Christian Silveira
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Posts by Christian Silveira
A ausência
0São tantas coisas, tantas formas e tantos caminhos que me levam para determinados pensamentos que, na verdade, nem sei por onde começar.
Que seja, pois, rude.
Eu não posso acreditar em deus, não consigo sequer cogitar a ideia de acreditar num criador misericordioso, de suprema sabedoria, capaz de criar um mundo para seus “filhos” e permitir coisas hediondas como, por exemplo, o holocausto.
Falar do holocausto é uma coisa, ver imagens de corpos de milhares de seres humanos (não são judeus, não são negros, não são americanos prisioneiros, são única e tão somente seres humanos) amontoados, uns sobre os outros, numa geleira de ossos, pele e cabelo.
Corpos mortos, de bocas abertas, pronunciando um último grito mudo, que ficou ecoando até hoje e aqueles que querem ouvir que o ouçam. Talvez o que eles estavam gritando era algum “Por favor, deus, me ajude”, “Socorro, Senhor” ou “Pai nosso que estais no céu…” e, como resposta às suas preces, ouviram um tiro, um silêncio e só.
Não poderia acreditar em um deus que permitisse que um gênio, porém, completamente doente, chegasse tão longe. Tampouco consigo compreender porque ele “enviou seu filho para morrer por nós” e, menos ainda, como a morte de um ser humano pode “nos redimir de nossos pecados”.
Não posso concordar com um deus que vê, apaticamente, a fome e a miséria de um lado e um playboy gastando R$200,00 numa festinha de sexta-feira “pagando ceva pras mina” ou um milionário com sua mulher perua gastando R$500,00 em roupinhas para seu cachorrinho novo.
Expliquem-me: como posso acreditar em um deus que deixa que um viciado problemático entre em uma casa qualquer, mate quem quer que esteja dentro, para roubar e comprar mais drogas? Já não posso mais corroborar com essa falácia do deus cristão/católico/evangélico/et cetera.
Ah, mas se você me diz que deus criou o homem e o deixou livre para ser responsável por suas próprias atitudes eu tenho que concordar? Não!
Suponhamos que deus tenha, sei lá, novecentos trilhões de anos e o homem uns 200 bilhões (suponhamos), isso deve significar que deus é um pai bem adulto já, muito mais velho que seu filho (não um pai adolescente). Sendo assim, é correto deixar sua criança ao relento sem nem ao menos colocar sua mão para evitar que a criança faça besteiras? É correto não ensinar, ficar ausente e ainda cobrar a perfeição?
Se deus é pai e nós somos seus filhos, só posso concluir que ele é um sádico psicopata, deixando seus filhos se matarem uns aos outros, dando muito mais comida no almoço para uns e deixando outros disputarem sua comida com tigres e leões.
Não tenho ideia de como concluir um texto desses. Preciso ser categórico em minha opiniões/convicções. Cresci num ambiente católico e isso não fez de mim uma pessoa melhor, tampouco fez da maioria das pessoas que conheço e se dizem cristãs.
A inveja, a ganância, a maldade e a crueldade se escondem debaixo do dízimo de cada um de vocês e, se vocês acreditam em deus, só pode ter sido ele que, bem lá no fundinho dos seus genes, plantou essa malícia.
Citando Nietzsche, se bem me lembro: eu só poderia crer num deus que soubesse dançar.
O Rei está morto. Viva o Rei!
Para mim, um méson é muito mais real que essa crença toda.
E pra você que leu este texto até aqui e está pensando em como xingar discordar, assista esse vídeo antes:
Diálogo I
1 
Era de lembranças vazias que vivia. Aquela noite ele quis dá-las de presente. Era tudo o que possuía de verdade, seus bens mais preciosos, e oferecê-las era abrir sua alma de forma que não poderia voltar atrás; era tudo que podia dar e, ainda que pensasse que aquilo, de fato, era um ato de doação, que era presenteá-la com seu âmago, atirando-se num abismo de lembranças, era ele mesmo quem se presenteava.
Aconteceu que no dia do seu aniversário eles jantaram juntos e, após a janta, sentados na sacada que dava para a rua onde, vez ou outra, um carro passava interrompendo o tom suave de confidência da conversa e a lua despontava minguando entre dois prédios altos, ele lhe contou coisas que permaneciam enterradas, coisas que só ousava remexer sozinho mas que, não obstante, faziam parte de suas noites de insônia, tão freqüentes quanto os dias de vento norte.
Engole isso, acalme-se, dizia de si para si, diariamente. Todos lidam com seus demônios internos. Acalme-se! Não alimente com sangue quente essas bestas!
Era do quão humano era e o quanto se sentia pequeno e impotente diante da sua alma tão universal, porém, tão alquebrada, que falava. Cada constelação era uma cicatriz no seu íntimo; as estrelas, os pontos da operação. Um sol ardia em seu peito, um sol que brilhava melancolicamente sozinho, querendo abraçar o mundo numas vezes; noutras, querendo explodir em toneladas de destruição.
- Eu tenho medo desse seu lado – ela dizia. Tenho medo de não conseguir acalmar essa fera que está em seu peito.
Ele dizia “calma, está tudo sob controle” como quem fala do papai Noel para uma criança.
Criança… via-se quando criança, era cheio de energia e alegria. Onde aconteceu o rompimento? Em que lugar foram abandonadas a inocência e a esperança?
Brincava na rua com os amigos, anos mais tarde era o amigo beberrão divertido, depois o homem ocupado, mas sempre se lembrava dessa semente vermelha que brotava na escuridão do seu ser. De todos os dias que podia lembrar de sua vida, via sempre aquela faísca insustentável nos seus olhos, como quem sabe de um segredo mas não compartilhará. Ele sabia que conhecia esse segredo, mas não podia se recordar de nada… nada.
Eram muitas vidas em uma. Queria gritar para que aquela criança que fora lhe ouvisse, ela saberia guiá-lo naquela queda acelerada através da escuridão do abismo.
Deu uma tragada no cigarro enquanto segurava a xícara de café com a outra mão.
- Eu não entendo como isso acontece, têm dias… melhor, têm horas que sinto um aperto no peito, como se um verme se alimentasse das minhas entranhas. De repente, vejo-me um réptil, uma gota, uma poeira estelar, um caçador interglacial, ou talvez uma célula dele, ou a própria causa da Glaciação Wiscosin, o que for. Por vezes, sinto-me circundando o universo, abrangendo tudo, e vejo as coisas com tanta paz e clareza; noutras, sou circundado por elétrons, uma parte tão ínfima de tudo que sinto que só posso obedecer às leis da inércia ou da gravidade.
Estou caindo. Eu sou a queda.
Freud parecia dar demasiada importância para a sexualidade, da mesma forma procediam os vedantas, os monges, os magos, os tantras et Cetera. Excedendo ou anulando, o sexo parecia ser chave para a liberdade e para o entendimento, mas ele nunca encontrara no sexo essa superconsciência; era prazer, domínio, som, cheiro e tato, ritmo e gozo, depois tudo voltava ao normal. Às vezes, pior.
Cansara de fugas, de álcool e das drogas, dos transes e das abstrações. Queria abrir os olhos para enfrentar o que era seu e ele insistia em se escapar.
A vida ia se abrindo, ia se rasgando como um véu de tecido fino, queimando e estalando como o seu cigarro. E o presente era seu, de si para si.
Ela ouvia, tentava entender aquela alma complicada, feliz por ter sido escolhida por ele para compartilhar aquilo; insegura, porém, sem saber como proceder com aquele universo que se abria no meio, recolhendo-a, permitindo sua entrada.
Ele abria ao meio seu universo como um filhote quebra a casca do ovo para sair ao mundo. Abraxas, eu sempre lembro. Tudo era pesado e lento, doloroso e quase insustentável.
- Às vezes penso que vou quebrar.
- Eu me sinto incapaz de te ajudar. O que posso fazer? Perguntava ela.
Ele respondia “nada”, sabendo que era mentira. Ela existia e lhe ouvia como quem deve ouvir a si mesmo, como quem ouve Vivaldi, e essa era a ajuda; e quebrar a casca era cair em um abismo perigoso, solitário e necessário.
- Por vezes me sinto tão universal que colapso sobre mim, um Big Crunch. Sou dois, três, muitos com a mesma intensidade que sou só um perdido entre milhões, incapaz de navegar apenas numa direção correta, à deriva, num oceano vasto demais para uma vida. Sinto que nunca realizarei minhas possibilidades.
- Dizem que quem não sabe para onde vai qualquer direção serve e…
- Ou nenhuma serve; ou, ainda, não tenho direção, navego em um círculo eternamente perfeito, olhando sempre para as mesmas paisagens que as estações se encarregam de mudar as sombras, criando a ilusão de que realmente estou mudando mas…
- Mas na verdade não está, não é mesmo?
- Acho que no fundo nunca mudei, de verdade. Creio, aliás, que à poucos de nós é permitida a mudança.
- Como não mudou?!
- Sim. Essas mudanças aparentes já são parte de mim, sinto como se estivessem guardadas em algum lugar, esperando, prontas para assumir o controle do que sou.
- Muitas vidas em uma… você me parece Fernando Pessoa.
Muitas vidas em uma… às vezes ele sentia que todas essas vidas se abraçavam e se atiravam com ele naquele abismo. Nada havia à frente, ou, talvez, apenas não enxergasse um fim próximo, prestes a lhe bater no rosto com uma força descomunal.
Muitas vidas em uma… como pode? Tudo parecia uma série de sonhos, ora concatenados com perfeição, ora revelando vacâncias terríveis, lapsos assustadores. Mas não eram sonhos, pois dormir era mais quieto.
Tinha as mãos amarradas para si, enxergava tudo ao seu redor, mas não lhe era permitido ter controle sobre sua alma. O Atman, ele acreditou, o Inner Self, o SAG, o Daeimonos, o que for, era aquilo que deveria governá-lo; cada ação, cada gesto, cada pensamento, cada emoção… tudo era controlado por algo que não compreendia, e ia para o diabo o livre arbítrio.
- Por que o mundo é assim? – Perguntou ele, depois de um tempo em silêncio enquanto soprava a fumaça do cigarro que terminava. – Por que somos assim?
- Se existe uma razão nisso tudo, talvez o melhor mesmo seja que a desconheçamos.
A Gangue da Matriz como você bem sabe
20
É sob esse céu azul, em tapetes bem cuidados, que o crime acontece.
A esta altura do campeonato quase todos vocês já devem ter ouvido o rap do Tonho Crocco chamado Gangue da Matriz (que você pode ouvir no vídeo postado no final do texto), que cita, de forma muito inteligente e não-ofensiva o nome dos 36 deputados do estado do Rio Grande do Sul que votaram a favor do próprio aumento salarial em uma quantia pouco inocente de 73%.
Aliás, de inocência esses deputados do nosso querido estado gaúcho não têm nada.
Não é de hoje que vemos políticos enriquecendo às custas dos cofres públicos alimentados pelo dinheiro que eu e você pagamos em impostos em cada pequena mercadoria que adquirimos.
Ladrões, eu digo, porque não sou tão polido quanto o Tonho Crocco.
Tonho está sendo processado pela música supracitada, mostrando o quanto nossa liberdade de expressão ainda é limitada. Pisemos, pois, nos calos desses senhores deputados, desses e de outros senhores possuidores de riquezas e honrarias que muito me causam dúvidas de suas procedências, se lícitas ou merecidas…enfim, pisemos nos calos desses “poderosos” para vermos o quanto nossa liberdade é frágil, pois esses não se recusam em usar os meios mais perversos para tirar da frente quem lhes é contra, ou melhor, quem lhes é verdadeiro.
Uma mentira sustentada por várias pessoas acaba se tornando uma verdade, infelizmente, e um furto (pois é assim que eu classifico esse aumento) praticado por vários deputados acaba sendo aceito em uma dolorida e ignorante resignação.
Esses senhores não possuem vergonha, não possuem escrúpulos, são nossos Luís XIV, são nossas condessas Báthory melindradas na violência física.
Existe algo de muito errado nessa câmara destra do Congresso Nacional (obviamente existe algo de muito errado em todo esse congresso), sem excusas esses senhores ímprobos se movem e movem quantias absurdas de dinheiro para lá e para cá, montando seus patrimônios particulares sob nossos olhos e nada lhes acontece, nada lhes é imputado.
No entanto, quando alguém lhes ergue a voz dizendo “isto está errado”, essa voz é logo caçada, presa, enjaulada em grades de censura e “justiça”, e então esses senhores nos dizem “essas vozes nada provam, são as vozes de caluniadores, de desocupados amorais”.
Senhores que sorriem e mentem, senhores que com as mãos nos bolsos seguram o próprio dinheiro e, misteriosamente, também roubam o nosso instantaneamente. Senhores de ternos novos, de barba bem cortada e de perfumes importados acabam fedendo a ganância e falsidade. Inclusive esses que viveram uma vida correta, esperando apenas o momento certo de mostrar o caráter fraco e ordinário que possui, esses que moram tão perto que você chegou a pensar que não seriam capazes de rir da sua cara enquanto metiam a mão no seu bolso.
Ladrões, eu grito, porque não sou tão polido quanto o Tonho Crocco.
Uma Fábula Reconfortante
3Esse é o terceiro vídeo da Série Sagan que eu, fortemente, recomendo que assistam todos.
Esse, em especial, inspirou/revoltou o texto a seguir.
Olhando para o planeta Terra, esse planeta que habitamos de forma inconseqüente, irresponsável e parasitária, olhando para ele, um ponto azul perdido num Universo infinitamente grande… nada acontece olhando de longe, em verdade, o que acontece é praticamente insignificante para o Universo.
Somos partículas infinitesimais de poeira sobre a superfície de um grão de poeira um pouco maior. Somos ácaros.
É uma arrogância exorbitante pensarmo-nos seres especiais nisso tudo. É, além de arrogante, estúpido pensar, por um momento sequer, que religiões, ideias, conceitos, opções sexuais, fronteiras nacionais ou qualquer outro motivo ou valor ou ideal tão transitório possa ser o único, o verdadeiro. Aquele que diz “eu tenho orgulho de ser assim, pois assim é o certo”, aquele que grita sua verdade (sua e somente sua), que levanta suas armas com outras centenas de milhares de pessoas que pensam estar no mesmo barco (pois cada um está sozinho no seu, porém, no mesmo oceano), é o maior arrogante, o maior estúpido, pois ele mata por um ideal inconsistente.
Aquele que pode se transformar num assassino ou agressor apenas para defender seu ponto de vista, defender sua bandeira, seja ela colorida, preta e branca ou a cor que for, está errado, ainda que nesse jogo não exista, de fato, tal coisa de estar totalmente errado.
“O Homem, em sua arrogância, pensa de si mesmo uma grande obra, merecedora da intervenção de uma divindade.” (Darwin)
O que te faz pensar que suas opções são melhores que as do outro? Por que pensas que tua causa é a mais justa e, por isso, um deus qualquer deve intervir e te apoiar e te permitir sobrepujar toda e qualquer pessoa ou coisa que esteja em seu caminho? Como chegaste a esse ponto?
Nós falhamos em compreender nosso universo.
Nós não nascemos prontos. Somos filhos de bilhões de anos de evolução, somos átomos, pó de estrela, carbono e energia, somos sinapses e, quem sabe, num outro instante, somos nada.
Não podemos dominar o Universo, não podemos domar deus (se ele existe) para que satisfaça nossos, indubitavelmente egoístas, desejos, não podemos muitas coisas pois somos limitados no que fazemos e no que compreendemos. Porém, podemos sim, esforçarmo-nos, de maneira tépida, calma e lenta mas consistente, para que nosso planetinha azul, perdido nesse infinito de escuridão e “vazios”, seja um lugar melhor.
Não pense que um deus qualquer vai te salvar quando tu ergueres as mãos para o céu pedindo perdão; tampouco seres de outro planeta (se existirem) virão te salvar desse caos, pois tu és merecedor.
Não! Não existem milagres!
Podemos ser filhos de um átomo em especial, o primeiro a ter sofrido uma mutação de sucesso, e ele foi nosso deus, e se for assim, ele não irá nos salvar novamente. Estamos sozinhos, abandonados à própria sorte, e já está mais do que na hora de limpar a nossa casa.
Olhando assim, de longe, também não parece tão suja. Mas daqui de dentro, essas diferenças que não sabemos suportar nos fazem imundos.
Casa vazia
0
Assim te vais, meio sem alma,
Nesse monólogo ensurdecedor
Gritas às paredes desta casa vazia,
Ecoas maldições no teu íntimo oco.
Pensas nas almas e nos átomos,
Meditas sobre o amor e o universo,
E assim te esgotas, em gotas amargas.
Lentamente, sem pressa nenhuma,
Preenches teu corpo nesse escuro ocaso,
Tão pretérito quanto tua vida esquecida,
Tão valioso quanto tua liberdade fria.
Assim te acabas, gota por gota,
Meio sem alma – histeria calma -,
E quando cessas tuas blasfêmias altas,
Afogado no cansaço desse discurso,
Acabas por dormir nesse chão frio
Que ainda vibra gritos de casa vazia.