Abraçava ela como se fosse uma corda em um precipício.

Não havia delicadeza nem beleza naquele abraço, era apenas um desespero traduzido em força.

Ela o tinha traído, ainda o queria, mas a traição é como uma mancha num lençol, é feita por cima, mas atravessa e suja os dois lados. Ela sentia culpa e ele dor.

Ele abraçava o corpo daquela mulher que amava, seu peito era comprimido por um bloco de concreto de qualquer construção abandonada por falta de verbas, queria muito que aquilo tudo não fosse verdade. Amava aquela mulher, aquela que ele abraçava, não a que estava por dentro daquela mente, não aquela potencialmente pérfida.

O sentido da deslealdade é duplo, vai e volta, o peso é ativo por ter feito e passivo por ter destruído a confiança de uma pessoa, e orgulho ferido é como uma lata de cerveja aberta ontem.

Ainda assim, ele a queria, muito. Deveria ter deixado aquele cenário de cabeça erguida, deveria ter deixado ela sozinha na imensidão daquele nada, mas não podia, era como se o amor fechasse a mão naquele instante para nunca mais se abrir.

Ela retribuiu o abraço com tanta força quanto arrependimento, era remorso dos dedos ao sexo que tocaram outro que não o seu amado, era compunção de ter sentido prazer no falo de outro homem, não melhor do que o que já tinha no seu relacionamento com ele.

Ele soltou um pouco os braços, sentia, em sua mente, o cheiro daquela traição, o cheiro dos fluidos, o cheiro da mágoa em uma alma agora maculada, de uma cicatriz inflamada.

Jamais deveria ter soltado os braços, ele a queria como a própria vida, mas tudo havia desmoronado como se abalado por um terremoto. Não havia música dorida o suficiente nem poema com tanto pesar para expressar sua amargura, agora ambos ouviam o silêncio do tempo suspenso entre um par de respirações, ar entra e ar sai, mas o peito continua preso, o nó continua lá.

Ela tinha medo de falar, de pedir desculpas, talvez sua voz o incomodasse agora, talvez sua voz o lembrasse do quão suja ela estava, tinha medo de falar e perder aquele abraço, o último.

Se ela tinha se arrependido e sentia remorso por tê-lo machucado, ele sentia raiva por ter sido traído e dor por não poder mais tê-la como sua, só sua.

A nódoa da infidelidade é difícil de remover, e com o inverno que se instala no coração torna-se muito difícil secar o tecido manchado.

Ele deixou a sala, antes mesmo de virar as costas já queria ter voltado para aqueles braços que agarravam sua vida como a coisa mais importante do mundo, queria o amor que afastava.

Só depois que ele saiu e não poderia mais ouvi-la, ela chorou, em desesperada agonia.

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