;&atilde;o e leu Kelsen, que voc&ecirc; sabe integrar, derivar e entende tudo de f&iacute;sico-qu&iacute;mica.</p>
<p>N&atilde;o adianta nada, nada adianta.</p>
<p>Adianta muito, mas n&atilde;o tem valor nenhum, portanto, quero dizer que n&atilde;o adianta nada acumular essa quantidade insustent&aacute;vel de conhecimento, de min&uacute;cias e especificidades, quando se vive, irrefutavelmente, ao lado do r&eacute;ptil que deixamos para tr&aacute;s h&aacute; mais de cem mil anos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><img class="aligncenter" src="http://1.bp.blogspot.com/_jfbu1KEoNpE/TA1VSCn1KvI/AAAAAAAAAFk/9WLEwUzk-60/s320/Ignor%C3%A2ncia" alt="" width="296" height="320" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Somos incrivelmente primitivos. Enjoei de dizer isso, cansei, vomitei at&eacute; o que n&atilde;o podia desse asco que se nutre daquilo que podemos ser, dessa nossa vilania nata, t&atilde;o rudimentar quanto um macaco: somos incrivelmente primitivos.</p>
<p>N&atilde;o sabemos lidar com nossas emo&ccedil;&otilde;es. Sequer sabemos quais s&atilde;o nossas emo&ccedil;&otilde;es. Esse orgulho que sustentamos em dizer que somos da Gera&ccedil;&atilde;o Y, que sabemos fazer isso e aquilo, que seremos futuros empres&aacute;rios bem sucedidos prontos para subir numa montanha de dinheiro e, l&aacute; de cima, gritar ao mundo (que &eacute; o pr&oacute;prio ego gigantesco) que conseguiu.</p>
<p>Estamos pouco ou quase nada preocupados com o que sentimos, com o que somos por dentro e com como afetamos, atrav&eacute;s das nossas nem sempre boas atitudes/palavras, aqueles que nos rodeiam.</p>
<p>Sabemos muito bem, desde pequenos, ser maus.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><object width="480" height="390"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/6FGzJg6UMY0?fs=1&amp;hl=pt_BR" /><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="390" src="http://www.youtube.com/v/6FGzJg6UMY0?fs=1&amp;hl=pt_BR" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Vide crian&ccedil;as e essa moda do bullying: se isso n&atilde;o &eacute; pura express&atilde;o da maldade e as crias personifica&ccedil;&otilde;es do que h&aacute; de mais irrefreado em nosso inconsciente primitivo, ent&atilde;o tem muita coisa errada com o que acontece depois da inf&acirc;ncia.</p>
<p>Al&eacute;m do erro da agress&atilde;o moral/f&iacute;sica, h&aacute; a nossa incapacidade de lidar com as impress&otilde;es externas. Sabemos de forma muito insatisfat&oacute;ria controlar nossos impulsos, emo&ccedil;&otilde;es e pensamentos.</p>
<p>Claro, &eacute; natural que tenhamos que nos lapidar, sabedoria exige tempo e esfor&ccedil;o que uma crian&ccedil;a ainda n&atilde;o disp&otilde;e, mas n&oacute;s, adultos, dever&iacute;amos ser mais s&aacute;bios. N&oacute;s, adultos, somos igualmente primitivos.</p>
<p>Crescemos hostis, estressados e ego&iacute;stas.</p>
<p>Ter bom humor &eacute; ant&ocirc;nimo de credibilidade; ser paciente &eacute; sin&ocirc;nimo de inoper&acirc;ncia; ser altru&iacute;sta &eacute;, e essa de fato tem sido assim, interesse.</p>
<p>Assassinos, estupradores, terroristas, homens-bomba&#8230; vamos engrandecendo nossa loucura, vamos remontando os anos de hist&oacute;ria de forma id&ecirc;ntica, continuamos brigando pela terra santa e pela raz&atilde;o da verdade absoluta.</p>
<p>Defendemos, cegos, nossas bandeiras, maculadas e mortas. H&aacute; quem mate por um time de futebol&#8230; e h&aacute; quem morra por isso.<img class="alignright" src="http://4.bp.blogspot.com/_iHvaMFPaTOY/S7nV29pFbMI/AAAAAAAAAAM/ezxMCn0ZZ_M/s1600/gorila3%5B1%5D.jpg" alt="" width="400" height="600" /></p>
<p>Somos macacos brigando por uma penca de bananas, dispostos a usar da nossa mais alta intelig&ecirc;ncia, a viol&ecirc;ncia, para conseguir o pr&ecirc;mio. Passamos a vida lutando, e isso &eacute; tudo.</p>
<p>Impacientes, inconsequentes. Wellington matou crian&ccedil;as no Realengo, algu&eacute;m duvida de que ele nunca soube lidar com suas emo&ccedil;&otilde;es e impulsos e pensamentos? Uma bomba estourou numa esta&ccedil;&atilde;o de trem. Um homem se explodiu defendendo sua religi&atilde;o/limite territorial.</p>
<p>Somos primitivos, n&atilde;o sabemos levantar a m&atilde;o e pedir a palavra. Levantamos a m&atilde;o para um soco apenas, um soco letal, &eacute; o mesmo golpe que levamos dentro de n&oacute;s a vida inteira e queremos p&ocirc;r pra fora: n&atilde;o sabemos lidar com nossas emo&ccedil;&otilde;es, extravasamos em viol&ecirc;ncia.</p>
<p>N&atilde;o somos s&aacute;bios, somos inteligentes, e s&oacute; por isso voc&ecirc; l&ecirc; isso na internet hoje.</p>
<p>S&oacute; por isso eu escrevo, s&oacute; por isso eu me indigno.</p>
<p>&nbsp;</p>

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		<title>Alhures</title>
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		<pubDate>Sat, 12 Mar 2011 16:22:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Christian  Silveira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Minicontos]]></category>
		<category><![CDATA[carne]]></category>
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<p><img class="aligncenter" src="http://2.bp.blogspot.com/_g94QYAp7l5k/Svn5-K8KPpI/AAAAAAAAABE/KrdDFSGboYg/s320/David+Ho_Block6.jpg" alt="" width="320" height="320" /></p>
<p>Segurou firme aquela carne fl&aacute;cida, carne da sua carne, um peda&ccedil;o do seu pr&oacute;prio corpo, no entanto, parecendo t&atilde;o alheio quanto os pensamentos de qualquer desconhecido que se lhe passasse pela rua.</p>
<p>Aquele peda&ccedil;o de carne e gordura, pele e osso, n&atilde;o tinha significado nenhum, parecia estar conectado a si por um mero acaso da vida, ou melhor, todo o seu corpo parecia um amontoado de pe&ccedil;as de v&aacute;rios quebra-cabe&ccedil;as que n&atilde;o se encontravam mas, de alguma forma, encaixavam-se de uma maneira mais ou menos sim&eacute;trica e harm&ocirc;nica. Contudo, nada disso lhe era suficiente, era um peda&ccedil;o de carne, e era estranho; era um peda&ccedil;o dele mesmo, por&eacute;m, era alheio a sua vontade ou consci&ecirc;ncia.</p>
<p>Era estranho como aqueles milh&otilde;es de c&eacute;lulas podiam se juntar daquela forma, naquele corpo, que n&atilde;o parecia ser seu. Agarrava aquele peda&ccedil;o da sua perna e entendia que para aquelas c&eacute;lulas estarem ali foram necess&aacute;rias explos&otilde;es estrelares, for&ccedil;as gravitacionais, dor, raiva, amor, paix&atilde;o, sexo, morte, guerra, uma funcion&aacute;ria de um banco e um funcion&aacute;rio do governo. Milhares e milhares de fatos precisaram acontecer de uma forma espec&iacute;fica para que aquele peda&ccedil;o de carne que segurava agora estivesse ali e para que ele pensasse naquilo como algo estranho.</p>
<p>Poderia estar apenas olhando seus p&ecirc;los, admirando suas veias que, sutilmente, se avan&ccedil;avam pela pele, como uma cobra nadando quase na superf&iacute;cie da &aacute;gua, revelando por pouco sua silhueta, seu formato, suas cores e tamanhos. Poderia apenas estar se queixando de uma dor muscular ou, com mais azar, de um osso quebrado.</p>
<p>N&atilde;o, nada disso. Ele olhava para aquela pele que cobria ossos e se perguntava o por qu&ecirc; daquilo ser daquela forma.</p>
<p>Seus pensamentos iam muito al&eacute;m da perna e do sangue que corria dentro das veias que cruzavam aquele membro, seus pensamentos vagavam distantes, corriam por montanhas pr&eacute;-hist&oacute;ricas, por ruas e casebres da idade m&eacute;dia, voavam por entre planetas e estrelas que j&aacute; n&atilde;o existem mais, por entre nebulosas e energias que, de alguma forma, pode ser que jamais sejam completamente compreendidas pelos homens.</p>
<p>Seus pensamentos chegavam at&eacute; o in&iacute;cio de tudo, ao Big Bang, a Deus, a For&ccedil;a Primordial. A Cria&ccedil;&atilde;o.</p>
<p>Mas tudo voltava aquela perna, agora alhures. O que, diabos, ele fazia ali, perguntando-se sobre tudo aquilo? E por que aquele corpo? Por que aquelas formas, pelos, cores, cheiros? Por que esses por qu&ecirc;s?</p>
<p>Debatia-se em suas pr&oacute;prias ideias, pra l&aacute; e pra c&aacute;, como um macaquinho selvagem aprisionado, como um p&aacute;ssaro preso em uma gaiola, como um ser humano que pensa demais.</p>
<p>Um conjunto de c&eacute;lulas n&atilde;o poderia ser ele mesmo. Aquele mundo que existia dentro de si n&atilde;o poderia ser apenas a soma de uma predisposi&ccedil;&atilde;o biol&oacute;gica e uma fisiol&oacute;gica agregadas a est&iacute;mulos el&eacute;tricos do que vira e vivera em toda sua vida, da sua rela&ccedil;&atilde;o com seus amigos, irm&atilde;os, pai e m&atilde;e e, assim, consequentemente, das mais remotas escolhas pessoais desses que lhe educaram. &Eacute; uma loucura <em>ad infinitum</em>.</p>
<p>N&atilde;o conseguia aceitar que todo seu universo interior era apenas reflexo, uma resposta do seu corpo ao meio-ambiente. No entanto, tudo apontava numa dire&ccedil;&atilde;o pouco magn&acirc;nima, era puro determinismo. Nada mais, nada al&eacute;m.</p>
<p>Soltou aquela perna e prestou aten&ccedil;&atilde;o no chimarr&atilde;o que agora lhe alcan&ccedil;avam. Era melhor sorver um amargo e parar de besteira.</p>
<p>&nbsp;</p>

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